Sociedade dos excessos

Enquanto o homem contemporâneo idolatra os ícones da evolução tecnológico-científica,perde qualidade de vida nas grandes cidades

Há um mal-estar no ar nesses tempos de excesso de informação, de estímulos visuais, auditivos e artificialmente sensoriais: a nítida impressão de que, cada vez mais, as pessoas estão sendo consumidas por aquilo que consomem. A poluição de estímulos é hoje tema recorrente na agenda de acadêmicos de diversas áreas, da Comunicação à Psicologia.

Entre os que estão se debruçando sobre a questão, a conclusão geralmente aponta para duas direções: em primeiro lugar, estamos perdendo o foco. Essa é a teoria do psicólogo americano Daniel Goleman, autor de um clássico da década de 1990, Inteligência Emocional. Em seu novo livro [1] Foco: a atenção e seu papel fundamental para o sucesso, o autor dá dicas sobre como se manter concentrado em um mundo com tantas distrações à disposição. Há, inclusive, várias ferramentas on-line para ajudar o internauta a não se distrair, como Concentrate, StayFocused, Antisocial, FocusMe, entre outras.

[1] Lançado no Brasil em janeiro deste ano pela Editora Objetiva

Em segundo lugar: estamos perdendo a noção do que é realmente importante na vida, do que faz tudo valer a pena. Itens que a antropóloga Françoise Héritier listou em seu livro O Sal da Vida (Editora Valentina, 2013). Família, lazer, trabalho voluntário, tempo para pensar ou dedicar-se à espiritualidade, um piquenique no parque com as crianças, tempo para falar com os amigos (ao vivo e em cores, e não pelas redes sociais) ou para descansar a mente. Isso tudo parece ter ficado em segundo plano. Temos ferramentas demais e, na essência, estamos menos disponíveis.

Na década passada, pensadores como o sociólogo italiano Domenico De Masi chamaram a atenção para a importância do ócio como habitat do processo criativo. Essa ideia, no entanto, não é contemporânea. Já aparecia entre as preocupações de Plotino, filósofo neoplatônico que se ocupou de temas como a contemplação e o silêncio. Nos anos 200 d.C. Plotino falava da “contemplação criadora”.

Mas o ato de contemplar tornou-se luxo. Nossa atenção é constantemente requisitada, mesmo quando estamos desconectados. No elevador e no metrô, há circuitos internos de TV. Na cabeleireira, há rádio, TV e wi-fi. Nos ônibus, quase todos usam fones de ouvido – e o motorista escuta o rádio. Nos carros mais modernos, há toda sorte de recursos, que invariavelmente emitem sinais luminosos e sonoros.

As crianças já nascem em meio a um turbilhão de estímulos. Reportagem publicada na revista Exame Info, relata que a Academia Americana de Pediatria e a Sociedade Canadense de Pediatria recomendam que bebês de 0 a 2 anos não sejam expostos à tecnologia de aparelhos móveis como celular, tablets e jogos eletrônicos. E até os 18 anos o uso desses aparelhos deve ser limitados a duas horas por dia.

Entre as consequências para os que ultrapassam até cinco vezes essa recomendação estão o crescimento cerebral acelerado, atraso no desenvolvimento, obesidade epidêmica, privação do sono, agressividade, criação de dependência, e outros males.

O mundo mudou em uma velocidade que parece superior à nossa capacidade de raciocinar sobre essas mudanças. Eis aí a dor e a delícia do homem contemporâneo.

Abordamos, a seguir, alguns dos principais estímulos com os quais somos bombardeados cotidianamente: sonoros, luminosos e digitais, a ponto de caracterizarem verdadeiras poluições.

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