Financiada pelo BNDES, iniciativa desenvolvida pela Fundação Certi recupera área equivalente a mais de 290 campos de futebol em Santa Catarina. Além do impacto positivo para a biodiversidade, a restauração ajuda na regulação climática, nutrição do solo, polinização, disponibilidade de recursos hídricos, provisão de alimentos e geração de renda
O que acontece quando uma organização de base tecnológica, universidades, comunidades e uma instituição financeira se envolvem em um projeto de restauração florestal? Essa união de forças é capaz de viabilizar iniciativas como o projeto Mais Floresta com Araucária.
Desenvolvido pela Fundação Certi, instituição de base tecnológica que promove o desenvolvimento sustentável, o projeto Mais Floresta com Araucária restaurou 292 hectares – área equivalente a mais de 290 campos de futebol – desde 2017. Financiado por meio de edital do BNDES destinado à Restauração Ecológica, a iniciativa recuperou florestas que integram o bioma Mata Atlântica nas regiões da Serra e Meio Oeste de Santa Catarina. Ao todo, foram plantadas cerca de 40 mil mudas de 12 espécies nativas em áreas degradadas.
“Conseguimos contribuir para esse ecossistema tão importante que hoje vive um processo de perda da diversidade genética, que compromete o desenvolvimento das plantas, produção de frutas, ervas medicinais, madeira e todos os produtos que a floresta disponibiliza. Além do impacto positivo para o hábitat e a biodiversidade, a restauração ajuda na regulação climática, nutrição do solo, polinização, disponibilidade de recursos hídricos e provisão de alimentos como o pinhão e a erva-mate”, ressalta Gisele Alarcon, gerente de projetos do Centro de Economia Verde da fundação.
Na Serra Catarinense, o projeto atuou em parceria com agricultores familiares em Urupema e Urubici, recuperando Áreas de Preservação Permanente (APPs), e no município de Bom Retiro, em áreas degradadas na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Canto do Araponga. No meio-oeste de Santa Catarina, a iniciativa foi promovida em Passos Maia, em 192 hectares de Reserva Legal localizados nos Assentamentos da Reforma Agrária ‘Zumbi dos Palmares’ e ‘29 de Junho’, onde implantou módulos de sistemas agroflorestais (SAFs).

Na contramão das monoculturas com grande necessidades de insumos e defensivos agrícolas, os SAFs utilizam espécies adubadeiras, que protegem o solo e ajudam a fixar nitrogênio, e preparam o solo para o crescimento de outras espécies. As unidades piloto de SAFs implementadas geraram grande repercussão nas comunidades de agricultores dos assentamentos. As famílias passaram a integrar o sistema de entrega de alimentos para a merenda escolar do município (Pnae) enquanto aguardam as mudas de araucária enxertadas e de outras espécies nativas a darem frutos para integrarem as feiras e outros canais de comercialização.
Após uma série de atividades de capacitação, agricultores familiares atuaram como mão de obra para a coleta de sementes, o plantio de mudas e a construção e manutenção de cercas para isolar as áreas em restauração, o que contribuiu para a complementação da renda das famílias.
Parceria com universidades
Em contribuição com as instituições de ensino Udesc, de Lages, e o IFSC Câmpus Urupema, o projeto ampliou e estruturou dois viveiros florestais e contou com estudo para mapeamento detalhado das características das áreas a serem restauradas, bem como a identificação de árvores matrizes para a coleta de sementes e desenvolvimento das mudas.
Além disso, a iniciativa contou com a parceria do Núcleo de Pesquisa de Florestas Tropicais (NPFT) da UFSC, responsável pela caracterização genética das plantas que originaram as sementes utilizadas na produção das mudas, com o objetivo de assegurar a adaptação às condições climáticas locais e a capacidade de produção de frutos e sementes.
“As instituições de ensino tiveram um papel fundamental. Somadas ao envolvimento das comunidades, foram peças-chave para o sucesso do projeto, criando uma rede de colaboradores no processo de restauração e implementando de forma criteriosa e científica um cronograma de ações para atingirmos os resultados almejados”, diz a gerente de projetos da Certi.
Diversidade de espécies
A araucária (Araucaria angustifolia), árvore símbolo que compõe a Floresta Ombrófila Mista, é uma das espécies nativas utilizadas no projeto. Responsável por gerar o pinhão, suas matas não são apenas utilizadas como fonte de alimentação como geram uma atividade econômica de grande relevância para várias comunidades em Santa Catarina. Além da Araucária, foram utilizadas outras espécies-chave na restauração, como a erva-mate (Ilex paraguariensis), goiabeira-serrana (Acca sellowiana), Imbuia (Ocotea porosa), Casca d’anta (Drimys brasiliensis), entre outras espécies com papel ecológico importante para promover o enriquecimento e a regeneração dos territórios do projeto.

“O projeto Mais Floresta com Araucária propôs-se a ir além da restauração em si, e buscou por meio de capacitação, visitas técnicas e contratação de agricultores familiares, promover a formação desses atores sociais para atuarem na cadeia de valor da restauração florestal, ampliando as possibilidades de renda a partir da terra e da floresta. Com o encerramento do projeto, temos a certeza de que todos os participantes podem atuar no mercado da restauração florestal, seja na coleta de sementes, seja na produção de mudas, seja no plantio, manutenção e monitoramento das áreas restauradas”, complementa Alarcon.
O Mais Floresta com Araucária busca estabelecer um modelo viável de restauração, que contribui tanto para a economia local e bem-estar das pessoas como para a manutenção e melhoria da biodiversidade. A restauração florestal da iniciativa está alinhada ao Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e aos objetivos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC).
Com a aprovação do BNDES, o projeto sofreu pequenas alterações, o que possibilitou a implantação de duas unidades pilotos de sistemas agroflorestais (SAFs) em dois lotes no Assentamento Zumbi dos Palmares, em Passos Maia. Os SAFs são sistemas produtivos que combinam o plantio de culturas agrícolas com árvores e podem ou não incluir animais. São sistemas altamente produtivos e diversificados, que podem ser considerados como uma estratégia de restauração florestal, quando as árvores do sistema são nativas da região.

