Pichando marcas

Nos bairros nobres de São Paulo, jovens da periferia ocupam um dos poucos espaços em que podem se expressar: paredes e muros. Suas pichações estampam na paisagem central a realidade das desigualdades sociais

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Não há outra forma de começar: sou do centro. Nasci e cresci no centro expandido de São Paulo. Nos últimos anos antes de me mudar para a Austrália, vivi na Bela Vista, à beira do Centro Velho, conhecida no passado pelos inferninhos da Rua Augusta e uma certa decadência generalizada. Mais recentemente, parte do bairro foi invadida por jovens de todas as raças e orientações, rebatizada de Baixo Augusta, e tornou-se uma das áreas mais vibrantes da capital.

Quando vou a São Paulo, faço questão de retornar à Bela Vista. Em fins do ano passado, algo além da moçada nas ruas à noite saltou aos olhos. Nas paredes, muros, portas, janelas e batentes, um sem-fim de pichações de todos os estilos contrasta com a relativa despoluição visual após a Cidade Limpa[1]. A impressão é a de um território ocupado.

[1]Lei nº 14.223/06, em vigor no município de São Paulo desde 2007, proíbe a propaganda por meio de outdoor e regula o tamanho de letreiros e placas, com o objetivo combater a poluição visual

QUEM SERIAM OS AUTORES DESSAS INSCRIÇÕES?picho2

De acordo com Teresa Pires do Rio Caldeira, professora do Departamento de Planejamento Urbano e Regional da Universidade da Califórnia em Berkeley, são jovens quase exclusivamente do sexo masculino pertencentes às “camadas subalternas”. Gente que muito provavelmente mora não no centro expandido, mas nas periferias.

Teresa estudou a miríade de pichações, assim como a maior mobilidade dos jovens pela capital, e publicou suas conclusões no artigo “Inscrição e circulação: novas visibilidades e configurações do espaço público em São Paulo”[2]. Segundo ela, o fato de que jovens da periferia têm acesso a bairros como a Bela Vista, e deixam ali sua marca, transforma e rearticula profundas desigualdades sociais. Mas não as extingue.

[2] Artigo publicado em português na revista Novos Estudos. Acesse-o aqui

A prefeitura foi bem-sucedida em conter a poluição visual de cunho comercial – e é frequentemente louvada por isso no exterior. Muito mais difícil é controlar práticas “transgressivas”, como o grafite e as pichações.

“Hoje as pichações são um pano de fundo onipresente na cidade, moldando o dia a dia dos paulistanos e, ironicamente, conferindo uma espécie de uniformidade a todos os tipos de espaço”, escreve Teresa. Seus autores cresceram em condições de pobreza acentuada, sem pleno acesso ao sistema escolar e a empregos regulares. A pichação é sua maneira de transcender seus locais e condições de origem, apropriando-se do espaço público.

Há criatividade, competitividade e risco envolvido no processo. Praticada quase como um esporte radical, a pichação quer chegar aos locais mais inacessíveis sem atrair a ação da polícia. Cada pichador tem sua marca e é capaz de façanhas ousadas para espalhá-la.

Em São Paulo a pichação tem estilo próprio e reconhecido: letras alongadas na vertical com linhas retas e pontas aguçadas, descreve Teresa. O chamado “tag reto” é tão característico que foi transformado na fonte tipográfica “adrenalina-sp”.

As marcas deixadas pelos moradores da periferia “estampam na cidade, em especial nas áreas mais ricas, a presença daqueles que supostamente deveriam se manter invisíveis”, diz a pesquisadora. Não se trata só de firmar presença, mas de dominar a produção de signos e deixar de ser representado por outros. Para Teresa, essa é uma das consequências mais inovadoras da democratização brasileira.

Ela chama atenção, porém, ao fato de que a maioria das pichações é praticamente incompreensível para quem não faz parte da turma de pichadores. Também não há a intenção de promover a dignidade, a cidadania, a inclusão social, as leis ou o Estado de Direito.

“As pichações são transgressões explícitas, marcadas pela agressividade e por uma teimosa resistência à assimilação”, escreve.“Elas acatam a ilegalidade como algo ao mesmo tempo inevitável e desejável, como o único lugar no qual os jovens da periferia podem se expressar.”

Se há que se comemorar o fato de que jovens da periferia hoje têm mobilidade física e ocupam espaços antes a eles negados, a proliferação de pichações tanto na Bela Vista como em qualquer outro bairro denuncia a imobilidade da sociedade. Não adianta esfregar e limpar muros e paredes, seja no centro, seja na periferia, a imagem das barreiras que nos separam ainda estará lá estampada.

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