Crise da água empurra o Brasil em direção da energia solar

A seca devastadora que afeta o Brasil pode ter a consequência inesperada de, finalmente, fazer um dos países mais ensolarados do mundo levar a energia solar a sério.

A combinação de uma crise energética iminente provocada pelos níveis baixos dos reservatórios com a nomeação de um ministro de energia com mente mais aberta promete uma rápida mudança na situação.

A seca, que produziu a crise no abastecimento de água, tem baixado dramaticamente os níveis dos reservatórios que abastecem dezenas de usinas hidrelétricas nas regiões Sudeste e Centro-oeste do Brasil, área mais populosa e importante para a economia do País.

Como logo mais começa o período de seca de sete meses, quando a chuva é tradicionalmente escassa, os reservatórios da região afetada pela seca podem baixar para menos de 10% da sua capacidade, o que o novo chefe do Ministério de Minas e Energia (MME), Eduardo Braga, admite ser “catastrófico” para a segurança energética.

Isto significa que planos para introduzir a energia solar na matriz energética estão finalmente sendo considerados na busca de alternativas à geração hidrelétrica, na qual o país se baseia para produzir mais de 70% de sua eletricidade.

A contribuição da energia eólica produzida no Nordeste e no Sul, começou a crescer, mas a energia solar, apelidada de “uma fantasia” pela presidente Dilma Rousseff há apenas alguns anos atrás, tem sido ignorada.

No entanto, Braga anunciou planos para transformar dezenas de usinas hidrelétricas – que correm o risco de se tornar elefantes brancos com a diminuição de suas águas – em fazendas de energia solar.

Segundo os planos, milhares de painéis solares flutuando sobre bóias seriam lançados sobre a superfície dos reservatórios em baixa para aproveitar a energia do sol.

Técnicos do MME calcularam que poderiam adicionar até 15 mil megawatts (MW) de potência, o que é mais do que a capacidade máxima de duas das mais recentes mega-hidrelétricas que o país está construindo na Amazônia: Jirau, no rio Madeira, e o polêmico projeto de Belo Monte, no Xingu.

Os painéis solares teriam a vantagem adicional de reduzir a evaporação da água, enquanto, ao mesmo tempo são arrefecidos por esta, o que aumenta a eficiência de conversão da energia solar em energia elétrica.

Os projetos-piloto estão prestes a serem iniciados em duas barragens de propriedade de empresas estatais: Sobradinho, no rio São Francisco, Bahia, e Balbina, no rio Uatumã, Amazonas. Se forem bem sucedidos, os painéis solares serão introduzidos nas barragens das regiões oeste, sudeste e centro.

O Brasil não será o primeiro país a experimentar gerar energia solar em painéis flutuantes. A Austrália está testando isso sobre superfície de uma instalação de tratamento de águas residuais em Jamestown, South Australia. Lá a energia solar vai alimentar a própria planta de tratamento de águas. E no Japão, o governo da província de Chiba, a leste de Tóquio, anunciou em janeiro passado que vai construir uma usina solar flutuante no reservatório de Yamakura, que terá uma área de 180 mil metros quadrados e gerará energia elétrica para 5.000 famílias.

Para acelerar a entrada em produção de novas usinas solares Braga tem prometido incentivos fiscais para a produção de painéis fotovoltaicos e planeja introduzir novas regras para incentivar o uso destes painéis em edifícios com grandes áreas de cobertura.

Mais dois leilões de energia solar devem ser realizados este ano. No primeiro leilão deste tipo, realizado no final do ano passado, 31 usinas de energia solar foram escolhidas para fornecer uma capacidade total de 1.048 MW em 2017. O preço foi um pouco menor que US$ 90 por MW – entre os mais baixos do mundo.

No momento, a potência instalada de geração de energia solar no Brasil é da ordem de pífios 15MW, em grande parte instalados nos telhados dos estádios de futebol construídos para a Copa do Mundo de 2014. Porém o potencial brasileiro de geração de energia solar, de acordo com alguns analistas, é equivalente a 20 vezes a atual capacidade total instalada de geração de energia elétrica.

Os fatores que contribuíram para o baixo custo da energia solar neste último leilão são a forte radiação solar incidente na maioria do território brasileiro e o fato de muitos dos parques solares participantes do leilão serem projetados para as mesmas áreas dos atuais parques eólicos, reduzindo assim o custo de aquisição de terreno e de implantação de novas linhas de transmissão.

Os contratos de 20 anos para o abastecimento de energia envolvem investimentos da ordem de US$ 1,67 bilhão, e muitas empresas estrangeiras já estão se acotovelando para conseguir um lugar ao sol no Brasil, no que promete ser um mercado em rápida expansão dentro de alguns anos.

Empresas espanholas, canadenses, americanas, italianas e chinesas já colocaram um pé na porta. E, logo que o governo e o BNDES apresentarem as prometidas isenções e linhas de financiamento, o setor de energia solar pode decolar.

Enquanto espera para ver se o experimento solar sobre os reservatórios funciona, o governo torce para que o consumo de energia seja reduzido por meio de campanhas publicitárias e aumentos de preço. A desaceleração da economia, com pouco ou nenhum crescimento esperado para este ano, também deve ajudar, assim como o aumento da utilização de termelétricas, alimentadas por gás natural, carvão mineral e óleo diesel, que aumentaram sua contribuição à rede nacional em 20%.

Estas termelétricas têm operação cara, usam combustíveis fósseis e, portanto, emitem carbono à atmosfera. Devem ser ser remetidas à história quando a energia solar incorporar-se definitivamente à matriz energética brasileira.

Texto original de Jan Rocha publicado em inglês pela Climate News Network; traduzido livremente e adaptado por Delcio Rodrigues (Vitae Civilis/GSCC).

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