Terra estranha

Diante do esvaziamento de um dos principais reservatórios de água de São Paulo, Marcelo Delduque registra as transformações que testemunha diariamente nas paisagens e nas vidas da ex-pacata Bragança Paulista. A estiagem que seca a represa da região é só mais um reflexo dessa mudança toda

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A Fernão Dias queima. Enfrentá-la no trajeto São Paulo – Bragança Paulista é para mim uma espécie de exercício de desapego, por ver semana a semana aquela paisagem familiar, que durante tanto tempo representou a aconchegante transição cidade-natureza, se urbanizando ferozmente. Sobretudo nesta época de seca, em que suas terras marginais penam com as queimadas. Estamos em… Fevereiro. Penso e sinto um frio na barriga só de pensar. Nem mesmo um ancião seria capaz de relacionar em suas mais distantes lembranças um mês de fevereiro a cheiro de fuligem e poeira. Aqui fevereiro é tempo de ar pesado, céu cor de chumbo, vegetação exuberante. Mas neste começo de 2014, quase todas as tardes o tempo fecha, ouvem-se alguns trovões, e nada. A sensação é de que estamos dentro de uma bolha. Vai chover, é claro. Quando começo a escrever este artigo, as notícias são de que uma grande frente fria estacionada no sul se prepara para subir e furar o bloqueio do calor.

A previsão do tempo é uma espécie de jogo do bicho. Todo mundo faz sua fezinha. Mais ainda para um ano excepcional que, sem chuva, parece ainda não ter engrenado, perdido numa espécie de limbo. Qualquer roda de conversa começa com um preâmbulo sobre a situação climática. Tenho ouvido de tudo. Que tem tanto vapor no céu que vai haver uma espécie de dilúvio. Que estamos num ciclo de dez anos dentro de um maior de quarenta. E que o de quarenta está dentro de um outro, e assim por diante até a conclusão de que, na verdade, o planeta ainda sofre efeitos do final da última glaciação. E que, portanto, está tudo certo. As mudanças climáticas causadas por ações antrópicas seriam, assim, uma falácia.

Voltando para o pequeno, posso prever com certa segurança que a época de seca – digo a oficial – se aproxima. Em março ou abril, as chuvas que vierem, seja com a intensidade que for, vão minguar. Talvez minguem de vez, como é o normal. Talvez continue chovendo esparsamente, como foi o ano passado, quando praticamente não houve seca. E a vida vai seguir, e o verão mais seco e quente de todos terá sido um marco em nossas histórias, a deixar uma pulga atrás da orelha sobre o futuro do planeta.

O que verdadeiramente preocupa a todos aqui na região bragantina é a situação de algo que, a bem da verdade, não nos pertence. Uma intrusa que chegou sem ser convidada, que bagunçou toda a estrutura social, econômica e ecológica locais. Um corpo estranho com o qual quando começamos a nos acostumar, e até a querer gostar… Descobrimos que pode desaparecer. Estou falando – é claro – das represas do Sistema Cantareira, que abastecem cerca de 8 milhões de pessoas na região metropolitana de São Paulo. Refiro-me especificamente ao reservatório Jaguari-Jacareí, o maior do complexo, onipresente na paisagem onde vivo, construído no final da década de 1970.

Se antes sua presença artificial, sobretudo com o processo de urbanização que trouxe na bagagem, me soava um estorvo, agora, reduzido a menos de 20% de sua capacidade de armazenar água, parece ter deixado a paisagem banguela, como que expondo a carne viva da seca.

A represa em seu nível normal (esq.) e no começo de fevereiro (dir.), com cerca de 20% de sua capacidade
A represa em seu nível normal (esq.) e no começo de fevereiro (dir.), com cerca de 20% de sua capacidade

A baixa me traz reminiscências da infância. Reaparecem a antiga estrada Bragança-Joanópolis, a capela de uma fazenda, fundações anônimas e esqueletos de antigos eucaliptais. A geografia original e a história ressurgem como fantasmas. A seca é uma espécie de exumação da paisagem.

Lembro como no começo, com olhar infantil, achava graça em observar, a cada vez que chegava depois de alguns dias em São Paulo, a estrada, as casas e sítios inteiros sendo tomada pelas águas. E não muito depois o contato com a triste realidade ao dar conta de como as pessoas que viviam ali foram indenizadas e retiradas – aos modos autoritários do final dos anos 1970, o país ainda sob ditadura militar. Da forma como o entorno da represa foi reocupado por condomínios e o esquema de cessão de comodatos que sobreveio, promovendo a “privatização” de áreas de interesse público que deveriam ser reflorestadas. Do descuido em relação aos mananciais e às nascentes que abastecem o reservatório. Enfim, de como o entorno da represa se tornou uma terra de ninguém, em que tudo se pôde fazer, bastando para isso ter dinheiro e alguma influência nos meandros político-burocráticos locais.

