Os novos rurais

Agricultores brasileiros querem mostrar que o campo está cheio de modernidade e inovação. Antes disso tentam se libertar de preconceitos seculares cristalizados na cultura brasileira

“Pobre Jeca-Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!”, escreveu Monteiro Lobato em Urupês, seu livro de estreia. O personagem – que pinta uma imagem nada abonadora da população cabocla que, então, habitava a zona rural dos estados do Sudeste – fez tanto sucesso que o termo “jeca” se consagrou com um verbete próprio nos melhores dicionários da língua onde consta como um sinônimo pejorativo para caipira.

O nome Jeca Tatu aparece pela primeira vez no artigo “Velha Praga”, que Lobato escreve em 1914 para protestar contra a prática da queimada, então muito difundida na agricultura brasileira. Tempos depois o escritor expandiria seu anti-herói ao fazer dele o protagonista do conto Urupês

“[O Jeca-Tatu] é a cristalização do discurso preconceituoso de uma classe social sobre outra. Nesse caso, o trabalhador rural”, explica Luzimar Goulart Gouvêa, professor da Universidade de Taubaté (SP) e autor do livro Monteiro Lobato e Mazzaropi e o Imaginário Caipira, no qual retoma a pesquisa de sua dissertação de mestrado. Para o pesquisador, os caipiras do começo do século XX praticavam uma agricultura pré-capitalista que conflitava diretamente com o tipo de produção das grandes propriedades. “A cultura caipira não agradava aos fazendeiros. Essas insatisfações cristalizaram na obra de Monteiro Lobato, uma memória que está muito presente até hoje”, prossegue.

Passados praticamente 100 anos desde que o personagem de Lobato virou um símbolo nacional, a agricultura brasileira está vivendo uma grande reviravolta e – para o bem e para o mal – vai se consolidando como uma das mais pujantes do planeta. Isso tem difundido entre a gente do campo uma mentalidade que em nada lembra a do Jeca-Tatu respondendo resignadamente que “não paga a pena” fazer qualquer melhoria em suas terrinhas.

Mais que agricultura

A verdade é que o universo rural brasileiro já não se resume mais à agropecuária. Essa mudança já havia sido diagnosticada quase duas décadas atrás pelo professor da Unicamp e atual diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) José Graziano, no artigo O Novo Rural Brasileiro. “[Está] cada vez mais difícil delimitar o que é rural e o que é urbano. (…) Pode-se dizer que o rural hoje só pode ser entendido como um continuum do urbano do ponto de vista espacial; e, do ponto de vista da organização da atividade econômica, as cidades não podem mais ser identificadas apenas com a atividade industrial nem os campos com a agricultura e a pecuária”, escreveu o autor, em 1997.

Segundo o professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) José Luiz Tejon, esse processo, que vem borrando as fronteiras entre as atividades agrárias e diversos segmentos da economia, não é novo nem específico do Brasil. Afinal, o conceito de agronegócio [1] começou a ganhar notoriedade ainda nos anos 1950 a partir dos trabalhos do economista da Universidade de Harvard, John H. Davis. “Ficou impossível ver a agricultura de forma isolada. Ela estava conectada a tudo o que vinha antes e ao que vinha depois”, explica Tejon, que há 10 anos coordena o Núcleo de Estudos em Agronegócio da ESPM.

[1] O termo enfatiza a relação de interdependência entre a atividade agropecuária e os elos da cadeia que vêm antes e depois dela. Isso coloca sob o mesmo guarda-chuva segmentos como as indústrias químicas fornecedoras de fertilizantes

Foi graças a essa interconexão que o agronegócio acabou se tornando o principal motor da economia brasileira. Em sua mais recente edição, o Relatório PIBAgro-Brasil aponta que o agronegócio gerou o correspondente a R$ 1,26 trilhão dentro de um universo de R$ 5,52 trilhões da economia nacional. E essa dependência vem se fortalecendo. Ao longo dos últimos 10 anos, o agronegócio cresce a um ritmo anual de 2,6%, enquanto a economia em geral avança em média 2,3% ao ano. Esse levantamento foi elaborado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) em parceria com a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

O coordenador do Programa de Mestrado em Agronegócios da Fundação Getulio Vargas Angelo Gurgel credita o atual ímpeto do campo brasileiro à chegada de uma nova geração ao comando das propriedades. São profissionais que foram em busca de novas técnicas de agronomia e gestão e toparam a briga de rever práticas muito arraigadas. “Em muitos casos, quando voltavam [da faculdade para a fazenda], tinham de convencer seus pais ou esperar para assumir”, descreve.

