Como os “rios voadores” impedem a desertificação na América do Sul

Carlos Bocuhy*

A corrente de umidade que vem da Floresta Amazônia representa um dos elementos mais cruciais para a manutenção da vida e da economia no continente, em especial a atividade agrícola

A natureza foi pródiga com o Brasil e seus vizinhos do continente sul-americano. Ao contrário de outras regiões do planeta, que sofrem um processo de desertificação, a América do Sul é privilegiada, pois é socorrida há milênios por um “milagre natural”, os chamados “rios voadores”.  Apesar desse enorme benefício natural, temos desprezado a conservação de uma das principais responsáveis por esse milagre, a Floresta Amazônica.

Os efeitos da desertificação são decorrentes da chamada “célula de Hadley”, fenômeno natural que consiste na circulação das correntes aéreas a partir do ar quente do Equador, que sobe com a umidade, circula até o Paralelo 30 e retorna para o solo com ar seco, provocando um processo de ressecamento e aridez. Como exemplo, podemos citar o deserto de Sonora, nos Estados Unidos, e o Kalahari, na África.

Mas na América do Sul, a massa de umidade que vem do Equador continua até mesmo na altura do Paralelo 30, pois existe um processo de umidificação constante da atmosfera, em seu trajeto, que vem desde a Amazônia, atravessando para a Bolívia, ricocheteando na Cordilheira dos Andes e retornando ainda com abundantes chuvas para o centro do continente.

Essa corrente de umidade dá vida à Bacia Paraná-Rio da Prata e ao Pantanal matogrossense, e atinge de forma benéfica o estado de Goiás, o Cerrado brasiliense, a Caatinga e até mesmo os Pampas. Beneficia, ainda, o bioma da Mata Atlântica. Portanto, seus efeitos benéficos representam um dos elementos naturais mais importantes para a manutenção da vida de todos os biomas brasileiros.

Os rios voadores são conhecidos também como  “rios aéreos” ou massas de transposição de umidade. Ao estudar este processo, verifica-se que as chuvas, ao longo de seu traçado, são produzidas pelas florestas e áreas úmidas. Estas possuem o dom de lançar na atmosfera não só a umidade pela evapotranspiração, mas também os aerossóis, que têm a característica de agregar a umidade e proporcionar uma verdadeira máquina de fazer chuva, entendendo-se continente adentro por milhares de quilômetros.

E o que isso representa? É o capital natural, a água, que permite a produção agrícola do Brasil, do norte da Argentina, do Paraguai, Uruguai e Bolívia. Não só a produção agrícola, mas também as atividades econômicas como indústria e serviços, a vida de nossas cidades sul-americanas, incluindo regiões metropolitanas como Brasília, Belo Horizonte e São Paulo.

Mas os benefícios proporcionados por esta máquina natural de chuva não param aí. Ela é responsável pela existência da grande biodiversidade da Amazônia e do Pantanal, entre outros ecossistemas associados, garantindo a existência e a vida de inúmeras espécies da vida animal e vegetal. Muito se fala em conservar a água, mas temos dedicado pouco tempo à compreensão do fantástico ecossistema amazônico e dos meios necessários à sua proteção, sem a qual não haverá sustentabilidade para o Brasil e para a América do Sul.

Precisamos compreender melhor e proteger os mecanismos responsáveis pela vida no continente sul-americano. Portanto, propomos uma discussão mais ampla deste tema, para que seja devidamente pautado pela sociedade brasileira. É necessário que se abra com urgência esta agenda de sustentabilidade ambiental, econômica e social – e que a discussão da proteção aos rios voadoresganhe o devido espaço por meio de um adequado e qualificado debate público.

Temos uma responsabilidade diante de dispositivos legais e compromissos assumidos pelo Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia, por exemplo, a Declaração de Estocolmo de 1972; a Declaração do Rio em 1992; o Tratado de Assunção que deu origem ao Mercosul; a Convenção de Diversidade Biológica; e, no âmbito nacional, a própria Constituição do Brasil, que determina a proteção do meio ambiente, da biodiversidade e dos ecossistemas essenciais à manutenção da vida.

 *Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam) e conselheiro do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama)

 

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