Estudo mapeia empreendimentos com impacto social positivo na alimentação

No Brasil do agronegócio turbinado pela alta tecnologia, somente 9,3% dos estabelecimentos rurais contam com qualificação e assistência técnica. No Brasil em que metade da população tem sobrepeso, 5 milhões passam fome. No Brasil em que 52 milhões de pessoas não acessam diariamente comida de qualidade e na quantidade satisfatória, 41 mil toneladas de alimentos são desperdiçadas por dia.

Neste país das contradições, um mapeamento realizado pela Artemisia e pela Fundação Cargill identifica oportunidades para soluções inovadoras que tragam impactos sociais positivos para quem produz e quem consome.

Lançada em 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, a Tese de Impacto Social em Alimentação obviamente não resolve problemas históricos de desigualdades e de deficiências na gestão pública no que refere a acesso à alimentação de qualidade. Mas se propõe a identificar oportunidades locais que startups são capazes de desenvolver, inspirando possíveis e diversificadas soluções de larga escala.

O mapeamento analisou aspectos como gestão do campo e viabilização do pequeno produtor, logística, processamento de alimentos, oferta e consumo adequados e educação nutricional, tendo como temas transversais informação para a formação, desperdício de alimentos e segurança alimentar. Na cadeia que envolve produção, logística, processamento, oferta e consumo de alimentos, o pequeno agricultor familiar e o consumidor de baixa renda aparecem como os elos mais vulneráveis.

Para minimizar esse quadro, são identificadas as seguintes oportunidades de empreendimento social (segue abaixo a reprodução de uma parte do levantamento):

OPORTUNIDADES PARA EMPREENDER

O mapeamento aponta algumas premissas que devem nortear a atuação de empreendedores de impacto social que desejam investir em produtos e serviços focados em alimentação para a população de menor renda. Para desenvolvimento de startups focadas na etapa de produção, por exemplo, há uma demanda por soluções offline, em que o produto ou serviço possa funcionar sem depender exclusivamente de conectividade no campo.

Hoje, entre as Agtechs, a maioria das soluções encontradas é destinada a produtores já conectados a mercados e com acesso a tecnologias; há uma demanda por soluções que levem em conta a realidade do produtor em situação de maior vulnerabilidade.

Grandes oportunidades também para iniciativas no Norte e Nordeste, regiões que demandam soluções mais simples e que permitam maior utilização da terra para produzir; desafios de irrigação, por exemplo, são recorrentes na região. Negócios que apresentem sugestões de ações e melhorias práticas para a tomada de decisão do agricultor familiar também podem ser exploradas. Com a baixa escolaridade, atividades como interpretação de gráficos e dados pode ser um desafio para o uso das soluções. Soluções desenvolvidas para a agricultura familiar que contenham elementos que auxiliem a capacitação administrativa ou produtiva do agricultor são outro exemplo de excelente oportunidade, uma vez que esse público é pouco assistido em termos de qualificação.

OPORTUNIDADE | ACESSO AO MERCADO

Ampliar o acesso a mercados e aumentar a rastreabilidade de produções – possibilitando maior conexão entre demanda e oferta – constitui uma oportunidade para empreender com impacto social no setor. De programas de assinatura para recebimento de alimentos direto do produtor, passando por soluções que permitam que pequenos produtores conheçam melhor as demandas de mercado, chegando a soluções que usam tecnologias como drones para otimizar a logística em áreas remotas como a região amazônica são alguns exemplos tangíveis dessa oportunidade detectada pela Tese de Impacto Social em Alimentação.

A Sumá é um dos exemplos mais promissores. Fundada em 2016 pelo engenheiro agrônomo Alexandre Leripio, pela engenheira ambiental Daiana Paulina da Luz Censi Leripio e pelo administrador de empresas Marco Antônio Harms Dias, o negócio de impacto social oferece uma plataforma de comercialização justa da agricultura familiar. A solução conecta diretamente produtores com compradores de alimentos, tendo por objetivo aumentar as margens do pequeno produtor. Para isso, os empreendedores selecionam os produtores que apresentam produção qualificada, integrando-os a um Marketplace no qual o comprador consegue ter acesso aos produtores e demandar produtos específicos. Além disso, oferecem – via parceiros – a qualificação para produtores não aprovados no processo.

A plataforma torna o processo de compra e venda mais transparente e eficiente; conta com funcionalidades para a comercialização, o controle de perdas e conexão do consumo com o que é produzido localmente. Em piloto conduzido com 30 agricultores em 10 Estados, os resultados apresentaram redução de 30% nos custos dos produtos comprados via Sumá em relação ao modelo de mercado tradicional.

