Meu corpo, minhas regras?

Embora pareça pertencer à esfera privada, o corpo da mulher permeia as questões políticas, econômicas e sociais ao longo do tempo

Por que em pleno século XXI debater o corpo feminino ainda é um tabu? Por que motivo se perpetua a desigualdade de gênero em todas as camadas da sociedade? Não há uma resposta única e quase ninguém se arrisca a dizer em que ponto da história ficou decidido que homens prevaleceriam sobre mulheres – nem quem decidiu. Mas hoje há um reconhecimento global da desigualdade, e a equidade de gênero é um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

O que se tem notícia é de que, pelo menos desde a Revolução Neolítica, também chamada de Revolução Agrícola, quando a humanidade deixou de ser nômade e passou a se fixar em territórios e também a produzir mais registros sobre nossas atividades, há prevalência do patriarcado – modelo de sociedade em que os homens lideram e predominam. Isso já faz mais ou menos 12,5 mil anos.

De acordo com o historiador Yuval Noah Harari, em seu best-seller mundial Sapiens: Uma breve história da humanidade, hierarquias sempre são fruto da imaginação humana, que levam a regras sociais para um bom convívio. Não há certezas sobre o que levou à ocupação de postos hierarquicamente mais altos pelos homens. Porém, é fácil intuir que, no tempo em que ficou mais fácil se fixar em territórios e garantir as condições de sobrevivência, também houve aumento significativo da população. Além da gestação, os primeiros cuidados também dependem da mãe. Assim, a mulher se aparta da sociedade por um tempo, para cuidar de seus filhos – e alguém precisaria continuar provendo a família durante esse período. Portanto, historicamente, os espaços de decisão foram tomados por homens. Isso não quer dizer que eles são melhores políticos – apenas que ocupavam lugares negados às mulheres.

Essa é uma das explicações possíveis, mas não há resposta exata. E não justifica, por exemplo, os diversos relatos ao longo da história de exclusão da sociedade e até assassinato de crianças do sexo feminino ao nascer, tampouco explica o uso de força física de homens contra as mulheres, que é comum ainda hoje. “O debate sobre como a opressão começou é uma discussão antiga dentro do movimento feminista, mas só. Não havia um questionamento sobre isso antes”, diz a socióloga e doutoranda em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marília Moschkovich, ou Marília Moscou, como é conhecida. “Estudar a mulher sob a perspectiva feminina é muito recente, também, a partir da entrada de mais mulheres nas universidades na Europa e nos Estados Unidos, o que só ocorreu em massa na década de 1960.”

Para se ter uma ideia, no Brasil, por exemplo, o Ensino Superior chegou junto com a família real portuguesa, em 1808. Mas a permissão para mulheres entrarem em universidades veio somente em 1879, com a Reforma Leôncio de Carvalho. A primeira mulher a se graduar no Brasil foi Rita Lobato Velho Lopes, em 1887, que se formou em Medicina após defender a tese A Operação Cesariana.

A ocupação feminina na esfera política também é muito recente em todo o mundo. Os primeiros registros de permissão de voto às mulheres são de 1893, na Nova Zelândia, e em 1906, na Finlândia. Mas foi só com o movimento sufragista da Inglaterra e dos Estados Unidos, que conquistou o direito ao voto após a Primeira Guerra Mundial, que a participação feminina ganhou força globalmente. Também durante a Primeira e a Segunda Guerra e no período Entreguerras é que as mulheres na Europa conquistaram espaços antes ocupados pelos homens, tanto pela participação efetiva de seus maridos, pais e irmãos nos exércitos quanto pelas crises econômicas do período, que exigiram mais força de trabalho.

Essa nova função social das mulheres, com maior participação na política e no mercado de trabalho, também trouxe para o debate público a questão do corpo feminino. “Não é uma pauta nova. Tomando como referência a Europa, houve, por exemplo, uma mudança na forma como as mulheres se vestiam, inclusive impulsionada pelo movimento feminista”, diz Maria José Tonelli, doutora em Psicologia Social e professora titular no Departamento de Administração Geral e Recursos Humanos da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV Eaesp). “Supostamente, são assuntos separados, mas as esferas política, econômica, social e a forma de as pessoas se perceberem em sua individualidade estão articuladas entre si.”

