Os impactos sociais das novas renováveis

Os ganhos ambientais das fontes solar e eólica são facilmente identificados: combatem a mudança climática e a emissão de poluentes. Mas, e os benefícios sociais? Nesta entrevista à Página22, a economista Elbia Gannoum explica como essas fontes também geram impactos positivos no campo socioeconômico, na medida em que descentralizam riquezas e pulverizam o desenvolvimento – especialmente no interior do Nordeste, região carente onde, segundo ela, sopra o melhor do vento do mundo para produção de energia. Gannoum ressalta que, no caso da específico da eólica, o ganho é ainda maior porque permite produzir energia nas alturas sem impedir a atividade econômicas “ao nível do solo”.

Elbia Gannoum é presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) e especialista em regulação e mercados de energia elétrica. Em 2014, foi eleita pela revista inglesa Recharges – Renewable Thought Leader Club como uma das personalidades mais influentes em energias renováveis no cenário global. Foi economista-chefe do Ministério de Minas e Energia (2003-2006), coordenadora de Política Institucional do Ministério da Fazenda (2001-2002), assessora de assuntos econômicos no Ministério de Minas e Energia (2001) e assessora na Aneel (2000-2001).

 O ganho ambiental causado pelo uso de fontes como a solar e a eólica é bem conhecido. Um aspecto menos comentado são as externalidades sociais positivas. Como essas fontes podem gerar benefícios sociais?

As novas renováveis – eólica, solar, biomassa e Pequenas Centrais Hidrelétricas – são fontes mais flexíveis e portanto mais pulverizadas. Como estão distribuídas regionalmente, quando você vai explorá-las, pulveriza também o desenvolvimento. A energia eólica instalada no Brasil é de 12 gigawatts, o mesmo que uma Belo Monte, só que é uma Belo Monte espalhada em todo o Nordeste e no Sul [ao contrário do senso comum, a maior geração de eólica se encontra no interior e não no litoral].

Estamos usando a expressão “novas renováveis” em vez de “fontes alternativas”?

Alternativas não é um bom conceito.

“Alternativas” sugere algo marginal, não é? Ao mesmo tempo “renováveis” inclui hidrelétricas, que têm forte impacto socioambiental negativo.

Usamos também a denominação “renováveis não convencionais”, enquanto o PDE [Plano Decenal de Expansão de Energia] tem chamado de “novas renováveis”. Eu gosto de chamar de “renováveis complementares” que, a meu ver, é o que mais faz sentido no Brasil. A nossa matriz elétrica tem 65% de hídrica, e vamos manter essa fatia majoritária durante os próximos 20, 30 anos. Assim, as fontes eólica, solar, biomassa e PCH entram na matriz como complementares. Por definição, pelo fato de serem pulverizadas, pulverizam o desenvolvimento econômico. Na eólica, os ganhos socioeconômicos são até maiores que nas demais.

Por quê?

Porque a eólica é a única forma de produção de energia elétrica que não concorre com demais atividades econômicas. Quando se decide fazer solar, os painéis ocupam o terreno e não sobra espaço para mais nada. O mesmo ocorre nos casos de PCH e biomassa. No caso da eólica, não. Você implanta o parque e, se tiver ali uma atividade agropecuária, essa atividade vai continuar sendo feita. Então, em vez de retirar uma atividade econômica para gerar energia, você adiciona mais uma. Eu fui à inauguração de um parque eólico no Rio Grande do Sul, na região de Viamão, e o dono do parque me disse assim: “Aqui, os fazendeiros produzem arroz, produzem gado e, no segundo andar, produzem vento!”. Achei genial, porque é isso: você instala a máquina [o aerogerador] que gera energia lá em cima e a vida continua aqui embaixo.

E quanto àquelas críticas recorrentes, de que a eólica produz barulho e mata pássaros?

