Cultura de ocupação

Atividades artísticas e culturais viram ferramentas para seduzir os cidadãos e convencê-los a voltar aos espaços públicos

Nosso desafio é incorporar o afeto que se cria em torno da cidade, para que esta passe a fazer parte da vida das pessoas”, resume o artista visual e performer paulistano Paulinho Fluxus. Desde os tempos de movimento estudantil, ele vem experimentado maneiras de usar a arte para inventar novas – e mais criativas – formas de fazer política. O artista foi, por exemplo, um dos responsáveis pelo imenso varal de roupas estendido no  Churrasco da Gente Diferenciada [1]. “A gente fez uma intervenção lá para criar uma atmosfera de ‘laje’, e o varal acabou virando uma das bandeiras do evento”, conta.

[1] Realizado em 2011, o ato ironizava a oposição de um grupo de moradores de Higienópolis – bairro nobre paulistano – contra a instalação de uma estação do Metrô porque isso atrairia “gente diferenciada”

Acrescentar essa pitada de deboche foi um jeito de arejar as formas mais ortodoxas de militância. Paulinho Fluxus reconhece que o modo de militância tradicional possui “coisas muito sábias”; mas também a considera desnecessariamente sisuda. Para ele, as formas mais convencionais miram em uma revolução que está sempre no futuro, o que gera frustração. A sua proposta é vivenciar um pouco dessa revolução aqui e agora.

Isso também quebra parte da tensão envolvida na ocupação dos espaços públicos. “Criamos um clima mais amigável no qual as pessoas que tinham medo de estar na rua se sintam mais à vontade”, diz.

O Festival do BaixoCentro (FBxC) é outra ação que têm na arte sua razão de ser. Com três edições realizadas, é organizado de forma horizontal e procura viabilizaratividades artístico-culturais nos bairros atravessados pelo  Minhocão [2].

[2] Nome popular do Elevado Costa e Silva, polêmica via expressa que liga as Zonas Leste e Oeste de São Paulo, passando pelo Centro

O festival foi idealizado como peça de resistência contra a mão pesada com que o poder público vinha tratando a região central, na época em que a Polícia Militar, por meio da Operação Sufoco, procurava dispersar os usuários de droga na  Cracolândia [3] de forma, não raro, truculenta. Enquanto isso, o projeto Nova Luz propunha colocar abaixo praticamente um terço do bairro da Santa Ifigênia. “A administração pública estava cada vez mais repressora. Organizamos o festival para levar a sociedade civil para as ruas e questionar o direito à cidade e à qualidade de vida urbana. Usamos a arte como meio”, conta Thiago Carrapatoso, do coletivo ligado ao FBxC.

[3]Trecho do Centro de São Paulo em que há grande concentração de usuários de crack. Está circunscrita (mas não restrita) ao polígono das ruas Mauá e Cásper Líbero, e avenidas Rio Branco, Duque de Caxias e Ipiranga

Ao se trabalhar com atividades por natureza efêmeras, surge a questão de como garantir que a mudança produzida seja permanente. “O resultado tem muito a ver com a persistência, com continuar fazendo o mesmo trabalho ao longo do tempo”, afirma o grafiteiro Mauro Neri, do Imargem.

Ele mesmo pode ser considerado uma pessoa persistente que vem, com o irmão Tim Neri, tocando o movimento Imargem – que usa a arte como estratégia de enfrentamento das demandas sociais e ambientais do território às margens da Represa Billings, na Zona Sul de São Paulo. Os dois atuam como arte-educadores desde 2002. Mauro destaca o impacto que esse trabalho deixa para a próxima geração. “Inspiramos muita gente”, diz.

É uma mensagem que não fica longe da percepção dos responsáveis pelo FBxC. “O número de grupos que questionam e organizam atividades nos espaços públicos cresceu bastante depois do surgimento do FBxC. Uma de nossas integrantes diz que somos o ‘vovô’ de muitos desses grupos mais novos. Mas, claro, como a gente trabalha com criação de cultura de ocupação, isso leva tempo”, afirma Carrapatoso.

O Arruma Coreto também pode comprovar que é possível modificar a relação da comunidade com o espaço. Há sete anos, o grupo se reúne religiosamente no primeiro domingo de cada mês para tocar na Praça São Salvador,  no bairro carioca do Flamengo.

A flautista Ana Claudia Caetano, idealizadora da ação, conta que a praça estava semi-abandonada quando começaram o movimento. Hoje, é ponto focal para a vida cultural e noturna da Zona Sul carioca. A agitação ficou até demais para o gosto dos moradores e chega a surpreender os membros do Arruma o Coreto. “Não esperávamos esse sucesso todo”, diz a flautista. “Temos orgulho de, mesmo sem querer, tornar a praça conhecida.” Ela, espera, contudo, que o poder público faça sua parte e melhore a convivência no espaço.  (FR)

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