A (falta de) cultura filantrópica na Amazônia

A cultura da doação na Amazônia raramente ocorre de forma sistemática, consistente e a longo prazo. O problema persiste tanto universo de indivíduos e famílias, como no meio empresarial e no poder público

Em 14 anos morando na Amazônia, e maior vivência no Pará, observo como há muito a avançar na cultura filantrópica, especialmente para doações transformadoras – geradoras de alto impacto socioambiental e cultural. Dirigir organizações socioambientais por 33 anos e mobilizar recursos a diferentes causas levou-me a propor esta reflexão, em três universos.

O primeiro refere-se aos indivíduos e famílias. A cultura da doação raramente está presente – de forma consistente, sistemática e de longo prazo – e possui significado e proporcionalidade aos patrimônios e ganhos.

Dificilmente os modernos mecanismos de contribuições, como financiamentos coletivos (crowdfunding) alcançam resultados aceitáveis. São notáveis duas experiências que conduzimos por meio do ProGoeldi, programa da sociedade civil para revitalização do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, cujos resultados foram sofríveis. Isto se considerando a importância simbólica e o carinho da população perante o “Museu”. Igualmente, iniciativas que apresentam recompensas (camisetas etc.) não alcançaram resultado válido.

Praticamente inexistem doações de grandes fortunas a causas de interesse público (excluem-se doações por fins religiosos), com valores consistentes. São exíguos os esforços, mesmo em torno de causas de comunidades e localidades. Quando ocorrem, persistem por pouco tempo, inexistindo compromissos intergeracionais.

As doações restringem-se às micro-contribuições (de fim de ano, ao Círio de Nazaré, a eventos beneficentes etc.) que mais atraem pelo congraçamento social que pelo impacto, pouco monitorado e avaliado. Há iniciativas meritórias de colônias de migrantes (japonesa, por exemplo), ou de agregações religiosas (exemplo: hospital adventista), porém estão restritas a um pequeno grupo e pouco “fazem escola”.

O segundo universo relaciona-se ao meio empresarial, especialmente o local. Da mesma forma que no primeiro, é raro que haja alguma ação significativa, consistente e desinteressada Nestes 14 anos em Belém, nunca fomos abordados para receber doações e mobilizar outros empresários. Nas organizações associativas empresariais também as contribuições não se efetivam.

No meio empresarial nacional e multinacional presente na região, apesar da maior compreensão, a contribuição raramente é proporcional ao impacto do negócio, mesmo envolvendo fundações e institutos empresariais. Mesmo com incentivos fiscais, os resultados são exíguos. Não tratamos de patrocínios de impacto comercial. E, quando empresas nacionais e multinacionais utilizam incentivos, a proporção destinada à região é pífia. Muitas vezes buscamos recursos para causas inquestionáveis (exemplo: Museu Emílio Goeldi), e mesmo na lei do Estado do Pará de incentivo à cultura (Lei Semear) nada alcançamos. Observa-se profundo desconhecimento sobre leis de incentivo e mecanismos simples, como as doações a Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs).

O terceiro se refere ao relacionamento com o poder público. Este poderia contribuir no fortalecimento e profissionalização do Terceiro Setor, mas não o faz. Ou, quando faz, as políticas públicas são descontinuadas no mandato seguinte.

Por fim, comente-se que para as organizações da sociedade civil, a sobrevivência dificulta a profissionalização. Raras as organizações que investem em capacitação, e estas pouco ocorrem na região. As doações dificilmente consideram o fortalecimento institucional, compreendem reformas no telhado, novos equipamentos etc.

Entretanto,  os desafios se tornam a cada dia maiores e desproporcionais frente à capacidade das organizações do Terceiro Setor. A sociedade civil ainda não despertou para o papel do Terceiro Setor perante o meio empresarial e público no enfrentamento das agendas socioambientais e culturais, de forma profissionalizada e a longo prazo. O desenvolvimento da cultura filantrópica tem forte relação com a democracia, a busca de diminuição de desigualdades e de um Estado de Direito pleno.

*João Meirelles Filho é captador de recursos há 33 anos, um dos mais antigos profissionais desta área em exercício no País, e contribuiu na Associação Brasileira dos Captadores de Recursos (ABCR). Escritor e ativista socioambiental, dirige o Instituto Peabiru, OSCIP que completou 20 anos em 2018.