Isso ficou no passado distante, está superado. Quanto ao barulho, foi desenvolvida tecnologia para que o ruído do rotor diminuísse; hoje é menor que 50 decibéis, é baixíssimo. Quanto aos pássaros, as torres antes tinham 50 metros de altura; hoje têm 100, 120 metros, ou seja, em geral os pássaros voam abaixo dessa altura. Além disso, no Brasil há um rigor ambiental segundo o qual os parques não podem ser construídos nas rotas migratórias. A gente nunca teve problema com morte de pássaros, isso fica muito mais na lenda do que na realidade.

Como se dá esse desenvolvimento socioeconômico “pulverizado” pelas eólicas?

Geralmente essas propriedades são pequenas e as terras são arrendadas. Quem vai construir o parque faz um contrato de aluguel com os proprietários pelo prazo de 20 anos, com valores corrigidos pelo IPCA. O pagamento do arrendamento é proporcional à geração de energia, no valor médio mensal de R$ 800 por máquina. As famílias têm, em média, duas ou três máquinas no seu quintal.

Então recebem uma renda fixa.

Sim, uma renda fixa em uma região em que as pessoas estão acostumadas a viver do Bolsa Família. Existe um segundo fator que é empregar a mão de obra local, para a construção e depois para a manutenção do parque eólico. Isso traz um movimento para a economia local. Assim, as famílias podem investir mais na formação dos filhos, reduzindo o êxodo rural. Muitos filhos acabam trabalhando nos parques.

Em breve, será lançado um documentário que mostra o impacto social positivo da energia eólica (mais sobre o documentário Ventos do Brasil ao final desta entrevista, assista ao trailer aqui). Uma das personagens ouvidas no filme conta que tinha medo do que poderia acontecer com a instalação das torres, ela achava que iam “roubar o vento”.

Ainda mais se fosse “estocar”, né?

[Risos] E por fim há um terceiro fator do impacto positivo: as empresas de energia eólica fazem espontaneamente projetos sociais para população. No Rio Grande do Norte há pelo menos três programas que conheço, mas tem vários outros, como no Ceará. No caso da CPFL, fizeram projetos de segurança hídrica, de parto humanizado e uma biblioteca. A geração eólica deve ter hoje cerca de 60 empreendedores.

O Brasil como um todo é bom de vento?

O vento bom para eólica está no Nordeste e no Sul, especificamente no Rio Grande do Sul. Em São Paulo também tem um vento bom, igual ou melhor que o vento alemão – a Alemanha tem 30 gigawatts de eólica instalada. Mas o vento de São Paulo é a metade do vento do Nordeste, então não tem competitividade para ir a leilão. Não dá para fazer parque eólico em São Paulo. O melhor vento do mundo está no Nordeste.

Os governantes no Nordeste estão cientes dessa potencialidade toda?

Eles estão sobrevivendo disso, já. A eólica começou a tomar força a partir de 2010, é algo relativamente recente. O primeiro governador que teve essa sacada de investimento foi o Jaques Wagner [foi governador da Bahia de 2007 a 2014] e hoje a Bahia está em primeiro lugar, somando o que está em construção e o que está sendo gerado. O segundo governador que sacou isso é o do Piauí. Hoje, o Rio Grande do Norte, que tem a maior capacidade instalada, tinha petróleo no passado, mas o petróleo esgotou. A principal hoje fonte é a eólica. Eles sabem, sim, a importância.

O Nordeste era praticamente abastecido pela hidrelétrica de Sobradinho, do Rio São Francisco. Os parques chegaram em 2011, e seca de Sobradinho veio em 2013. Se hoje não tivesse parque eólico, o Nordeste estaria sem luz. Já enfrentam falta de d’água, e ficariam também sem luz.

Hoje a eólica atende a 60% das necessidades de energia no Nordeste, em média. Se não tivesse essa eólica lá, o Brasil também teria passaria por dificuldade de abastecimento, porque já chegamos a atender 15% das necessidades do País  em determinados momentos.

A expansão da fonte eólica sofre hoje alguma dificuldade?

A dificuldade é a mesma da economia como um todo. Se a economia não cresce, não tem demanda, logo não tem investimento. Mas fora isso, não tem empecilho.

Não falta uma política pública, energética, voltada para isso?

