Obama, o quase-ambientalista

O meio ambiente foi onipresente durante sua campanha e reafirmado como prioridade após a eleição. Que venham os próximos quatro anos
Por Regina Scharf
É agora ou nunca.  Barack Obama tem credenciais para ser o ambientalista mais poderoso de que já se teve notícia.
Vamos aos fatos.  Evidências de envolvimento com a causa ambiental não são novidade na carreira do presidente eleito americano.  Quando estudava na Universidade Columbia, nos anos 80, ele trabalhou na promoção da reciclagem de lixo entre estudantes de minorias.  Eleito senador, apadrinhou projetos para banir a presença de chumbo em brinquedos e nas paredes de creches e escolas, para promover os biocombustíveis, por maior controle do descarte de resíduos nucleares.
No ano passado, interrompeu a campanha pela candidatura democrata à Presidência para voltar a Washington e votar um projeto favorável às energias renováveis.  Obama tem, até mesmo, razões pessoais para se engajar.  Sua filha mais velha, Malia, tem asma crônica, fato que ele costuma citar quando explica as muitas iniciativas que liderou no combate à poluição atmosférica na sua base eleitoral, o estado de Illinois.
O tema ambiental foi onipresente durante sua campanha.  Obama deixou claro que atribui peso semelhante aos três grandes desafios enfrentados pelos Estados Unidos: “Duas guerras, o planeta em perigo e a maior crise financeira do século”.
Também fez referências freqüentes à relação intrínseca entre os mundos econômico e natural, à necessidade de dar um viés ecológico à economia, às reais prioridades da sociedade.  Uma declaração, em 2007, durante encontro ecumênico sobre mudanças climáticas, ilustra sua visão: “Não seremos bons gerentes da Terra criada por Deus se colocarmos o lucro à frente do futuro do planeta”.
Por essas e outras, ganhou apoio expressivo dos ambientalistas americanos e da League of Conservation Voters (LCV), lobby ambiental com foco no Congresso.  “Em mais de vinte anos de carreira, Obama foi, de longe, um dos políticos mais convincentes e mais conhecedores da questão ambiental que conheci”, disse dele Mark Longabaugh, antigo dirigente da LCV.
Teste de Rorschach
Pode até parecer, mas o homem não é perfeito.  Obama apóia a construção de usinas nucleares – embora fale na necessidade de investir na segurança da operação e do descarte de resíduos – e sua campanha recebeu pelo menos US$ 160 mil de executivos e empregados da Exelon, a maior operadora do setor.
Além disso, em 2005, votou a favor da lei que viria a definir a política energética do governo Bush, criticada por grupos ambientalistas.  Obama declarou, na época, que aprovara o texto, francamente pró-petróleo e com previsão de enormes subsídios para energias não-renováveis, porque ele também abria espaço para dois de seus xodós:
o etanol à base de milho e o “carvão limpo”, com baixo teor de enxofre.  Diga-se de passagem, duas fontes de energia que não são unanimidade entre a turma ambiental.
Além disso, Obama costuma a ser comparado às figuras de Rorschach, aqueles borrões usados em testes psicológicos em que cada um vê o que quer.  Ele é notório pelo seu caráter conciliador.  É um homem silencioso, que busca absorver ao máximo o que seus interlocutores têm a oferecer.  Essa atitude respeitosa seduz inúmeros grupos, inclusive o dos ambientalistas, que tendem a ver nele um dos seus.  O que não significa, necessariamente, que ele o seja.
Hora da ação Como tudo isso refletirá na gestão Obama?  Vejamos o que diz seu programa ambiental.  Obama prometeu investir US$ 150 bilhões em renováveis ao longo de dez anos, como parte do plano para tornar os Estados Unidos independente do petróleo do Oriente Médio e da Venezuela.  Até 2012, ele espera que 10% da eletricidade se origine de fontes renováveis, sobretudo solar, eólica e geotérmica.  Até 2050, a meta é chegar a 25%.  O presidente eleito também quer reduzir o consumo de eletricidade em 15% em relação aos níveis projetados para 2020.
Em decorrência dessas e outras medidas, espera que as emissões de gases estufa tenham uma redução de 80% até 2050.  Segundo os cálculos de sua campanha, os investimentos na sustentabilidade da matriz energética permitiriam criar 5 milhões de empregos.
Uma série de medidas intervencionistas deverá promover um modelo de desenvolvimento de menor impacto ambiental.  Entre elas, subsídios à agricultura orgânica e a exigência de que as montadoras produzam carros capazes de rodar com menos combustível.  Obama também propõe a penalização financeira de indústrias e termoelétricas que extrapolarem certos limites de emissões poluentes – elas terão de comprar créditos daquelas que poluírem abaixo do permitido.  “O céu é público – não pertence às empresas”, disse, em um dos discursos da campanha.  “Se queremos que elas parem de poluí-lo, temos de estabelecer um preço para a poluição.”
John Podesta, um dos coordenadores da equipe de transição, declarou duas semanas após as eleições que o meio ambiente estava mesmo no topo das prioridades do presidente eleito.  “Prevejo que ele vai trabalhar rápida e energicamente para reduzir a participação do carbono na matriz energética”, afirmou.  O difícil, a esta altura, é saber se o desastre financeiro em que o mundo se meteu vai permitir que promessas como esta se realizem.
Os próximos quatro anos prometem ser de emoções fortes, muito fortes, para quem acompanha o tema ambiental.