Trata-se de uma geração que guarda muito pouco da imagem tradicional do homem do campo. “Eles são muito urbanos no consumo e não se sentem mal na cidade, mas usam bota no pé e gostam de se ver como agro”, explica o professor. Alguns deles até mesmo desenvolveram carreiras independentes antes de fazerem o caminho de volta. Gurgel conta que uma de suas alunas atuais é uma administradora que trabalhava com moda há mais de dez anos quando decidiu tirar um ano sabático e voltar para a fazenda de seu pai. Foi uma redescoberta. “Ela viu que tinha muito potencial para melhorar as práticas de gestão da propriedade e já se sente uma pecuarista”, conta.

Nem tudo nessa revolução é pura modernidade. Algumas práticas do antigo Brasil rural ainda persistem, como o fato de a agropecuária ainda ser entendida mais como algo herdado do que uma atividade aberta a novos profissionais e empreendedores. Essa é uma constatação do próprio Gurgel, por ver uma proporção muito grande de herdeiros entre os alunos do mestrado que se dedicam a atividades, como se diz, da porteira pra dentro [2] – em franco contraste com o perfil mais variado dos alunos que atuam em outros ramos do agronegócio. “A agricultura ainda é um negócio que passa de pai para filho”, descreve.

[2] No jargão do setor, descreve o que se refere à produção dentro da fazenda (plantio, manejo, colheita, beneficiamento, manutenção de máquinas, armazenamento dos insumos, descarte de embalagens de agrotóxicos e mão de obra). Já “da porteira para fora”  descreve as atividades que ultrapassam os limites da propriedade como distribuição e comercialização

Isso estaria começando a mudar conforme ganha corpo um movimento de profissionalização que entende uma propriedade rural como uma “pessoa jurídica” idêntica a qualquer outra empresa. “Mas isso ainda é muito incipiente”, reconhece o entrevistado.

Mudança de percepção

Apesar dessas contradições, a nova musculatura do agronegócio força uma revisão na forma como a cidade olha para o campo. Um levantamento realizado pelo Núcleo de Estudos em Agronegócio da ESPM que ouviu 616 moradores de grandes cidades brasileiras, entre o fim de 2012 e o começo de 2013, mostrou que a agricultura está deixando os clichês para trás.

O público em geral não sabe muita coisa sobre o tema, mas há pelo menos uma boa vontade. A compreensão geral é que a agricultura moderna é intensiva em “tecnologia e conhecimento” e tão “importante” para o País que a profissão de “agricultor” é vista como a quinta mais relevante para a vida dos brasileiros – atrás de médico, professor, bombeiro e policial. “A pesquisa mostrou que o crescimento do agronegócio ao longo desses últimos anos está influenciando a opinião pública de forma favorável”, afirma Tejon. “Como não temos um histórico das percepções, não dá para fazer um comparativo, mas, como acompanho o setor desde 1975, posso garantir que, há alguns anos, a percepção seria de algo bastante atrasado”, complementa.

Diferença de ritmo

Acontece que nem todo mundo está na mesma página graças à bem conhecida desigualdade brasileira. “O Brasil é um país muito desigual em tudo e essas disparidades também estão muito presentes na agropecuária”, avalia Gurgel, da FGV, ressaltando que não é raro encontrar, no mesmo município, produtores que usam tecnologia de ponta e outros que estão no limite da subsistência.

De modo geral, as mudanças têm como epicentro propriedades de porte comercial com um perfil mais ou menos definido. Mas, de fato, essa não é a única face do campo no Brasil. É o que indica o vice-presidente do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), Claudio Pádua, que promove ações com pequenos produtores na Mata Atlântica e da Amazônia. “De um lado há a agroindústria pensando principalmente em commodities [3] e, de outro, há a agricultura familiar. Temos essas duas realidades que são muito distintas”, pondera.

[3] São produtos primários de origem tanto mineral quanto agropecuária produzidos em larga escala e negociados in natura em mercados globais

Há também o desejo por um rural mais moderno estimulado não apenas pelo crescimento e diversificação da economia agrária, mas, inclusive, por causa da emergência de novas tecnologias. “O mundo ficou completamente diferente depois do advento da internet. Em minhas conversas com jovens de regiões rurais da Amazônia vejo a importância de eles estarem conectados”, pontua o vice-presidente do IPÊ. Ele ressalta ainda que a falta de políticas públicas capazes de atender a essas aspirações dá “gás” ao problema do êxodo rural. “As pessoas querem permanecer no campo, mas querem botar modernidade no processo, ter acesso à banda larga, esporte e lazer”, afirma.

Criar políticas públicas para tornar o campo mais adequado e atraente ao estilo de vida dos jovens não é mera perfumaria, mas uma resposta para um problema muito grave: o envelhecimento da população rural. “A idade média de um pecuarista de leite nos Estados Unidos é de 50 anos e cresce um ano a cada cinco”, exemplifica Pádua.

