Sustentabilidade faz parte da estratégia da Natura

A Natura, multinacional de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, foi a primeira companhia da América Latina a divulgar, em 2001, seu relatório de desempenho com base na metodologia da Global Reporting Initiative (GRI). No ano seguinte, unificou os relatos anual e de sustentabilidade. Desde então, tornou-se referência na comunicação de resultados aos públicos de relacionamento, e passou a inspirar ações semelhantes em muitas empresas, inclusive de outros setores de atividade.

A companhia, que adota o relatório único (com informações financeiras e de sustentabilidade), desde antes da abertura de capital, em 2004, apresentou em abril a nova visão e as diretrizes de sustentabilidade para o modelo de negócio até 2020. A estratégia prevê iniciativas em três pilares: “Marcas e Produtos”, “Rede de Relações” e “Gestão e Organização”. O objetivo é avançar além de neutralizar os efeitos do próprio negócio e promover o impacto positivo nos âmbitos social, ambiental e econômico.

“Entendemos que as empresas existem para fazer com que a sociedade e o planeta sejam melhores. Por isso, apresentamos uma nova visão de sustentabilidade para definir onde queremos chegar e o impacto que buscamos gerar”, declarou o então diretor-presidente da Natura, Alessandro Carlucci, substituído por Roberto Lima, que já integrou o Conselho de Administração da companhia, desde o dia 8 de setembro.

Única empresa brasileira com um representante no Conselho Internacional para Relato Integrado (International Integrated Reporting Council – IIRC), o vice-presidente de Finanças e Relações Institucionais, Roberto Pedote, a Natura participa desde o início das discussões que deram origem às primeiras diretrizes da estrutura conceitual do relato integrado. A seguir, trechos da entrevista que o executivo concedeu à PÁGINA22.

Por que a Natura decidiu adotar as diretrizes do relato integrado para comunicar seu desempenho em 2103?

A Natura foi uma das cinco companhias brasileiras participantes do grupo de empresas globais do projeto piloto do Relato Integrado (RI). As contribuições do RI são importantes para o avanço da integração dos aspectos socioambientais e de governança à estratégia, na gestão e prestação de contas das empresas. O modelo endereça de forma objetiva e clara o olhar estratégico e a visão de futuro, contrapondo a atual visão de curto prazo do mercado.
Essa prática fomenta um novo debate alinhado às demandas de práticas sustentáveis e de acionistas e profissionais que buscam alternativas à simples análise de demonstrações financeiras para a tomada de decisão. Por mais que o relato se materialize numa peça de comunicação, o objetivo da nossa adesão recai no processo de sua construção, que nos força a rever a gestão, analisar melhorias ou mudanças de rota e, dessa maneira, conhecer ainda mais nosso negócio e as oportunidades de inovar.

A empresa acredita que a integração de dados contábeis com os socioambientais e de governança poderá contribuir para que os analistas financeiros controlem riscos e oportunidades, na condução dos negócios?

As perdas com potenciais riscos vão muito além dos passivos, abrangendo a perda de receita, acesso a mercados e aumento de custos operacionais. Mudança climática, escassez de recursos e diversidade são exemplos de temas que passaram a ser administrados pelas empresas, e que geram impactos significativos na gestão de riscos e oportunidades de negócios. Os analistas financeiros começam a se atentar para esses aspectos na sua tomada de decisão. Sob o ângulo corporativo, as empresas entenderam que, para poder negociar com seus stakeholders compromissos coerentes com seus recursos e interesses, precisam assumir de forma transparente suas limitações.

Quais as principais medidas adotadas até agora pela Natura em direção ao relato integrado?

