O que antes era visto somente como tema ambiental passou a integrar o centro da análise econômica e estratégica das organizações. Esse movimento ganhou forma concreta com a criação das normas internacionais IFRS S1 e IFRS S2, que exigirão em 2027 o reporte sobre sustentabilidade e clima. O impacto vai além das grandes companhias de capital aberto, pois boa parte das informações será cobrada de suas empresas fornecedoras, exigindo preparação
Por Eliana Camejo*
Durante muito tempo, falar de clima e sustentabilidade no ambiente corporativo significava falar de reputação, imagem e responsabilidade social. Esse cenário mudou. De forma silenciosa, mas estrutural, riscos climáticos e de sustentabilidade passaram a ser tratados como riscos financeiros, com impacto direto no valor das empresas, no acesso a crédito, no custo do seguro e na manutenção de contratos. O que antes era visto como tema ambiental passou a integrar o centro da análise econômica e estratégica das organizações.
Esse movimento ganhou forma concreta com a criação das normas internacionais IFRS S1 e IFRS S2, emitidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), órgão responsável por definir padrões globais de divulgação financeira.
Diferentemente dos relatórios tradicionais de sustentabilidade, essas normas não tratam de boas práticas ou iniciativas voluntárias, mas exigem que as empresas expliquem, de forma estruturada, como riscos de sustentabilidade e clima afetam seu desempenho financeiro e sua capacidade de gerar valor no longo prazo.
Na prática, o IFRS S1 exige que as empresas identifiquem e divulguem riscos e oportunidades de sustentabilidade que impactam o negócio como um todo, incluindo dependência de recursos naturais, cadeia de fornecedores, governança e riscos operacionais. Já o IFRS S2 trata especificamente de riscos climáticos, como exposição a eventos extremos, emissões de gases de efeito estufa e riscos de transição relacionados a mudanças regulatórias, tecnológicas e de mercado. Em ambos os casos, o foco não está no discurso, mas no impacto econômico desses fatores.
No Brasil, essas normas passaram a integrar o ambiente regulatório do mercado de capitais, especialmente para companhias abertas e entidades reguladas pela Comissão de Valores Mobiliários. São essas empresas que, neste primeiro momento, estão obrigadas a reportar informações alinhadas ao IFRS S1 e ao IFRS S2 dentro do seu sistema regular de prestação de contas ao mercado. No entanto, o impacto dessa exigência vai muito além das empresas listadas.
Quando uma companhia aberta precisa cumprir o IFRS S1 e o IFRS S2, ela não consegue fazê-lo apenas com dados internos. Grande parte das informações necessárias vem da cadeia de valor, como por exemplo, fornecedores, prestadores de serviço, transportadores e parceiros estratégicos. É por isso que empresas médias, mesmo sem obrigação legal direta, começam a ser cobradas por dados sobre consumo de energia, exposição a riscos climáticos, continuidade operacional e práticas básicas de gestão. Sem essas informações, o fornecedor passa a ser visto como um risco para a empresa maior, o que pode resultar em perda de contratos ou exclusão de cadeias mais exigentes.
Os efeitos mais visíveis aparecem nas decisões financeiras. Bancos, investidores e seguradoras já utilizam informações alinhadas ao IFRS S1 e ao IFRS S2 para precificar risco. Empresas que não conseguem demonstrar controle e planejamento tendem a enfrentar juros mais altos, redução de limites de crédito, exigência de garantias adicionais ou dificuldades na renovação de seguros. Em paralelo, contratos com grandes clientes, especialmente multinacionais ou empresas exportadoras, começam a incorporar cláusulas relacionadas a riscos climáticos e sustentabilidade, tornando essas informações parte da lógica comercial.
Um dos maiores equívocos das empresas hoje é subestimar o tempo necessário para se adequar a esse novo padrão. Estruturar governança, mapear riscos, organizar dados internos e da cadeia de valor, definir métricas e integrar tudo isso à estratégia e à gestão financeira não é um projeto rápido. Quando feito de forma consistente, esse trabalho costuma levar de 10 a 13 meses, especialmente em organizações que nunca sistematizaram esse tipo de informação.
Ainda assim, muitas empresas seguem tratando o IFRS S1 e o IFRS S2 como algo distante, acreditando que ainda há tempo para reagir. O problema é que o cronograma já está em curso. Os primeiros reportes completos e comparáveis, com base nesses padrões, devem começar a chegar ao mercado a partir de 2027, considerando os prazos regulatórios e os exercícios sociais de referência. Quem deixa para iniciar o processo muito perto do prazo corre o risco de entregar informações frágeis, inconsistentes ou incompletas, aumentando riscos regulatórios, financeiros e reputacionais.
Essa mudança marca um divisor de águas no ambiente empresarial. Sustentabilidade deixa de ser um tema periférico ou voluntário e passa a integrar a lógica financeira e estratégica das empresas, por meio de normas como o IFRS S1 e o IFRS S2. O foco não está em parecer sustentável, mas em demonstrar resiliência, capacidade de adaptação e visão de longo prazo.
Clima e sustentabilidade já deixaram de ser pauta de longo prazo. Com o IFRS S1 e o IFRS S2, eles entraram definitivamente no centro das decisões financeiras. Empresas que entendem isso cedo ganham tempo, previsibilidade e vantagem competitiva. As que ignoram o movimento tendem a reagir sob pressão e, no mercado, reação quase sempre custa mais. O mercado não está esperando consenso nem maturidade interna das empresas. Ele já está cobrando. Empresários que continuam tratando o tema como algo secundário estão, na prática, aceitando mais risco, mais custo e menos competitividade. Antecipar-se não é modismo nem discurso responsável. É decisão estratégica.

*Eliana Camejo é conselheira de Administração pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli – Cooperativa de Especialistas em Sustentabilidade e Governança. Especialista em ESG pelo IBMEC, também é jornalista e estrategista de Comunicação.