O meio ambiente foi onipresente durante sua campanha e reafirmado como prioridade após a eleição. Que venham os próximos quatro anos
Por Regina Scharf
É agora ou nunca.  Barack Obama tem credenciais para ser o ambientalista mais poderoso de que já se teve notícia.
Vamos aos fatos.  Evidências de envolvimento com a causa ambiental não são novidade na carreira do presidente eleito americano.  Quando estudava na Universidade Columbia, nos anos 80, ele trabalhou na promoção da reciclagem de lixo entre estudantes de minorias.  Eleito senador, apadrinhou projetos para banir a presença de chumbo em brinquedos e nas paredes de creches e escolas, para promover os biocombustíveis, por maior controle do descarte de resíduos nucleares.
No ano passado, interrompeu a campanha pela candidatura democrata à Presidência para voltar a Washington e votar um projeto favorável às energias renováveis.  Obama tem, até mesmo, razões pessoais para se engajar.  Sua filha mais velha, Malia, tem asma crônica, fato que ele costuma citar quando explica as muitas iniciativas que liderou no combate à poluição atmosférica na sua base eleitoral, o estado de Illinois.
O tema ambiental foi onipresente durante sua campanha.  Obama deixou claro que atribui peso semelhante aos três grandes desafios enfrentados pelos Estados Unidos: “Duas guerras, o planeta em perigo e a maior crise financeira do século”.
Também fez referências freqüentes à relação intrínseca entre os mundos econômico e natural, à necessidade de dar um viés ecológico à economia, às reais prioridades da sociedade.  Uma declaração, em 2007, durante encontro ecumênico sobre mudanças climáticas, ilustra sua visão: “Não seremos bons gerentes da Terra criada por Deus se colocarmos o lucro à frente do futuro do planeta”.
Por essas e outras, ganhou apoio expressivo dos ambientalistas americanos e da League of Conservation Voters (LCV), lobby ambiental com foco no Congresso.  “Em mais de vinte anos de carreira, Obama foi, de longe, um dos políticos mais convincentes e mais conhecedores da questão ambiental que conheci”, disse dele Mark Longabaugh, antigo dirigente da LCV.
Teste de Rorschach
Pode até parecer, mas o homem não é perfeito.  Obama apóia a construção de usinas nucleares – embora fale na necessidade de investir na segurança da operação e do descarte de resíduos – e sua campanha recebeu pelo menos US$ 160 mil de executivos e empregados da Exelon, a maior operadora do setor.
Além disso, em 2005, votou a favor da lei que viria a definir a política energética do governo Bush, criticada por grupos ambientalistas.  Obama declarou, na época, que aprovara o texto, francamente pró-petróleo e com previsão de enormes subsídios para energias não-renováveis, porque ele também abria espaço para dois de seus xodós:
o etanol à base de milho e o “carvão limpo”, com baixo teor de enxofre.  Diga-se de passagem, duas fontes de energia que não são unanimidade entre a turma ambiental.
Além disso, Obama costuma a ser comparado às figuras de Rorschach, aqueles borrões usados em testes psicológicos em que cada um vê o que quer.  Ele é notório pelo seu caráter conciliador.  É um homem silencioso, que busca absorver ao máximo o que seus interlocutores têm a oferecer.  Essa atitude respeitosa seduz inúmeros grupos, inclusive o dos ambientalistas, que tendem a ver nele um dos seus.  O que não significa, necessariamente, que ele o seja.
Hora da ação Como tudo isso refletirá na gestão Obama?  Vejamos o que diz seu programa ambiental.  Obama prometeu investir US$ 150 bilhões em renováveis ao longo de dez anos, como parte do plano para tornar os Estados Unidos independente do petróleo do Oriente Médio e da Venezuela.  Até 2012, ele espera que 10% da eletricidade se origine de fontes renováveis, sobretudo solar, eólica e geotérmica.  Até 2050, a meta é chegar a 25%.  O presidente eleito também quer reduzir o consumo de eletricidade em 15% em relação aos níveis projetados para 2020.
Em decorrência dessas e outras medidas, espera que as emissões de gases estufa tenham uma redução de 80% até 2050.  Segundo os cálculos de sua campanha, os investimentos na sustentabilidade da matriz energética permitiriam criar 5 milhões de empregos.
Uma série de medidas intervencionistas deverá promover um modelo de desenvolvimento de menor impacto ambiental.  Entre elas, subsídios à agricultura orgânica e a exigência de que as montadoras produzam carros capazes de rodar com menos combustível.  Obama também propõe a penalização financeira de indústrias e termoelétricas que extrapolarem certos limites de emissões poluentes – elas terão de comprar créditos daquelas que poluírem abaixo do permitido.  “O céu é público – não pertence às empresas”, disse, em um dos discursos da campanha.  “Se queremos que elas parem de poluí-lo, temos de estabelecer um preço para a poluição.”
John Podesta, um dos coordenadores da equipe de transição, declarou duas semanas após as eleições que o meio ambiente estava mesmo no topo das prioridades do presidente eleito.  “Prevejo que ele vai trabalhar rápida e energicamente para reduzir a participação do carbono na matriz energética”, afirmou.  O difícil, a esta altura, é saber se o desastre financeiro em que o mundo se meteu vai permitir que promessas como esta se realizem.
Os próximos quatro anos prometem ser de emoções fortes, muito fortes, para quem acompanha o tema ambiental.

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