A Lei nº 11.947 determina que 30% dos alimentos comprados pelo governo para a alimentação escolar devam ser adquiridos diretamente de agricultores familiares; Menos de 10% do total dessas propriedades recebem assistência técnica regularmente para melhoria de suas produções. A agricultura familiar é responsável por 70% da alimentação dos brasileiros O setor público ainda tem dificuldade em adquirir diretamente do pequeno produtor. A comercialização ainda representa um grande entrave ao desenvolvimento da agricultura familiar. Com a atuação da Sumá pode haver uma mudança sistêmica para o aumento de renda desse pequeno produtor.

OPORTUNIDADE | PRODUTOS E SERVIÇOS FINANCEIROS ADEQUADOS

Soluções que permitam estimar a produtividade da safra e servir, dessa forma, como comprovante para a solicitação de serviços bancários; e mecanismos para a transação monetária sem necessidade de conexão à internet e deslocamento para centros urbanos são exemplos de produtos e serviços financeiros adequados às reais necessidades dos agricultores familiares. Essas startups podem minimizar os riscos e vulnerabilidade via produtos – crédito, seguro, meios de pagamento – e serviços.

O IOUU insere-se nesse contexto. Fundada em 2016 por Bruno Sayão – graduado em Administração de Empresas e Marketing – e pelo cientista da computação Ricardo Gobbo, a empresa de impacto social é um marketplace de empréstimo peer-to-peer para micros e pequenos empreendedores brasileiros. A empresa atua como um correspondente bancário que aproxima as duas pontas e faz o trabalho de aquisição de clientes e análise de crédito – que é oferecido por investidores cadastrados no site. Por meio da plataforma é possível oferecer um crédito mais barato e com menos burocracia para empreendedores que necessitem de financiamento.

OPORTUNIDADE | AMPLIAÇÃO DA CONECTIVIDADE

Aumentar a conectividade à internet e o acesso a outras tecnologias e meios de comunicação no meio rural para ampliar o acesso à informação e oportunidades. A conectividade no campo, apesar de estar crescendo, ainda é baixa – em especial, quando consideramos estabelecimentos familiares menores.

Em um país no qual 35% da população da baixa renda não possui acesso à internet, potencializando as condições de vulnerabilidade, a Wayfi apresenta uma solução para o acesso gratuito para comunidades – lógica que serve, também, para agricultores familiares de menor renda. Fundada em 2015 por Luiz Fernando Friedheim, Diego De La Vega, Nelson Gimenez Corrêa e Raphael Carvalho, a empresa produz, instala e realiza a manutenção de roteadores de internet, disponibilizando a rede ociosa de servidores empresariais. Na prática, oferece namerights (propriedade do nome que intitula o portal) para grandes empresas e espaços para anúncios publicitários para negócios locais.

A Wayfi cria um portal aberto automaticamente quando um dispositivo se conecta à rede – que permite a comunicação direta das empresas com a população local, em um sistema no qual a comunidade pode gerar e consumir conteúdo. O acesso da população na plataforma gera dados de navegação sobre o comportamento da baixa renda, informações que são difíceis de coletar via metodologias convencionais.

A empresa está em operação em cinco comunidades do Rio de Janeiro – por enquanto, ainda no meio urbano – e atua com a distribuição da ampla capacidade ociosa das empresas de banda larga, oferecendo às comunidades de baixa renda internet gratuita. Com isso, reduz as condições de vulnerabilidade da população de baixa renda, que passa a ter informação e possibilidades e, ao mesmo tempo, cria mercados e canais para a publicidade voltada a esse público.

OPORTUNIDADE | INSUMOS, FERRAMENTAS E MAQUINÁRIOS ADEQUADOS E DE BAIXO CUSTO

Permitir que agricultores familiares e pequenos produtores possam reduzir os próprios custos e aumentar a eficiência nas diferentes etapas da produção, colheita e seleção, bem como diminuir a incidência de lesões decorrentes do peso e precariedade das ferramentas existentes são exemplos da oportunidade número quatro. Entre os exemplos, destacam-se estruturas para pós-colheita – que reduzam a exposição de hortaliças ao sol, evitando perdas; além de mecanismos e ferramentas para colheita e separação que aumentem a produtividade.

OPORTUNIDADE | APOIO E CAPACITAÇÃO PARA MELHOR GESTÃO E PRODUTIVIDADE

Soluções que instrumentalizam ou capacitam agricultores e técnicos para a melhoria da gestão, voltado a aumentar e tornar mais sustentáveis e produtivos os estabelecimentos agrícolas e/ou ganhar qualidade em seus produtos é o foco dessa oportunidade. Além disso, soluções que auxiliam as tomadas de decisão na gestão administrativa, diminuindo o número de estabelecimentos que possuem renda líquida negativa (realidade de mais de 50% deles).

