Riscos mapeados

Estudo inovador incorpora mudança climática à questão hídrica e traz olhar econômico para tomada de decisão

JOSE ROBERTO V. MORAES
JOSE ROBERTO V. MORAES

Se os atuais riscos climáticos que afetam o setor de recursos hídricos têm gerado perdas econômicas evidentes para a sociedade, não considerar os efeitos da mudança climática no planejamento futuro significa ignorar boa parte da conta a ser paga por todos. Mas as perguntas que fazemos são: “Em que local estamos em risco e em relação a quê?”; “Qual a magnitude da perda econômica esperada?”; e “Como podemos responder a esse risco?”

Recente estudo contratado pela Secretaria de Mudanças Climáticas e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente (com a Agência Nacional de Águas como parceira) e elaborado pelo Programa de Política e Economia Ambiental do GVces busca explorar essas perguntas. Trata-se da aplicação de um método de análise de custo-benefício de medidas de adaptação à mudança do clima aplicadas à bacia federal dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), entre São Paulo e Minas Gerais, voltado para os usos da água em abastecimento, nas indústrias e em irrigação, e os riscos associados à escassez hídrica no futuro. Tem como horizonte o ano de 2050.

O método avalia o risco climático total, definido por aqueles trazidos pelas trajetórias socioeconômicas futuras, somados aos incrementais provenientes da mudança climática. Assim, o estudo incorporou recentes cenários climáticos às projeções socioeconômicas para a bacia (população, produção industrial, PIB gerado etc.), caracterizou os riscos físicos traduzidos em déficits hídricos (onde e de que estamos em risco?) e estimou os correlatos impactos econômicos para os três usos em 2050 (qual a magnitude da perda esperada?).

Sem processos adaptativos, as perdas econômicas incrementais na bacia representariam um percentual significativo do PIB da região em 2050. Em especial, só as perdas causadas pela mudança climática podem representar cerca de 25% a 40% dessas perdas incrementais totais estimadas.

Em outras palavras, um planejamento que não levasse em conta a mudança do clima estaria negligenciando pelo menos um quarto das perdas potenciais futuras causadas pela escassez hídrica nos usos analisados, ou seja, deixando de ver uma boa parte do problema.

O último passo foi, após o levantamento juntamente com especialistas do setor, analisar medidas de adaptação possíveis (como podemos responder?), que vão desde obras, passando pela gestão da demanda, até a adoção de práticas conservacionistas na bacia. Para as medidas cujos dados permitiam, foram estimados os custos de implantação e a perda econômica por elas evitada (benefício).

A análise econômica deve ser sempre confrontada com outros critérios. Apesar das limitações de uma aplicação didática e da necessidade de aprofundamento nos modelos, dados e premissas utilizados, a mesma apresentou um alto grau de aderência com a realidade e representa um avanço metodológico e ferramental singular no País. Permite incorporar à tomada de decisão fatores que vão além do simples atendimento à demanda baseada em séries histórias, como a consideração da mudança climática e a valoração econômica dos custos e benefícios societários de medidas.

SINTONIZANDO

O GVces apresentará no 7º Fórum Mundial da Água os resultados e aprendizados do estudo piloto de avaliação de custo-benefício de medidas de adaptação em recursos hídricos (elaborada para o MMA em parceria com a ANA). O evento será realizado na Coreia do Sul nas cidades de Daegu e Gyeongbuk, entre os dias 12 e 17 de abril.

Além de um processo regional, o fórum é organizado em torno de temas prioritários, e o estudo se insere na agenda temática de Impactos e Implicações das Mudanças Climáticas.

Organizado pelo Conselho Mundial da Água em parceria com o país-sede, o fórum é realizado a cada três anos e é o maior evento internacional abordando o tema. Objetiva inserir e gerar engajamento em torno do tema na agenda política, além de debater e propor soluções para o uso racional desse recurso.

O Brasil estará presente por meio da sua Seção Brasil, que reúne dezenas de  instituições e segmentos envolvidos no tema, inclusive o GVces. Este fórum poderá servir de inspiração para preparar o 8º Fórum Mundial da Água em 2018, que será sediado pelo Brasil, em Brasília.

*Pesquisador do Programa de Economia Ambiental do GVces

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