O último relatório da Natura [de 2013] destaca elementos de conteúdo propostos pelo RI, como visão de futuro, gestão de riscos e modelo de negócio, além de um maior detalhamento em governança corporativa.
No processo de relato, destaco a integração de áreas tão distintas, como Finanças, Comunicação, Sustentabilidade e Relações com Investidores, que, em uma governança colaborativa, têm trabalhado em parceria na elaboração do Relatório Anual; um avanço no modelo de trabalho que tendia a ser especializado e segmentado.
Outro exemplo prático da influência do IR foi a evolução da área de Performance TBL para o acompanhamento de indicadores e metas financeiras e não financeiras, o que proporciona uma reflexão mais profunda sobre nossa atuação e como agregamos valor, além do lucro.

Em que medida as diretrizes propostas pelo Conselho Internacional para Relatos Integrados podem contribuir, na prática, para ajudar a Natura a aprimorar o conteúdo do seu relato corporativo?

Os elementos de conteúdo propostos pelo RI, como visão de futuro, gestão de riscos e modelo de negócio, contribuem para que o leitor tenha uma perspectiva global da atuação da empresa e para onde ela caminha. Além disso, o RI promove uma abordagem mais coesa e eficiente da performance corporativa, o que facilita o entendimento de como a organização gera valor, ao longo do tempo, para todos os públicos. Com a melhoria da qualidade da informação, é possível garantir uma alocação de capital mais eficiente e produtiva. Neste caso, os capitais não são apenas financeiros, conforme a própria diretriz do RI, e abrangem também os capitais social, intelectual, manufaturado, de relacionamento e natural, considerando suas interdependências.

Quais as principais vantagens de se integrar a comunicação de resultados aos públicos estratégicos?

As mesmas informações de uma corporação podem ter resultados opostos em outra, às vezes, do mesmo setor, dependendo da metodologia empregada. Nesse sentido, como os investidores, por exemplo, podem avaliar qual organização está melhor posicionada? As empresas ganham com a sinergia, pois precisam responder a diferentes índices, indicadores, relatórios, pesquisas e formulários, ao longo do ano, que, se padronizados ou integrados, evitam retrabalho. Além disso, a comparabilidade com outras empresas e países permite uma análise mais assertiva de melhorias e tendências que a comunicação de desempenho pode proporcionar.
Outro diferencial é que, por ser o principal instrumento de comunicação de desempenho da empresa, o relato estimula o diálogo qualificado com os públicos estratégicos, embasado na transparência e na boa governança. Esse movimento resulta na geração de mais valor à sociedade como um todo.

Com o foco na integração, avalia que a Natura tem conseguido melhorar a linguagem dos relatos? Qual seria a abordagem mais adequada para assegurar clareza e objetividade na divulgação dos resultados?

A Natura foi pioneira, na América Latina, ao aderir às diretrizes da GRI em 2000, mesmo antes de abrir capital [em 2004] por acreditar na contribuição de um padrão internacional para a avançar na prestação de contas sobre os temas de sustentabilidade que englobam toda a cadeia de valor, o envolvimento da liderança nas decisões socioambientais e a ampliação da análise de impactos.
Evoluir a cada ano rumo à integração é um desafio permanente. Uma transição recente foi a adoção da plataforma online como principal mídia, em nossa estratégia de divulgação de resultados, tanto por seu alcance e facilidade de conexão entre os temas quanto por sua acessibilidade e redução de impacto ambiental.

Acredita que a integração também facilitará a divulgação periódica (trimestral, por exemplo) das informações socioambientais?

Além de ajudar a identificar riscos e inovações, o Relato Integrado reequilibra as métricas de desempenho, evitando uma ênfase excessiva em geração de caixa, no curtíssimo prazo. A divulgação dos resultados trimestrais da Natura já considera os indicadores não financeiros.
Não é novidade que ativos intangíveis, como reputação e inovação, já representem percentuais importantes do valor das organizações e, por essa razão, parte dos investidores estão mais atentos a esses indicadores. Apesar de ainda ser um desafio avaliar métricas de desempenho das iniciativas de sustentabilidade, uma vez que é difícil quantificá-las, elas devem dialogar com as metodologias adotadas para avaliação de resultados econômicos.

