Mudança do clima e a batalha da opinião pública

Levantamento inédito apresentado na Conferência do Clima de Bonn (COP 23) mostra como a opinião pública vê a mudança do clima nos Estados Unidos e na China, os dois principais emissores de gases de efeito estufa do planeta

De Bonn, Alemanha – Na comunidade científica, poucas afirmações são tão contundentes quanto a de que os padrões climáticos da Terra estão sendo modificados por conta da concentração crescente de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera resultante de atividades humanas – ou seja, a mudança do clima por efeito antropogênico. Mais de 97% dos estudos e pesquisas publicados nas principais revistas acadêmicas do mundo corroboram esta afirmação. É este alto grau de confiança no plano técnico que fundamenta a ação política e econômica em torno da redução de emissões de GEE, de forma a evitar mudanças danosas à humanidade e ao planeta como um todo.

Já no plano social, essa certeza ainda não é tão contundente. Pesquisas de opiniões em diversos países apontam para uma maioria que concorda com a existência de um processo de mudança do clima causado pela queima de combustíveis fósseis pela humanidade nos últimos 150 anos, mas setores céticos pequenos, porém barulhentos, continuam capturando parte do debate público sobre o tema, espalhando descrença infundada com relação à ciência do clima e interferindo na ação política e econômica para reduzir emissões.

Do ponto de vista político, poucas batalhas são tão cruciais para o sucesso do esforço contra a mudança do clima do que o da opinião pública. O grau de conhecimento e conscientização da opinião pública dialoga diretamente com sua disposição e capacidade para pressionar governos e empresas a agir para reduzir emissões dentro da economia nacional. Se a opinião pública não for sensibilizada, é muito difícil que a sociedade se torne um fator de pressão para a ação climática por parte desses atores.

E como está essa batalha nos dois principais emissores de GEE do mundo, China e Estados Unidos? Para explorar a forma como a opinião pública nesses países enxerga a questão climática, a Universidade de Yale se uniu ao China Center for Climate Change Communication para realizar uma pesquisa de opinião representativa das populações chinesa e norte-americana.

Realizada entre agosto e outubro passados, a pesquisa entrevistou por telefone cerca de 4,25 mil pessoas na China e 1,25 mil nos Estados Unidos, fundamentada em uma metodologia comum que permitisse a comparação das respostas nos dois países. Os resultados foram apresentados em primeira mão em evento paralelo organizado na Conferência do Clima de Bonn, a COP 23, na última sexta (10/11).

China e a mudança do clima “na pele”

Cinco anos após a realização da primeira pesquisa de opinião pública sobre mudança do clima na China, o levantamento recente destaca o alto grau de concordância dos chineses com relação à ocorrência deste problema: 94% dos entrevistados concordaram que os padrões climáticos estão mudando, sendo contraditados por apenas 5%.

Para os chineses, o termo “mudança do clima” traz à mente elementos como calor e fumaça, dois problemas graves enfrentados pela população da China nas últimas décadas, com aumento progressivo da temperatura média em todas as regiões do país e a intensificação da poluição atmosférica decorrente da atividade industrial, especialmente em grandes cidades como Pequim e Xangai.

Destaca-se também o alto grau de preocupação dos chineses com o problema climático: 80% dos respondentes afirmaram ter alguma preocupação com mudança do clima, sendo que 16% deste grupo apontou estar bastante preocupado.

A preocupação com o problema está alinhada com os efeitos da mudança do clima que a população chinesa já identifica no seu dia a dia. Cerca de 75% dos chineses entrevistados afirmaram que estão sendo os impactos negativos da mudança do clima na sua rotina pessoal. Dentre as principais preocupações dos chineses com o tema, destaques para a proliferação de doenças epidêmicas (91%), secas e falta d’água (90%), enchentes (88%) e fome (73%).

Tudo isso acaba fundamentando um alto grau de apoio às medidas do governo central chinês para reduzir emissões de GEE e descarbonizar a economia do país. Mais de 95% dos entrevistados apoiam o envolvimento da China no Acordo de Paris, a promoção de acordos de cooperação internacional no tema e as medidas restritivas para o uso de combustíveis fósseis na indústria. O grau de engajamento da sociedade chinesa com o desafio climático também é destacado na pesquisa. Quase 75% dos respondentes afirmaram que aceitam pagar mais por produtos e serviços que sejam menos intensos em carbono.

“Nesta pesquisa, procuramos explorar uma amostra mais representativa da sociedade chinesa”, explicou Binbin Wang, diretora do China Center. “Fomos além das grandes cidades e cobrimos as zonas rurais do país, para trazer a percepção desta parcela importante da população sobre a questão climática”.