Entre os exemplos, tecnologias inovadoras e de baixo custo que apoiam a gestão do estabelecimento agrícola; capacitação ou assistência direta ao produtor em gestão ou no uso de novas tecnologias para o campo; e capacitação indireta de técnicos do campo ou assessores técnicos no uso de novas tecnologias para ampliar produtividade.

A Agrosmart enquadra-se nessa oportunidade. Cofundada por Mariana Vasconcelos, a empresa ajuda o produtor a tomar decisões mais precisas na agricultura e tornar a irrigação mais inteligente. Por meio de sensores espalhados pelo campo e satélites monitoram, em tempo real, mais de 10 variáveis ambientais específicos de seu cultivo e enviam os dados para internet de forma automática. A empresa é tão inovadora que chamou a atenção da Agência Espacial Americana, a Nasa. A startup foi uma das selecionadas, dentre outras 500 startups ao redor do mundo, para desenvolver uma pesquisa na agência espacial. A Agrosmart apresentou uma das melhores soluções para resolver a crise hídrica, ao propor a redução do uso de água nas lavouras a partir do seu monitoramento em tempo real.

OPORTUNIDADE | ACESSO A FRUTAS, VERDURAS E LEGUMES

Permitir às pessoas que vivem em locais onde não há venda de produtos como frutas, verduras e legumes tenham meios para comprá-los a um valor acessível, podendo assim incorporá-los à rotina alimentar, é a tônica dessa oportunidade. Entre os exemplos, pontos de venda mais próximos dos consumidores; assinatura de produtos saudáveis a baixo custo; e soluções que permitam otimizar as compras logisticamente, diversificando produtos ou possibilitando compras coletivas.

OPORTUNIDADE | PRODUÇÃO PRÓXIMA AO CONSUMIDOR

As hortas urbanas são responsáveis entre 15% e 20% de todo o alimento produzido no mundo, de acordo com WorldWatch Institute (2011). Nas hortas caseiras e produção urbanas temos aproximação do consumidor à produção – pelo plantio para consumo próprio ou para venda – ampliando o acesso da população de baixa renda a alimentos frescos e saudáveis nos centros urbanos e áreas periféricas. A diminuição de custos logísticos e poluição são outros benefícios agregados. Entre os exemplos de soluções: produção em casa para consumo próprio; produção em organizações para consumo interno; e produção para venda.

OPORTUNIDADE | ACESSO A REFEIÇÕES SAUDÁVEIS

Essa oportunidade se baseia em oferecer uma alternativa de refeição saudável para a população de menor renda – que seja acessível geográfica e financeiramente, evitando assim o consumo de substitutos. Entre os exemplos de soluções, assinaturas de refeições a preços acessíveis; restaurantes de baixo custo; e barraquinhas de refeições rápidas e saudáveis a baixo custo.

Entre os negócios, destaque para Saladorama. Hamilton Henrique da Silva fundou o Saladorama em 2014 com a proposta de democratizar o acesso à alimentação saudável. A ideia surgiu depois de uma experiência própria do empreendedor. Aos 20 anos, Hamilton conseguiu uma bolsa de estudos em um curso de engenharia no Rio de Janeiro, onde conheceu o conceito de negócio de impacto – que o levaria mais tarde a trabalhar em um coworking em Botafogo, que oferecia refeições aos usuários. Foi lá que Silva percebeu a falta de opções de comida saudável na periferia.

O negócio de impacto social fornece alimentos saudáveis a baixo custo via delivery e restaurantes próprios. Além disso, oferece oficinas de formação para pessoas de comunidades que querem empreender seus próprios restaurantes ou trabalhar nos restaurantes da rede. Hoje, o negócio conta com cinco unidades que operam como delivery ou restaurante em Florianópolis (SC), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Sorocaba (SP) e São Luís (MA). O fornecimento de alimentos e as formações, oficinas e palestras sobre o tema já alcançaram cerca de 28 mil pessoas.

OPORTUNIDADE | ARMAZENAMENTO DE ALIMENTOS

Promover o armazenamento correto dos alimentos para venda e consumo, diminuindo as perdas e o desperdício é a temática dessa oportunidade. Dessa forma, garante a destinação antes do vencimento e a aumenta a durabilidade do alimento. São exemplos de soluções: embalagens mais apropriadas; gestão de estoques; e infraestrutura de refrigeração.