Tonelli cita o papel da moda, e em especial da estilista francesa Coco Chanel, no questionamento ao padrão de vestuário imposto às mulheres. Chanel ficou conhecida por “masculinizar” os trajes femininos, criando terninhos e incluindo adereços como a gravata no guarda-roupa das mulheres.

A mudança no padrão do vestuário é ainda mais significante a partir dos anos 1970, com mais mulheres no mercado de trabalho e com o fenômeno da globalização. “As mulheres pobres sempre trabalharam. Mas as mulheres das camadas médias começam a entrar nas empresas privadas para aumentar a renda doméstica e passam a ter a possibilidade de uma carreira que fosse diferente da ocupação de secretária”, diz Tonelli. “E quando as mulheres começam a fazer carreira, lá pelos anos 1980, assumem um padrão bastante masculino.” Basta lembrar das ombreiras e blazers, na intenção de tirar o estigma de fragilidade do corpo feminino e de neutralizar as diferenças físicas entre homens e mulheres.

Atualmente, o padrão de vestuário mudou. Dependendo do segmento econômico em que se trabalha, os vestidos, saias e estampas parecem ter sido liberados pelas normas, que não estão escritas, mas estão postas. No entanto, há que se tomar cuidado para não entender as mudanças no modo de vestir feminino apenas como liberdade, ressalta Tonelli. “Hoje, se a mulher assumir demais esse padrão de ‘roupa de trabalho’, também será um problema. Há uma exigência de que as mulheres sejam mais ‘femininas’”, diz. “Ou seja, elas têm de estar nas organizações, mas têm de se portar bem, ter um padrão de fala e aparência mais ‘feminina’”.

 

O corpo é polêmico

Para além das questões políticas e do mercado de trabalho, não é de hoje que o corpo feminino é tema de debate. Se voltarmos um pouco no tempo, percebemos que o corpo humano sempre foi objeto de expressão artística. Porém, em um dado momento da história é perceptível uma exposição maior de corpos femininos do que de corpos masculinos na arte. O professor José Garcez Ghirardi, doutor em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês e professor da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, explica que o corpo humano, masculino e feminino, passou a ser mais polêmico no século XIX do que era nos séculos anteriores. “As pessoas estavam vivendo mais próximas, em cidades, por isso era preciso criar regras de etiqueta muito mais rígidas para que elas não se tocassem”, diz. “O espaço autorizado para a nudez em público era a arte.”

Porém, em meados do século XIX, alguns críticos passaram a considerar que os artistas estavam usando essa licença não por uma questão estética, mas, sobretudo, erótica. Os critérios não são muito claros, pois se valem da análise sobre a intenção do artista. Para apresentar quão complexo é fazer um juízo de valor sobre a arte ou sobre qualquer outro tema que gere divergência de interpretação, Garcez realiza com seus alunos a atividade The Naked and the Nude, em que a ideia é avaliar o sentido da presença do nu em obras de arte. “Isso deixa imediatamente claro que nós olhamos o mesmo fato e compreendemos de maneira diferente, e nenhum de nós está tendo uma resposta irracional”, diz. “O objetivo é entender que são formas de leitura, e não o certo ou o errado.”

Foi com base em uma tentativa de imposição do que era o certo e o errado de acordo com os códigos morais e religiosos que o mundo viu o surgimento da pornografia. “Sempre houve representação do sexo. Mas a denominação como pornografia ocorre quando os textos deixam de ser voltados para a sátira, acompanhados pela popularização do livro a partir do barateamento do papel e simplificação da impressão”, explica Erika Cardoso, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense e bolsista da Capes. Ela diz que os livros não circulavam livremente, mas sua existência não era um segredo e só eram acessados por homens da aristocracia: ricos e brancos. “A possibilidade de acesso das chamadas classes perigosas [1] – basicamente mulheres, pobres e jovens – a esse material gera a necessidade de regulamentação, juntamente com a questão da regulamentação da prostituição.”

