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Informação para o novo século

De lá pra cá

11.03.2011

Chamada à ação

0 por Flavia Pardini # em De lá pra cá

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Foto de John Michlig via Flickr

Foto de John Michlig via Flickr

Cenas quase inimagináveis ocorreram nas semanas que passaram em Madison, capital do estado americano de Wisconsin. Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra um projeto do governador e apoiar os sindicatos. Isso em um país em que a sindicalização e o poder dos sindicatos diminuem há olhos vistos há décadas. Dessa vez, porém, o ataque parece ter sido grande demais e muita gente se dispôs a agir, juntando-se a manifestações em frente ao Parlamento estadual.

O governador Scott Walker, republicano eleito em novembro, apresentou projeto para equilibrar o orçamento que prevê o corte de benefícios aos funcionários públicos e um ponto ainda mais polêmico, limites à negociação coletiva para o funcionalismo público. Na prática, trata-se de tirar dos sindicatos sua principal arma na batalha por melhores condições de trabalho. Desde meados de fevereiro, manifestantes protestam contra o projeto – que foi aprovado na Câmara dos Deputados – e os senadores democratas, minoria no Senado, deixaram o estado para impedir quorum para votar a matéria. Na última quarta-feira, os republicanos adotaram uma manobra que possibilitou a votação e a aprovação do projeto, sem debate e com 14 senadores ausentes.

Os sindicatos haviam concordado em aumentar a percentagem que os funcionários públicos contribuem para suas pensões e assistência médica e apontam que o projeto, mais do que equilibrar o orçamento, tem como objetivo neutralizar os sindicatos em Wisconsin, um estado com fortes raízes trabalhistas. Em vários estados americanos, os funcionários públicos não contam com a possibilidade de negociar coletivamente e, diante dos crescentes déficits orçamentários estaduais, vários outros estudam seguir o caminho de Wisconsin.

O elemento mais surpreendente em Wisconsin, entretanto, foi a disposição de muita gente de deixar o conforto do lar e enfrentar o frio para protestar sobre uma questão política. Analistas acreditam que os protestos de Madison podem ser o embrião da reação Democrata depois da vitória dos republicanos – com ajuda do chamado Tea Party, um movimento conservador que defende o corte de gastos públicos e menor taxação – nas últimas eleições.

Alguns esperam que Madison seja um “tipping point” para a mobilização política nos EUA, assim como os acontecimentos na Tunísia detonaram eventos em vários outros países do Oriente Médio. “Esses protestos talvez sejam o primeiro sinal de que o aprofundamento da crise econômica de 2008 pode empurrar muitos americanos para um tipo de política do protesto ausente deste país desde os anos 1930”, escreveu o socialista Billy Wharton.

Tal esperança talvez seja um tanto demasiada. Mas parte do movimento ambientalista acredita que é preciso aproveitar o momento. Os chefes de três importantes organizações – 350.org, Greenpeace e Rainforest Alliance – reforçaram nos últimos dias sua chamada à ação em defesa da justiça climática. “Do emocionante advento do movimento pela liberdade no Norte da África e no Oriente Médio à surpreendente defesa da democracia e dos direitos dos trabalhadores em Wisconsin, estamos vendo a força e a efetividade que as pessoas comuns podem ter quando se juntam”, escreveram.

Bill McKibben, da 350.org, diz que é preciso comunicar a urgência da situação diante das mudanças climáticas. “Uma das maneiras com que fazemos isso nesse país é com ação das massas e desobediência civil. É difícil e pode causar problemas, mas é algo que precisa ser parte do que fazemos”. A utilidade da ação em massa e de atos de desobediência civil, segundo ele, é relembrar as pessoas sobre quem são os radicais nessa história. “Os radicais não são as pessoas tentando fechar usinas a carvão nos EUA, os radicais são as pessoas dispostas a duplicar a quantidade de carbono na atmosfera e ver o que acontece”.

  • por Regina # em 11.03.2011 às 6:31 pm | Responder

    Adorei o post, Flávia. Aqui em Santa Fe muitos têm uma percepção muito negativa do que está rolando em Wisconsin (crise somada a barbaridades ocorridas em outros estados, como o Arizona), mas eu acho que talvez esse seja, mesmo, o tipping point de que este país está precisando.

  • por Flavia Pardini # em 12.03.2011 às 3:02 am | Responder

    Obrigada Regina. Acho que em geral há uma ambivalência dos americanos em relação aos sindicatos. Mas eles foram importantes na construção da classe média americana que, agora, parece estar ameaçada. O Hendrik Hertzberg escreveu um comentário interessante na The New Yorker sobre o movimento trabalhista, o crescimento da desigualdade nos EUA e porque os republicanos parecem tão interessados em neutralizar os sindicatos. http://www.newyorker.com/talk/comment/2011/03/07/110307taco_talk_hertzberg?printable=true#ixzz1GCxDDIrz

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Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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