Não tem política, mas não creio que tenha de ter. Alguns vícios nossos precisam ser esquecidos. Ontem mesmo (dia 17/8) eu estava aqui com a Dorothea Werneck [ex-ministra da Indústria e do Comércio], e ela disse uma frase que eu sempre falo: “A gente tem que parar com essa história de o governo ‘tem que’”. O governo não “tem que” nada, o governo tem é que sair da frente, para não atrapalhar, porque o governo atrapalha. A política pública é importante quando é necessário desenvolver um certo segmento que custa caro e não tem competitividade.

Na Alemanha, o governo teve forte participação para incentivar as renováveis, não?

Mas é muito diferente. A política pública é importante quando você não tem outros instrumentos. O Brasil naturalmente tem a produção de energia a partir de fontes renováveis. É mais barato que o fóssil. Por que a Alemanha e os Estados Unidos fizeram política? Porque lá a produção de energia de fonte fóssil é mais barata. Lá, se você quiser renovável, tem de fazer política, Mas aqui é o contrário, se precisar expandir a matriz, será por renováveis, que são mais competitivas naturalmente, olha o histórico de hidrelétricas.

Mas para expandir as “novas renováveis” não precisa de política?

Também acho que não precisa, sabe por quê? O Brasil é rico em recursos naturais para a produção de energia. Você faz política quando precisa de outra fonte, e neste momento não precisamos. A eólica é hoje a fonte de energia mais barata do Brasil. O potencial eólico brasileiro conhecido hoje equivale a três vezes a necessidade de energia do Brasil. Então por que o País investiria em, por exemplo, geração de energia de ondas do mar, que custa R$ 1.200 para produzir, enquanto a eólica custa R$ 200?

Se a eólica é tão competitiva, por que prospectar novas hidrelétricas na Amazônia, com todo o impacto socioambiental que causam? Há vários projetos engatilhados lá.

Mas isso não sai. Há uma pressão socioambiental muito forte contra as hidrelétricas, e não faz sentido que saiam, sendo que as novas renováveis estão disponíveis.

Qual a previsão de crescimento das eólicas?

Os contratos são feitos com 3 a 5 anos de antecedência. Com base nisso, há uma curva de crescimento, desde 2009, de uma média de 2 gigawatts por ano de venda e de instalação. Essa curva tem se mantido. Em 2016, não teve venda, não teve leilão, porque não teve demanda. Em 2020, devemos chegar a 18 gigawatts, que é o que está contratado.

Ou seja, o crescimento depende de uma curva de PIB, mas não de substituição de outras fontes por eólica?

A substituição ocorre em países desenvolvidos, como os europeus. O consumo per capita de energia no Brasil está crescendo 0,7%, com potencial de chegar a 1,3%. Já na Europa, o consumo estagnou há muitos anos e eles estão fazendo substituição.

Mas aqui não é o caso de fazer substituição das termelétricas, que vão na contramão da redução das emissões de gases de efeito estufa, inclusive pelo que foi assumido pelo Brasil no Acordo de Paris?

Mas a conta de emissão do Brasil é muito boa, o Brasil ainda tem espaço para queimar combustível. E tem um conceito muito importante na matriz elétrica que é o conceito da segurança de suprimento. Você não pode fazer uma matriz voltada só para uma fonte, precisa diversificar. No caso do Brasil, que usa muita renovável, precisa que parte venha de termelétricas, para garantir o suprimento, porque a natureza “falha” e você não estoca vento, não estoca sol, a despeito de muita gente achar.

No passado, a gente estocava água [nos grandes reservatórios], mas, na medida em que a demanda foi crescendo, o reservatório per capita caiu. Então precisa manter termelétricas como backup. Nos últimos dois, três anos, estamos vivendo uma conjuntura não agradável. Contratamos para servir de backup, mas elas estão sendo usadas com muita frequência, e isso tem trazido toda essa discussão de bandeira vermelha etc. Isso foi uma falha de planejamento. Mas não foi só isso: tem acontecido um fenômeno que nós, especialistas, estamos percebendo fortemente agora, que é o da mudança climática. A gente tinha um cálculo de previsão de reservatório, de chuva, mas, desde 2013, a hidrologia está nos surpreendendo. Sobradinho já está no limite e não volta nunca mais. Sabe quando a gente percebeu isso?