Nesse contexto, a Silo Verde se destaca. Fundada em 2015 pelo tecnólogo em equipamentos petroquímicos, Manolo Machado e por Maurício Bruno, graduado em Marketing, o negócio de impacto social oferece uma solução sustentável para o armazenamento de rações ou grãos com redução do desperdício e aumento na rentabilidade do pequeno produtor rural. A empresa apresenta inovação tanto no produto, quanto no modelo de negócio. Os empreendedores desenvolveram um silo construído a partir de matérias-primas poliméricas recicladas e de alta resistência, oriundas de garrafas PET, com montagem extremamente rápida e a um custo menor se comparado com os produtos do mercado. Em relação ao modelo, oferece locais para armazenamento de grãos e rações para pequenos produtores, viabilizados pelas indústrias. Nessa proposta, não gerar custos aos pequenos produtores, aumentando seu potencial de renda.

Entre as vantagens do produto, paredes interiores lisas – que não geram resistência ou acúmulo de produtos; sistema modular de placas (desmontadas, são de fácil transporte e de baixo custo); condutividade térmica inferior que protege o produto; possibilidade de comercializar o produto nos momentos de melhor oferta e preços; e melhor proteção ao ataque de pragas.

No Brasil, os pequenos e médios produtores fazem a venda após a colheita ou utilizam armazéns de terceiros – arcando com os custos em ambos os casos. Quando optam por estruturas rústicas de armazenamento, as perdas pós-colheitas podem atingir 50% da produção. Com a Silo Verde, o produtor tem um apoio adequado para vencer esses desafios.

OPORTUNIDADE | PREVENÇÃO & NUTRIÇÃO (SAÚDE)

Incentivar hábitos saudáveis por meio do direcionamento para mudanças de rotina alimentar e suporte para a reeducação nutricional a um preço acessível. Entre os exemplos de soluções: acompanhamento nutricional; cursos presenciais e online; capacitação de profissionais de saúde ; e acesso a profissionais de saúde.

Fundada em 2013 por Gustavo Silva, a Nutrisoft – negócio de impacto social que ilustra essa oportunidade – oferece uma plataforma que potencializa o acesso da população de baixa renda a conteúdos e direcionamentos sobre alimentação saudável, mudança de hábitos e prevenção de doenças crônicas. A solução disponibiliza ferramentas de registro alimentar e controle de hábitos que, com a colaboração de nutricionistas, orienta o usuário a ser mais saudável baseado em suas preferências. Além disso, a plataforma também pode ser utilizada para aumentar a adesão de pacientes de doenças crônicas ao tratamento. O serviço é destinado às pessoas que não têm acesso a nutricionistas (incluindo população das classes C e D, que normalmente não têm acesso a nutricionistas na rede pública); hoje, 60% dos usuários da plataforma são da baixa renda.

O negócio tem um grande potencial. No Brasil, 51% da população está acima do peso, sendo que 17% apresentam obesidade. O tratamento de doenças relacionadas à obesidade e ao sobrepeso custa R$ 3,57 bilhões aos cofres públicos – sobretudo as cardiovasculares. A empresa possui mais de 250 mil usuários ativos, sendo 150 mil das classes C e D; mais de 600 nutricionistas já utilizam a plataforma.

O grande problema da saúde no Brasil é o modelo de atendimento que não favorece a escala. Do outro lado, temos um perfil epidemiológico de doenças crônicas, que necessitam de longos tratamentos, onerando tanto o poder público, quanto redes privadas. Com a Nutrisoft, o empreendedor criou uma plataforma na qual a pessoa aprende sobre o tema maneira interativa e “gamificada”. É adaptado para cada doença crônica e possui um custo baixo: R$ 15 por mês. No lançamento do piloto, com foco em combate à obesidade, houve dois milhões de downloads do aplicativo.

OPORTUNIDADE | EDUCAÇÃO NUTRICIONAL

Para as famílias e para as escolas, a educação nutricional se faz necessária para garantir a conscientização de adultos e crianças sobre a importância de se comer bem para uma vida saudável. Entre as ações importantes e urgentes, destacam-se: capacitar pessoas sobre alimentação saudável – com receitas criativas, valorizando o aproveitamento integral de frutas, verduras e legumes; multiplicação desse conhecimento em comunidades e escolas; capacitação de profissionais que preparem ou vendam alimentos em escolas; incentivo aos pais para preparar lanches e professores para ensinar sobre o tema em sala de aula.

São exemplos de soluções: cursos presenciais e online; estímulo ao aproveitamento integral dos alimentos; capacitação de merendeiras; desenvolvimento de hortas em escolas com envolvimento dos alunos; e monitoramento nutricional em cantinas escolares, melhorando a qualidade dos lanches dos alunos.

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