[1] Na segunda metade do século XIX, a ideia de desvio racial se fazia empregar no policiamento vigilante daquelas que eram consideradas classes perigosas, ou seja, “a classe trabalhadora militante, os irlandeses, os judeus, as feministas, os gays e as lésbicas, as prostitutas, os criminosos, os alcoólatras e os loucos”. Mais aqui.

O termo pornografia é um neologismo grego que vem da junção das palavras pornos (prostitutas) e grapho (gravar, escrever), portanto seriam “escritos sobre prostitutas”. Antes de ser acessível a um número maior de pessoas, os textos eram categorizados como literatura libertina. O uso de gravuras tornou-os ainda mais “perigosos”, uma vez que imagens são inteligíveis também aos analfabetos, que compunham grande parte da sociedade até os séculos XIX e XX.

Erika Cardoso, que estuda história da pornografia, narra a dificuldade de ter acesso aos registros, já que a pornografia corria na clandestinidade. Porém, com os registros existentes, é possível perceber um roteiro comum: geralmente eram narrativas em primeira pessoa, por uma mulher, que relembrava ou descrevia seu comportamento sexual, às vezes na intenção de ensinar a uma mulher mais jovem. “Não dá para pensar em emancipação feminina num cenário em que as mulheres não tinham nenhuma participação política na sociedade, mas os textos falam sobre mulheres que, dentro desse contexto, estavam rompendo com expectativas de gênero a partir do sexo, porque não queriam se casar ou não queriam engravidar.”

No Brasil, os chamados “jornais alegres” veiculavam piadas, crônicas e gravuras com teor sexual. A primeira revista desse tipo publicada no Rio de Janeiro data de meados do século XIX e era editada em francês. Já no fim do século surgem outras publicações, e a mais famosa é O Rio Nu, lançada em 1898. Também eram narradas histórias sobre mulheres. Mas que mulheres?

“É possível analisar diversos vieses, como raça, classe social, padrão estético”, diz Erika Cardoso. “Um fetiche recorrente é de patrão e empregada. Aqui no Brasil, no início do século XX, a escravidão acabara de ser abolida e estavam chegando as primeiras ondas de europeus. As empregadas retratadas são brancas, de cabelo liso, ou seja, europeias.” As mulheres negras, em geral, eram representadas de maneira muito pejorativa. “Geralmente o homem representado recorrendo a essa mulher era um pobre coitado, que não tinha dinheiro para pagar por uma ‘mulher melhor’”. Também ficava explícito o preconceito contra mulheres mais velhas e mulheres gordas (mais sobre a condição das mulheres negras nesta reportagem).

“Nos anos 1950 começam as representações da mulher negra e mestiça invariavelmente pobre e objeto de desejo. Nada além disso”, relata Cardoso. Como exemplo, ela cita os gibis adultos de Carlos Zéfiro, que circularam nas bancas de jornal entre os anos 50 e 70. É comum encontrar relatos de sexo sem consentimento e uma representação de empregadas negras e pobres experimentadas sexualmente e subservientes aos seus patrões no sexo. As mulheres brancas são em geral ricas, virgens e disputadas, à espera do casamento. “Ainda hoje [a pornografia] tem um script da fantasia sexual, do trabalho, da virgindade. O que vem mudando é o questionamento: para quem e por quem está sendo feita essa pornografia?”

A historiadora ressalta que só muito recentemente a mulher foi entendida como potencial consumidora, dando origem a movimentos como o pós-pornô e o pornoterrorismo (mais na reportagem de capa). “Ainda há muita divisão mesmo dentro do movimento feminista sobre a pornografia, com um segmento que prega a abolição da pornografia, porque a compreende apenas como forma de exploração”, diz a pesquisadora. “Mas talvez a questão seja que uma sociedade machista demanda e produz uma pornografia machista.”

 

E a tal objetificação?