O relatório integrado também pode contribuir para uma maior veracidade das informações não financeiras?

O falso dilema de divulgar apenas a parte conveniente das matrizes corporativas é passado. A falta de investimento das companhias em gestão dos indicadores socioambientais e a incoerência na divulgação dos resultados ficam evidentes em um relato desse tipo. Por isso, é necessário evoluir as técnicas de mensuração de indicadores sociais e ambientais para que seja possível harmonizá-las com as econômicas. A Natura assegura todos os seus dados financeiros e não financeiros, via auditoria independente, para garantir a veracidade e acuidade das informações reportadas, mas essas auditorias ainda não fazem uma análise integrada.
Um debate relevante se dá em torno da obrigatoriedade de fornecimento das informações de sustentabilidade. Iniciativas como “Relate ou Explique” (uma recomendação da BM&FBovespa para as organizações relatarem ou, se não estiverem preparadas, explicarem o porquê do não relato) são exemplos de como o mercado de ações está se adequando a essas novas demandas.

A seu ver, quais são os critérios básicos para elaborar o relato integrado?

Utilizar os princípios norteadores do relato integrado é essencial para iniciar essa jornada. Portanto, foco estratégico, orientação futura, conectividade de informações e a capacidade de resposta e inclusão dos stakeholders devem ser expressos em todo o conteúdo. Ser conciso, confiável e material também são características inerentes a esse modelo. Ao mesmo tempo, a descrição de aspectos como o contexto da operação, objetivos estratégicos, governança e remuneração e riscos e oportunidades devem ser precisos e ampliados.

A gestão integrada facilita, de alguma maneira, o reporte de informações financeiras e socioambientais?

O relato integrado é consequência de uma estratégia, ou seja, é mais uma etapa de uma cadeia de processos que insere a sustentabilidade no modus operandi da companhia. Isso precisa se traduzir no comportamento empresarial, caso contrário, será apenas mais uma peça de comunicação ou marketing. Além de comunicar iniciativas e resultados aos stakeholders, o relato integrado também deve subsidiar a tomada de decisão, dentro e fora dos limites da organização. Se a gestão não parte do pressuposto da integração, o reporte, inevitavelmente, refletirá essa desconexão.

Como definir os temas mais relevantes para relatar? O engajamento de stakeholders segue como uma boa prática, no diálogo com os públicos estratégicos?
Há um debate recente sobre a apresentação de relatórios mais concisos em contrapartida ao aumento do número de indicadores a serem reportados por conta da demanda dos diferentes públicos de interesse. A comunicação de resultados tende a ser cada vez mais objetiva, focada nos temas que são materiais para a empresa. Esses temas surgem do engajamento com stakeholders. No entanto, as diferentes metodologias para determiná-los são questionáveis. Na Natura, entendemos que a consulta aos nossos públicos não deve se limitar aos fóruns formais e sazonais para a produção de relatórios, mas ser um processo de engajamento contínuo que utilize outros pontos de contato. Essa comunicação deve impactar diretamente a estratégia e a gestão corporativa e, ao mesmo tempo, atender as expectativas e demandas desses públicos.
 
Integrar não constitui uma tarefa fácil. Vale a pena seguir com esse desafio?
Entendo que há um longo caminho a percorrer, que envolve o engajamento das áreas de negócio, provedoras das informações que compõem o relatório. A qualidade das informações envolve não apenas a confiabilidade dos dados fornecidos, mas o levantamento de informações que, de fato, reflitam os impactos das ações ambientais, sociais e de governança corporativa sobre as operações e relações da empresa.
Na Natura, onde a visão de sustentabilidade é tão importante quanto o balanço financeiro, a integração entre os dados financeiros e socioambientais já faz parte da gestão estratégica da companhia. Nossa experiência me permite afirmar que os maiores ganhos são internos, pois a prática estimula a integração entre áreas e profissionais e amplia a noção de causa e efeito do negócio como um todo.
 

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