Isso ainda esbarra nas dimensões superlativas do Brasil rural. Segundo o IBGE, cerca de 16,5% dos brasileiros vivem em zonas rurais, o que dá, praticamente, 34 milhões de pessoas. Destes, 8 milhões são jovens. “O País tem o desafio de construir oportunidades para que essa juventude permaneça no campo com qualidade de vida. A evasão e o envelhecimento do campo são uma realidade”, alerta o gerente-executivo do Instituto Souza Cruz, Allan Grabarz. Desde 2005, o Instituto Souza Cruz e outras cinco entidades mantêm a Rede Jovem Rural que conecta e promove ações de intercâmbio voltadas para a juventude rural.

Para Grabarz, o principal desafio hoje ainda está em oferecer uma educação contextualizada capaz de transmitir conteúdos técnicos cujo objetivo são as necessidades do jovem rural e eliminar os preconceitos que ainda pesam sobre eles. “Há nessas instituições um trabalho de descontruir esses estereótipos. Os jovens percebem que existe uma identidade rural, uma diferença – e não uma superioridade – entre o campo e cidade”, opina. “Os jovens rurais ainda sofrem muito com esse estigma por parte dos residentes das sedes de seus municípios.”

New cool

De acordo com Claudio Pádua, apesar dos avanços inegáveis dos últimos anos, ainda falta criar uma “nova simbologia” para o campo capaz de mostrar que o setor é tão inovador quanto qualquer outro. “Precisamos trabalhar mais com o que há de moderno na agricultura.” O problema é que, embora tenha muita coisa acontecendo em diversas frentes – como agrossilvicultura, agricultura orgânica, produção de baixo carbono, entre outros –, há a necessidade de retroalimentação para isso. “Foi a pesquisa que fez o agronegócio brasileiro explodir com a Embrapa servindo como o grande centro de formação. A gente não tem nada parecido”, critica.

Angelo Gurgel reconhece que comunicar a intensidade tecnológica da agricultura é um desafio. “A tecnologia do agro está oculta em lugares onde você não consegue ver, como nas sementes ou nos insumos”, explica.

Mesmo assim, meio na surdina, a agricultura está preparando sua próxima revolução tecnológica e é preciso agir rápido para que os pequenos fazendeiros consigam acompanhá-la. “Temos produtores já muito tecnificados que estão indo na direção de outros paradigmas como o da agricultura de precisão [4], se preparando para vender serviços ambientais produzidos a partir de uma boa gestão agroambiental, analisa. “Ao mesmo tempo em que temos agricultores que ainda estão plantando milho na enxada, que nem sequer se apropriaram das tecnologias da Revolução Verde [5]”.

[4] Modelo de produção que usa técnicas de georreferenciamento para mapear as propriedades de forma a diminuir substancialmente a quantidade de adubos e agrotóxicos aplicados

[5] Modelo de agropecuária que se popularizou a partir dos anos 1960 e que se baseia na intensificação do uso de mecanização, agroquímicos e sementes com melhoramento genético

Tejon acredita que os pequenos produtores também terão de inovar. “Não existe mais agropecuária contemporânea que não seja intensiva em tecnologia”, diz. Isso não significa que haverá um padrão hegemônico. “Uma propriedade orgânica não é menos bem gerenciada e tecnologicamente menos sofisticada do que uma convencional. O futuro não será isso ou aquilo, mas isso e aquilo. Vamos ter uma colcha de retalhos e vai ser muito interessante”, resume.

Para garantir que isso aconteça, Pádua, do IPE, defende que será preciso aumentar o repertório de políticas e iniciativas voltadas para o campo. Ele faz referência ao economista venezuelano Ricardo Hausmann e seus trabalhos sobre os blocos de construção da economia. “Ele diz que o desenvolvimento é um pouco como construir coisas com Lego. Se você tiver uma caixa pequena só vai conseguir montar economias simples; para montar algo complexo você vai precisar de uma caixa grande”, diz.

Grabarz, do Instituto Souza Cruz, também vai nessa direção ao afirmar que, se for para estancar de vez a migração de jovens rurais para os centros urbanos, será preciso agir de forma mais bem amarrada. “É fundamental a integração de políticas de acesso à terra, crédito rural, assistência técnica, internet, abordagem empreendedora, entretenimento e lazer”, defende.

Embora o agricultor brasileiro já tenha feito uma longa caminhada para chegar onde está hoje, ainda há um bom estirão pela frente. O caipira aguenta a caminhada. Ele tem, nas palavras do professor Goulart Gouvêa, uma “cultura de resistência” que acabou conseguindo dobrar até um tipo tão notoriamente teimoso quanto Monteiro Lobato. Anos depois de tê-lo desancado, o pai da Emília faria um mea-culpa ao reconhecer que o Jeca era um resultado de seu meio. “Jeca-Tatu não é assim, ele está assim”, disse o escritor. E, pelo jeito, não está mais.