A fome dos sem-saneamento

As doenças disseminadas pelo esgoto criam um círculo vicioso de subdesenvolvimento. Há pesquisas que até correlacionam micro-organismos e prêmios Nobel

colunaSaneamento básico é um luxo distante para 1 bilhão de pessoas que evacuam ao ar livre e outros 2,5 bilhões que não têm acesso a latrinas decentes [1].

[1] Segundo a ONU, 1,9 milhão de pessoas passaram a ter acesso a algum tipo de sanitário entre 1990 e 2011. Mas ainda estamos longe de cumprir a meta dos Objetivos do Milênio, de redução à metade da porcentagem de sem-latrina na população global

Animação veiculada no The Guardian mostra que há mais pessoas no mundo com celulares do que banheiros. É um problema que não se limita à higiene. Um número crescente de estudos tem indicado que a inexistência da coleta de esgotos pode gerar um quadro de desnutrição crônica. E, em última instância, as doenças disseminadas pelo esgoto a céu aberto criariam um círculo vicioso de subdesenvolvimento. Isto é particularmente evidente na Índia, onde a metade da população não tem acesso a banheiros. Crianças indianas nascidas em regiões relativamente prósperas, de famílias que têm pequenos rebanhos de cabras e estoque de mantimentos, apresentam níveis de desnutrição piores do que os observados na África Subsaariana. Cerca de 65 milhões de indianos com menos de 5 anos têm estatura abaixo da média – e este número inclui um terço dos filhos das famílias mais ricas do país. Seus organismos são obrigados a gastar muita energia para combater as infecções derivadas da exposição ao esgoto, onipresente em suas comunidades.

“Os corpos dessas crianças desviam energia e nutrientes que seriam destinados ao crescimento e ao desenvolvimento do cérebro para outra prioridade, a luta contra infecções”, diz Jean Humphrey, professor de Nutrição Humana da Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, em reportagem recente do jornal The New York Times.

Trata-se de uma informação determinante para as estratégias de combate à fome – mas ignorada até recentemente pelas Nações Unidas e organizações humanitárias. Um relatório sobre desnutrição infantil publicado em 2012 conjuntamente pelo Unicef, a Organização Mundial da Saúde e o Banco Mundial nem sequer menciona a correlação entre a falta de saneamento e o baixo peso em crianças.

Mas isso estaria começando a mudar. Em um documento divulgado em novembro pelo Banco Mundial, a organização admite que investimentos em saneamento podem melhorar a capacidade cognitiva infantil. Essa posição é corroborada por vários acadêmicos. “Nossa pesquisa demonstrou que crianças de 6 anos que foram expostas ao programa de promoção do saneamento da Índia no seu primeiro ano de vida estavam mais propensas a reconhecer letras e números simples em testes educacionais do que aquelas que não foram expostas”, diz o economista Dean Spears em entrevista ao diário indiano The Hindu.

Spears está cursando uma pós-graduação sobre saúde infantil em países em desenvolvimento na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. “A diferença na altura média de crianças indianas e africanas pode ser completamente explicada pelas diferentes porcentagens da população que evacua ao ar livre”, declara.

A ciência também começou a associar o saneamento ao grau de inovação de uma dada sociedade. Por que a Dinamarca tem um número de prêmios Nobel per capita muito maior do que a Itália?, pergunta-se Damian Murray, pesquisador do Departamento de Psicologia da Universidade da Califórnia em Los Angeles. A explicação, ele escreve, em artigo recém-publicado no The Journal of Cross-Cultural Psychology, parece estar no fato de que a Dinamarca tem uma incidência muito menor de doenças causadas por micro-organismos.

Murray especializou-se no estudo do impacto de variáveis ecológicas na capacidade cognitiva, na personalidade e nas diferenças interculturais. Nesse trabalho, ele estabelece uma correlação entre a incidência de doenças causadas por micro-organismos e cinco indicadores da capacidade inovativa, inclusive a conquista do Nobel, nos 161 países analisados. “A prevalência de patógenos permite prever de forma significativa a ocorrência da inovação, quando há controle estatístico de outras supostas causas de variação intercultural, como a educação, a riqueza e a estrutura populacional”, escreve.

O pesquisador especula, então, que programas de vacinação seriam bons instrumentos para se criar uma atmosfera cultural que encoraje a inovação.

Investimentos em segurança alimentar podem dar com os burros n’água em comunidades que vivem imersas nos seus próprios esgotos, como nas favelas e palafitas Brasil afora. O acesso a uma estrutura mínima de saneamento é essencial para que esses grupos saiam da miséria extrema.

*Jornalista especializada em meio ambiente, escreve para os blogs De Lá Pra Cá e Deep Brazil

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