Retrato de um país

Gene Daniels, National Archives, Records of the Environmental Protection Agency
Gene Daniels, National Archives, Records of the Environmental Protection Agency

No momento em que as esperanças de ação quanto à mudança climática nos EUA se concentram na agência federal de proteção ambiental – no Congresso não há chances de acordo sobre a redução das emissões de carbono –, a EPA (Environmental Protection Agency) começa a dar sinais de atividade. Para muitos americanos a EPA é apenas uma agência burocrática sujeita a pressões políticas, mas uma exposição recém aberta nos Arquivos Nacionais em Washington mostra suas raízes, o comprometimento com a questão ambiental e, surpreendentemente, seu lado artístico.

A exposição Searching for the Seventies, aberta ao público de março a setembro, mostra uma seleção de fotografias produzidas pelo projeto Documerica, executado pela EPA de 1971 a 1977. No total foram 22 mil imagens feitas por cerca de 100 fotógrafos freelancer em slides, negativos preto e branco, transparências em cor e impressão sobre papel.

As fotos escolhidas para a exposição são uma viagem de volta à década de 70 e ao despertar dos americanos para o ambientalismo. Disponível na internet, o material produzido pelo Documerica é um precioso registro dos problemas de uma época em que a indústria ainda dominava a economia americana e a regulamentação ambiental começava a sair do papel. Criada no final de 1970 pelo republicano Richard Nixon, a EPA tem a missão de proteger a saúde humana e o meio ambiente.

O projeto foi dividido em três seções. Uma registrou os temas que preocupavam os americanos nos anos 70 – desemprego, inflação, crise energética, o custo da afluência, o movimento pelos direitos civis e as mudanças nos hábitos sexuais. Outra seção ressaltou a diversidade da população, assim como diferentes estilos pessoais, em um momento em que a busca pela liberdade individual atingia o ápice. Por fim, a terceira seção ilustrou a fragmentação da paisagem, o decaimento e a revitalização urbana, a expansão dos subúrbios, a influência dos automóveis, a degradação ambiental.

O diretor do Documerica, Gifford Hampshire, queria criar uma linha de base visual para medir as mudanças e os progressos feitos na área ambiental. Graças à percepção da interconexão entre pessoas e meio ambiente, acabou gerando também um belo retrato dos EUA. Ao contrário do projeto que o inspirou – em que o Escritório de Segurança Agrícola retratou em preto-e-branco os duros anos entre a Grande Depressão e a Primeira Guerra Mundial –, o Documerica mostra, em cores, os efeitos colaterais da afluência americana.

Muitos dos problemas retratados no Documerica ainda afligem a paisagem e os cidadãos americanos – por exemplo, a mineração céu aberto nos Apalaches – e outros se tornaram dominantes desde então, como a mudança climática. O que provavelmente a EPA e os EUA nunca mais terão – apesar de renovadas tentativas – é uma iniciativa tão rica e coerente como o Documerica.

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