Estados Unidos e o eterno “bode climático na sala”

Poucos países deixam tão clara a importância da opinião pública para a ação climática como os Estados Unidos, exatamente o principal emissor histórico de GEE do planeta. A partidarização do debate sobre política ambiental em geral – e mudança do clima em particular – afetou profundamente a forma como a sociedade norte-americana enxerga o problema e entende sobre suas causas, efeitos e possíveis soluções. Isso se reflete nos níveis de apoio popular à ação climática nos Estados Unidos ao longo da última década.

Em 2008, 71% dos norte-americanos acreditavam que a mudança do clima era um problema real – mesmo índice apontado no levantamento deste ano. No entanto, dentro deste período, o grau de concordância da população variou bastante.

Em 2010, o índice de norte-americanos que acreditavam na mudança do clima caiu para 57%. Na época, o surgimento de grupos conservadores mais radicais dentro e fora do Partido Republicano tradicional recrudesceu a indisposição da direita dos EUA com questões de meio ambiente em geral – e de mudança do clima, em particular. Dois anos depois, na véspera da reeleição de Barack Obama como presidente, o grau de concordância com relação à ciência do clima voltou para a casa dos 70%, para depois cair novamente para cerca de 60% em 2014, ano no qual os republicanos tiveram ganhos eleitorais expressivos na disputa legislativa.

Hoje, a maior parte dos norte-americanos não apenas acredita na ocorrência da mudança do clima como também concorda que ela está acontecendo por razão da atividade humana (54%). Seis em cada dez pessoas no país estão preocupadas em algum grau com este problema, sendo que 64% acreditam que as alterações nos padrões climáticos internacionais já podem ser sentidas no dia a dia – reflexos da temporada anormal de tempestades tropicais que afetaram as costas sul e leste dos Estados Unidos entre julho e setembro.

Essa confiança na ciência do clima se reflete no apoio aos esforços internacionais para combater a mudança do clima. Mais de 75% dos entrevistados afirmaram que os Estados Unidos deveriam participar do Acordo de Paris, sendo que 64% discordam da decisão do presidente Trump de retirar o país do tratado.

O apoio dos norte-americanos a medidas de mitigação também é grande, de acordo com o levantamento. Ações como maior investimento em pesquisa científica em clima, geração de energia renovável (solar e eólica) em terras federais, incentivos fiscais para compra de painéis fotovoltaicos e veículos mais eficientes, definição de limites mais restritos para emissões de usinas de carvão (ponto central do Clean Power Plan, um dos pilares da política climática do governo Obama) e mesmo a tributação do carbono reuniram suporte majoritário absoluto dos entrevistados.

Os resultados do levantamento apontam para uma incongruência entre o interesse da maior parte da população dos Estados Unidos e as políticas conduzidas pela Casa Branca e pelo Congresso do país na questão climática. O que explica este desalinhamento entre expectativas e ações práticas?

A pesquisa em si não se aventura nesse ponto, mas um elemento importante para entender as distorções políticas nos Estados Unidos está em seu sistema político-partidário. O modelo representativo norte-americano distribui o poder político de maneira desigual, resultando em estados menos populosos com mais representatividade per capita do que os mais populosos. Assim, os grupos céticos da mudança do clima, a despeito de serem minoritários no conjunto da sociedade norte-americana, consegue reunir mais poder político para interferir no debate público sobre o tema.

De toda maneira, os resultados da pesquisa sinalizam que a população norte-americana está cada vez mais consciente da seriedade do problema e apoia majoritariamente ações para conter a mudança do clima, ainda que o ritmo dessa transformação continue lento. “A maioria da população dos Estados Unidos acredita que a mudança do clima está acontecendo, se preocupa com seus efeitos sobre suas comunidades e cidades, mas as pessoas em geral ainda têm dificuldade para entender as conexões entre as alterações no clima e os efeitos cotidianos disso em suas vidas”, explica Anthony Leiserowitz, diretor do Programa de Comunicação em Mudança do Clima de Yale.

“Estamos virando a curva e vendo o problema da mudança do clima com mais clareza do que há dez anos, mas ainda temos dificuldades para enxergá-lo como algo próximo a nós”, aponta Kalee Kreider, consultora e antiga diretora de comunicação do ex-vice-presidente dos EUA Al Gore. “As pessoas precisam de mais informação, e de mais tempo para processá-la. O desafio de garantir uma atenção fundamentada é um obstáculo importante neste esforço”.

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