A fé está na mesa

Como a diversidade religiosa se manifesta em hábitos alimentares que nos conectam à natureza

Por Fernanda Macedo

Em sua palestra no EAT, o professor Johan Rockström diz que “dos nove  limites planetários [1] que regulam o planeta, todos eles estão relacionados à comida”. As práticas de agricultura e pecuária se tornaram hoje uma ameaça às condições necessárias para a vida humana na Terra. Mas nem sempre foi assim. Os hábitos de consumo e a produção de alimentos trazem em sua origem uma história de conexão entre a natureza e a espiritualidade humana.

[1] Limites ambientais seguros dentro dos quais a humanidade conseguiria continuar a se desenvolver e prosperar em gerações futuras

Na Grécia Antiga, os mitos – narrativas fantásticas criadas para revelar o sentido das coisas no mundo – abrigavam as religiões e seus rituais. Por exemplo, nos mitos gregos agrícolas, os sacerdotes recebiam os primeiros frutos que eram colhidos. Além dos frutos, tudo na lavoura – o plantio, o preparo e o cuidado com a terra – também carregava o caráter do sagrado.

Dos rituais mais antigos, como o xamanismo, até as teologias mais contemporâneas, o uso de elementos da natureza revela um sentimento de integração entre o natural e o religioso, o corpóreo e o espiritual. Uma das funções dos ritos religiosos é despertar a consciência para ações cotidianas. Por exemplo, na tradição judaico-cristã, partilhar a mesa nas refeições é partilhar a vida com as pessoas. São metáforas que traduzem para o dia a dia os valores de uma religião. “Aquilo que faz parte da vida constitui o elemento básico dos ritos”, comenta Alex Villas Boas, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

Um levantamento da ONG australiana Better Health  sobre cultura alimentar e religião mostra de que forma a comida se tornou uma parte importante da prática religiosa. No Cristianismo, restringir o consumo de certos alimentos ou fazer jejum é visto como uma forma de “orar com o corpo”. Acredita-se que seja possível melhorar a disciplina espiritual superando as sensações do mundo físico. Essa renúncia aos prazeres alimentares pode ser vista também como uma forma de respeitar pessoas ao redor do mundo que enfrentam fome ou desnutrição. Já no Islamismo, atos diários como comer são considerados uma forma de adoração.

As regras alimentares presentes em diversas religiões servem como rituais instauradores de disciplina e autocontrole. Domar a alimentação e suas tentações é domar a si mesmo, como defende o historiador Henrique Soares Carneiro em seu livro Comida e Sociedade: Uma história da alimentação.

A restrição a alguns alimentos, como a carne de porco no Judaísmo e Islamismo, tem origem em práticas de higiene e de cuidado dietético. Mas algumas culturas possuem também uma relação de maior “respeito” aos animais, frutos e plantas, por meio de rituais de “permissão” para a caça e o consumo desses alimentos. Tanto islâmicos como judeus têm rituais de abate para o sofrimento mínimo dos animais. Quem pratica o hinduísmo não come carne e também evita alimentos que podem ter causado dor aos animais durante a fabricação, para evitar o chamado Karma – que representa a carga espiritual que acumulamos ou de que nos livramos durante a vida.

De forma semelhante à crença hindu no Karma, o budismo acredita que a violência ou dor provocada a outros retornará a você. Por isso, a maioria dos budistas opta por se tornar vegetariana. Assim, não contribui para a violência do sacrifício de animais, que seria uma das causas da agressividade humana.

Essas práticas podem revelar algo em comum na origem dessas religiões. “Elas não veem o ser humano como dominador da natureza, mas como um cuidador. Deve, com isso, estabelecer uma relação de convivência saudável, ou de sustentabilidade, como diríamos hoje em dia, com o mundo que lhe foi dado para viver”, diz Villas Boas, argumentando que a espiritualidade pode ajudar o homem a situar seu lugar no mundo, como um pequeno cocriador.

Redimensionar o papel do homem na Terra não é uma missão apenas das religiões. O alimento é central em tradições culturais, como no Japão, onde se diz itadakimasu antes de uma refeição, que literalmente significa “humildemente recebo”. É um agradecimento não apenas aos que participaram do preparo da refeição – o que inclui quem plantou, colheu, criou, abateu etc. –, mas também ao próprio alimento, que deu sua vida para que continuássemos vivendo a nossa.

O movimento alternativo da Contracultura, que eclodiu na década de 1960, era caracterizado pelo sincretismo religioso e propunha uma relação diferente com o alimento. A chave dessa união está no conceito de “energia”. “É a energia que busca aproximar o ser humano da divindade. A preocupação com a comida surge a partir da ideia de que uma boa alimentação pode trazer limpeza ao corpo, o que permitiria uma melhor circulação da energia e uma maior facilidade para o alcance da religiosidade”, comenta Paula Rondinelli, antropóloga e coordenadora de assuntos comunitários na Universidade Federal do ABC (UFABC-SP).

A distância do homem moderno em relação aos mitos, narrativas sagradas e também a outros pensamentos, como o movimento alternativo que mantém viva a conexão entre o homem e a natureza, “acarretou em uma perda de reverência pelo mundo”, comenta Villas Boas. Um resgate desse olhar contemplativo é fundamental para exercer a nossa própria espiritualidade. “Se o mais importante é o que vem depois da vida, então esta vida não faz sentido, e por que se preocupar com ela? Este é um dos efeitos de uma mentalidade religiosa mal situada”, critica.

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