Agora?

Há seis meses. Então nós, brasileiros, que conhecemos tanto de hídrica, não estamos sabendo lidar com o fenômeno da mudança climática. E é esse fenômeno que está levando ao uso exagerado das termelétricas.

Não dá para substituir o uso das termelétricas pelo maior uso de eólicas porque não existe uma regularidade de ventos que garantisse a segurança energética, é isso?

Hoje eu poderia facilmente substituir essa termelétrica pela eólica do ponto de vista técnico, mas não do ponto de vista comercial, porque já contratei essa termelétrica. Existe um contrato e o Brasil tem de pagar, com o dinheiro do consumidor.

Esse é o motivo, então? Não é a questão da segurança energética?

Existe um percentual mínimo de termelétrica que garante a segurança, mas hoje estamos usando além desse nível, por causa do cálculo da hidrologia. Se eu fizer o cálculo correto hoje, no lugar do reservatório de água que não existe mais, eu consigo colocar mais eólica. Mas o que vou fazer com o contrato?

O contrato vai até quando? Não pode ser rescindido?

Vai até 2022. A rescisão é muito cara. O Brasil não parece um país sério, mas é sério sob vários aspectos, e cumpre esse tipo de contrato. A Espanha em 2014 cancelou um monte de contratos. O Brasil nunca fez isso e não deve fazer mesmo, contrato é contrato. O que vão fazer é uma substituição gradual. E construir um parque gerador, seja de solar ou eólica, leva pelo menos dois, três anos. Como a gente percebeu esse problema da mudança climática também há dois, três anos, está aplicando os mecanismos de correção, mas isso toma um tempo.

A térmica sempre fará parte da matriz, a discussão é qual combustível usar e qual preço vai pagar, porque hoje a gente está usando o combustível mais poluente [diesel] e caro. O gás natural, é o mais indicado entre os fósseis, porque é menos poluente – sua emissão é 50% menor que a do carvão.

A microgeração de eólica, em condomínios, por exemplo, também é eficiente?

Não. A microgeração faz sentido para a fonte solar. Enquanto o Sol é para todos, o vento é localizado. Os microaerogeradores funcionam somente a partir de uma determinada velocidade de vento, dependem de posicionamento da torre, então não faz tanto sentido.

A mudança climática pode influenciar os ventos, por exemplo, mudar sua direção, sua intensidade?

Essa é uma pergunta importante, mas os cientistas ainda não trouxeram uma resposta satisfatória. Ninguém tem dúvida que causa influência, mas não se sabe o grau nem como essa influência ocorre. A gente sabe que tem uma relação inversa entre chuva e vento, em geral quando está chovendo não venta. Estamos percebendo que nos últimos anos tem ventado mais, e estamos produzindo mais energia eólica.

Existe uma diferença entre o vento do Nordeste e o do Sul?

No Nordeste, o vento é mais constante, é mais, digamos assim, rotineiro. No Sul, o vento apresenta umas subidas, umas variações.

No Sul, as pessoas sabem tudo sobre vento, o vento tem nome, o vento tem até rosto! [risos] Tem o Sul, o Nordestão, o Sudeste, o Minuano. O Minuano, que sopra mais na fronteira, é um vento gelado, um vento que assovia. Tem muita poesia e literatura no Sul girando em torno do vento.

O Tempo e o Vento [série literária de Érico Veríssimo]…

Sim! Eu morava em Florianópolis para estudar doutorado e alugava a casa da senhorinha que morava em frente. Ela me acordava para a faculdade batendo na janela: “Minha filha, minha filha, acorda! Bota um casaquinho porque é vento Sul, é vento Sul!” [risos]

Saiba mais:

O documentário Ventos do Brasil, com direção executiva de Fátima Lins e Tereza Farias, da 3M Editora e Comunicação, deve ser lançado em outubro. Será exibido em tevê aberta no primeiro semestre de 2018 e estará disponível no site da 3M Editora.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta