Já aplicada nos inventários corporativos da Bracell, metodologia publicada na revista Global Change Biology reduz erro nas medições em até 60%, ao desenvolver equações específicas que aprimoram as estimativas de carbono estocado em plantações de eucalipto e pinus no Brasil. O estudo traz uma abordagem baseada em ciência de campo: equações específicas são aplicadas a cada árvore, com base em variáveis reais
Uma pesquisa brasileira publicada na Global Change Biology, revista de referência internacional em mudanças climáticas, apresentou um avanço relevante para o setor florestal e a agenda climática do Brasil: a criação de modelos estatísticos inéditos que aumentam a precisão no cálculo de carbono estocado em florestas plantadas.
Com base na medição de mais de 2 mil árvores em 27 locais de diferentes regiões do país, os autores desenvolveram equações que reduziram o erro das estimativas de carbono em 10% na parte aérea (tronco, galhos e folhas) e em até 60% nas raízes, tradicionalmente mais difíceis de mensurar. A Bracell, uma das líderes globais na produção de celulose solúvel, já aplica esses novos modelos em seus inventários corporativos de emissões de gases de efeito estufa (GEE).
O setor de florestas plantadas desempenha um papel estratégico na mitigação das mudanças climáticas, sendo responsável por capturar mais de 1,8 bilhão de toneladas de CO₂ equivalente no Brasil. Os novos modelos desenvolvidos no estudo foram aplicados em plantações de eucalipto e pinus, espécies que compõem a base florestal da indústria brasileira de papel e celulose.
“Melhorar a precisão nas estimativas desse carbono é fundamental para que o País cumpra suas metas no Acordo de Paris e para que empresas do setor possam acessar, com mais confiança, os mercados voluntários e regulados de carbono”, diz o gerente de Sustentabilidade da Bracell, João Augusti.
Como os novos modelos funcionam
Segundo o estudo, atualmente a maior parte dos inventários de carbono feitos no Brasil, inclusive aqueles que o País envia ao Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, ligado à ONU (IPCC), ainda utiliza valores médios fixos e genéricos.
Esses números foram definidos há mais de 20 anos pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), em 2004, e não consideram características importantes das florestas, como a idade das árvores, a espécie plantada, o tipo de solo, o clima da região ou a localização exata do plantio. Isso contribui para erros significativos nos cálculos sobre quanto carbono realmente está sendo removido da atmosfera pelas florestas plantadas.
O novo estudo corrige essa lacuna com uma abordagem baseada em ciência de campo: equações específicas são aplicadas a cada árvore, com base em variáveis reais das plantações brasileiras. Esses dados alimentam modelos estatísticos de regressão que tornam a estimativa muito mais precisa.
Entre os principais fatores analisados estão o diâmetro da árvore à altura do peito (DAP), a altura total, a idade do plantio, a espécie cultivada, a localização geográfica, além de características ambientais como o tipo de clima (com base na classificação de Köppen), a precipitação média e a temperatura da região. Essas informações, coletadas diretamente no campo, tornam os cálculos mais precisos e adaptados à realidade das florestas brasileiras.
Dois indicadores fundamentais
Com base nessas variáveis, os cientistas aprimoraram dois indicadores fundamentais para estimar a biomassa total das árvores e, por consequência, o carbono que elas armazenam. O primeiro é o Fator de Expansão da Biomassa (BEF – Biomass Expansion Factor), que converte a biomassa do tronco em biomassa da parte aérea, incluindo galhos e folhas. O segundo é a Relação Raiz-Parte Aérea (R – Root-to-Shoot Ratio), que estima quanto da biomassa está nas raízes, em relação à parte visível da árvore. Juntos, esses índices aumentam a precisão dos inventários de carbono em plantações florestais e ajudam a tornar os cálculos mais aderentes à realidade do campo.
“Ao substituir valores genéricos por fórmulas calibradas com dados reais, os novos modelos capturam a variabilidade das florestas plantadas brasileiras com muito mais precisão. Isso é importante, pois estamos falando de uma mudança metodológica com impacto direto nos inventários de carbono usados por empresas e até por governos”, explica Otávio Camargo Campoe, professor da Universidade Federal de Lavras (Ufla) e autor principal do estudo.
“Os modelos anteriores davam uma estimativa média. Agora, conseguimos dizer com mais precisão quanto carbono existe em cada floresta, dependendo do tipo, da idade e do lugar”, completa Campoe.
Aplicação prática na Bracell
A Bracell também forneceu grande parte da base de dados usada na pesquisa, com amostras de áreas operacionais coletadas em parceria com universidades e centros de pesquisa. “O que antes era uma estimativa genérica, agora virou um cálculo técnico preciso, com base em dados reais da floresta, isso nos permite relatar com mais responsabilidade nossas emissões e remoções de carbono, além de melhorar o planejamento florestal”, afirma a gerente de P&D Manejo Florestal da empresa, Gabriela Matzner.
O especialista de P&D na Bracell, Geovanni Barros, ainda complementa: “É um exemplo de ciência aplicada que gera resultado direto para a economia de baixo carbono. Não estamos falando só de inventário, mas de planejamento, certificação, crédito e credibilidade”.
Sobre o artigo
Título: Improved Estimates of Biomass Expansion Factors and Root-to-Shoot Ratios: An Approach for Different Forest Types Across a Climatic Gradient in Brazil
Publicado em: Global Change Biology, agosto de 2025
DOI: https://doi.org/10.1111/gcb.70395
Autores: Pesquisadores da Ufla, Unesp Cirad (França), Bracell, Embrapa Florestas, Ipef, Klabin, Suzano, CMPC e Ibá.