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Um dos inúmeros muros dos condomínios que dominam a região
A represa subindo no final da década de 1970
A represa subindo no final da década de 1970

Lembro, com tristeza, de uma história que me marcou na época, de uma família que vivia há muitas gerações num pequeno sítio localizado na área a ser inundada. Certo dia, recebem a visita de um emissário do governo, anunciando que deveriam sair dali o mais breve possível. O valor oferecido como indenização, um dinheiro que nunca haviam visto, faz grande efeito em um dos irmãos, desafortunadamente aquele a quem coube guardar o valor. Este, sem concatenar muito bem a ordem de fatos e efeitos, no impulso gasta tudo na compra de uma Kombi. Sem ter para onde ir – ninguém explicou que o dinheiro era para comprar uma nova residência -, e sem nenhum tipo de assistência social, a família constrói uma casa, quase um barraco, numa área pouco acima, quando a água chega às franjas do sítio, e por lá fica por muitos anos, em área que se torna de segurança da Sabesp, não podendo mais plantar ou criar – como que expropriados na própria terra -, até que muitos anos depois se arranja uma casinha para eles, já velhos e desencantados.

Muito ilustrativa também, neste caso de como se lida com a terra na região, é a imagem reproduzida abaixo. O local é um vale completamente desmatado, ocupado pelo gado, por onde flui um riacho que desagua – ou desaguava? – diretamente no reservatório. Lugar perfeito para se ministrar uma aula tratando de práticas inadequadas de uso do solo: topo de morro pelado, nascente e curso d’água desprotegidos, encostas íngremes desflorestadas, já em processo de erosão.

Esse tipo de situação é mais do que comum na região do entorno dos reservatórios e nas nascentes dos rios que os abastecem. Muitos dos proprietários nem mesmo têm conhecimento das restrições de ocupação impostas em APPs – Áreas de Preservação Permanente (o próprio termo é um ilustre desconhecido no Cantareira). A absorção da água pelo solo, que regula a vazão das nascentes, depende da boa cobertura vegetal, em especial nas APPs, as “caixas d´água” da natureza. A seca, vilã da vez, também é resultado da diminuição da cobertura vegetal. Na última grande crise do Sistema Cantareira, há cerca de dez anos (porém numa época de inverno, em que a baixa pluviosidade era um pouco mais compreensível), o filme foi o mesmo: críticas pesadas ao desperdício e às falhas do sistema. Aí passou o tempo, as chuvas bem ou mal voltaram, os reservatórios bem ou mal retomaram um nível aceitável. E o descuido com as florestas, matas ciliares e APPs, permaneceu o mesmo de antes. Deu no que deu. E a época da verdadeira estiagem ainda nem chegou.

Áreas de APP ocupadas pelo gado
Áreas de APP ocupadas pelo gado

Voltando ao princípio, o eixo da Fernão Dias tornou-se a última fronteira periférica à capital paulista a ser explorado pelo mercado imobiliário (diga-se especulação imobiliária). Com a duplicação, concluída no início deste século, e os atrativos da represa, o lugar rapidamente converteu-se em uma nova fronteira turística, uma alternativa à praia, com menos gente e menos trânsito. E a região ainda guarda uma aura de paraíso, pelas paisagens de serras e águas, que geram material visual farto para os departamentos de marketing dos empreendedores de condomínios criarem um imaginário idílico. Pois bem, o trânsito chegou. E a água – momentaneamente? – sumiu.

Esta terra, que aos trancos e barrancos rearranjou-se para receber os veranistas, ainda que em total desarmonia com os processos ecológicos dos quais o grande corpo d´água artificial demanda para se manter vivo, agora vê-se sem uma identidade à qual se apegar. Perde o viço e empaca no trem da história.

A estrada, neste princípio de fevereiro, parece que vai explodir. O trânsito para devido a um caminhão quebrado na pista e em pouco tempo a centopeia de carros parados toma conta da serra. A massa quente não dá trégua e as queimadas castigam a vegetação rala à beira da rodovia. A Fernão Dias é um rio de frustrações. Frustrações de um sonho que saiu pela culatra, e parece sumir na fumaça densa que paira sobre um sonhado paraíso e que, na impossibilidade de dispersar, cheira a nostalgia. De certa forma me regozijo, embora tristemente, ao observar o outdoor de um novo empreendimento imobiliário, com uma linda foto da represa a servir de chamariz. Uma imagem que, associada ao produto, a estas alturas soa a piada de mau gosto.

*Marcelo Delduque é jornalista, fotógrafo e editor de livros. Acaba de lançar Prata-São Francisco-Amazonas – União das águas: imaginário das grandes bacias fluviais brasileiras, coorganizado com Bené Fonteles. Junto com a família, transformou a fazenda do bisavô (www.fazendaserrinha.com.br) em Reserva Particular do Patrimônio Natural, onde são promovidas atividades educativas e culturais, e onde acontece anualmente o Festival de Arte Serrinha

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