No hype do feminismo – em que cada vez mais é comum definir-se como feminista e ter acesso a informações sobre gênero –, possibilitado pela comunicação digital que levou o tema ao mainstream, movimentos como a Marcha das Vadias levantam como palavra de ordem “Meu corpo, minhas regras”. E o lema é usado desde temas como aborto, humanização do parto e violência contra a mulher até assédio, cantadas na rua e a exposição do corpo feminino na publicidade e no Carnaval.

Sobre essas duas últimas questões, há um inflamado debate sobre a objetificação do corpo feminino. Em 2017, depois de muitos anos, a famosa vinheta da Rede Globo que marca a chegada do Carnaval trocou a exposição de uma mulher negra dançando nua com pinturas no corpo por um grupo de pessoas, mulheres e homens, usando fantasias.

O professor José Garcez explica que, durante muito tempo, a repressão no campo da sexualidade foi vista como indício de repressão política e moral mais ampla. Portanto, a expressão da sexualidade, a exposição do corpo e a adoção de práticas sexuais não chanceladas pelo padrão vigente são consideradas como algo profundamente libertador. Há muitos anos, quando as pessoas talvez ficassem com vergonha de andar de biquíni, uma mulher sair nua na avenida tinha um lado de subversão, de poder fazer isso como forma de libertação.

“Em um espaço de relativa liberação sexual, começa a haver um questionamento de outra natureza: se essa sexualidade não está na verdade sendo capturada por uma sociedade de consumo que transforma em objeto de troca e consumo todas as dimensões da vida humana, inclusive o corpo”, analisa Garcez. “É dentro desse quadro que começamos a ter as pessoas menos descobertas nos desfiles de Carnaval.”

Maria José Tonelli relembra o episódio em que a atriz Leila Diniz, símbolo da liberação feminina no País na década de 60, escandalizou a opinião pública ao aparecer de biquíni na praia exibindo uma barriga de gravidez de muitos meses. “O corpo da mulher grávida ainda hoje é um incômodo. No ambiente de trabalho, que deveria ser de racionalidade, uma mulher grávida expõe que houve uma relação sexual, que gerou uma gravidez e ainda assim consegue exercer seu trabalho”, reflete.

“O corpo é algo muito concreto, está orientado pela nossa cultura e ao mesmo tempo também molda a nossa cultura e diz muito sobre nossa estrutura de poder”, diz Marília Moscou, da Unicamp. Valendo-se da Antropologia e da História, ela lembra que toda sociedade tem um sistema de parentesco que, mais que as relações familiares, estabelece relações de direitos de umas pessoas sobre as outras. “Essa forma de organizar o poder na sociedade trata alguns como mais ou menos humanos que outros”, diz. “Quando falamos que as mulheres não têm direito ao próprio corpo, falamos sobre estupro, sobre aborto, sobre uma condição menos humana de vida para mulheres.” Não podem ser excluídos também outros recortes nessa análise, como classe social e cor da pele, que tornam alguns grupos ainda mais vulneráveis e menos donos de seus corpos.

Marília Moscou ressalta que hoje o movimento feminista é mainstream, mas é mais individualizado e descolado de outros grandes projetos de sociedade, que envolvem coletivos, partidos políticos e organizações. Ela avalia que há um risco de despolitização do movimento, o que pode enfraquecê-lo. Como exemplo, a socióloga cita retrocessos em leis sobre aborto e violência doméstica pelo mundo – caso da Rússia, onde recentemente a violência contra a mulher teve a pena abrandada e foi descriminalizada. “O corpo é o grande terreno de batalha dentro do feminismo e do feminismo com a sociedade.”

A professora Maria José Tonelli alerta para o fato de que as políticas, nem sempre escritas, mas ditadas por condutas sociais, sempre podem mudar. “Com as novas mídias as pessoas se comunicam mais e pode ser que isso nos ajude. Mas às vezes ficamos muito presos no momento e perdemos a perspectiva histórica”, diz. “Não podemos achar que estamos numa etapa em que retrocessos nesse campo não possam acontecer.”