A cada dólar gasto em alimentos, a sociedade paga o dobro em custos ambientais, econômicos e de saúde

Para garantir que pessoas ao redor do mundo possam se alimentar de forma saudável, é necessário considerar não somente o que comemos, mas como esses alimentos são produzidos. A conclusão é do relatório Cidades e Economia Circular dos Alimentos, lançado hoje em Davos

Inimigos ocultos na produção de alimentos estão tornando a alimentação saudável impossível para pessoas ao redor do mundo, de acordo com novo relatório da Ellen MacArthur Foundation. Para cada US$ 1 gasto em alimentos, a sociedade paga US$ 2 em custos ambientais, econômicos e de saúde.

O uso excessivo de fertilizantes, esgoto sem tratamento, e o uso excessivo de antibióticos na criação de animais poderão levar a 5 milhões de mortes por ano globalmente até 2050, de acordo com o relatório Cidades e Economia Circular dos Alimentos. Isso equivale ao dobro do atual número de mortes por obesidade e quatro vezes o número associado a acidentes de trânsito.

O relatório, lançado hoje no encontro anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, destaca o enorme dano ambiental causado pela produção de alimentos. Atualmente a produção de alimentos é responsável por quase um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, enquanto fertilizantes sintéticos e estrume mal manejados intensificam a poluição atmosférica.

Mesmo quando tentam fazer escolhas saudáveis para a sua alimentação, os consumidores estão expostos a riscos associados à produção dos alimentos. Para garantir que pessoas ao redor do mundo possam se alimentar de forma saudável, é necessário considerar não somente o que comemos, mas como esses alimentos são produzidos.

A Fundação estabelece uma visão de um novo sistema em que os alimentos são produzidos localmente e de maneira que regenera recursos naturais, resíduos são eliminados através da melhor redistribuição e aproveitamento de co-produtos, e alimentos saudáveis são produzidos sem depender de práticas nocivas.

“A nossa atual maneira de produzir alimentos não só gera desperdícios e prejudica o meio ambiente, como está causando sérios problemas de saúde.Ela não pode continuar no longo prazo. Nós precisamos redesenhar o sistema urgentemente. Pessoas ao redor do mundo necessitam de alimentos que sejam nutritivos, e que sejam produzidos e ofertados de uma maneira favorável à sua saúde, ao meio ambiente e à economia”, diz Ellen MacArthur.

“Nosso atual sistema de produção e consumo de alimentos definitivamente não está adequado aos desafios do século 21″, avalia Paulo Pianez, diretor de Sustentabilidade e Responsabilidade Social, Carrefour Brasil. “Até 2050, 80% desses alimentos serão consumidos nas cidades e, portanto, essas mesmas cidades têm uma capacidade de revolucionar esse sistema por meio da conscientização e da ação dos seus moradores. Sem dúvidas, havendo esse engajamento, conseguiremos fazer com que as necessidades de um novo modelo sejam atendidas.”

O relatório revela que eliminar resíduos e melhorar a saúde da população através da economia circular poderia gerar benefícios anuais equivalentes a US$ 2,7 trilhões para a economia global.

Custos de saúde causados pelo uso de pesticidas teriam uma redução de US$ 550 bilhões por ano, e a resistência antimicrobiana, a poluição atmosférica, a contaminação da água e as doenças de origem alimentar também apresentariam uma queda significativa.

Emissões de gases de efeito estufa teriam uma redução esperada de 4,3 Gt CO2e (gigatoneladas de carbono equivalente), o que equivaleria a tirar um bilhão de carros de circulação permanentemente. A degradação de 15 milhões de hectares de terra arável seria evitada e 450 trilhões de litros de água doce economizados por ano.

As cidades são atores chave nessa revolução alimentar. Até 2050 elas consumirão 80% dos alimentos, e por isso têm o poder de conduzir essa transição para um sistema saudável. As próprias cidades poderiam destravar US$ 700 bilhões por ano usando materiais orgânicos para ajudar a produzir novos alimentos e produtos, e reduzindo o desperdício de alimentos próprios para consumo.

Um olhar sobre quatro cidades ao redor do mundo, entre elas São Paulo, oferece um entendimento de diferentes sistemas alimentares urbanos e os potenciais benefícios de uma transição para uma economia circular dos alimentos. O relatório descreve um cenário para cada cidade, destacando elementos chave de um potencial redesenho circular do seu sistema de alimentos. Análises completas das quatro cidades serão publicadas em fevereiro de 2019, delineando os principais motores e potenciais benefícios de tal transição em cada contexto.

São Paulo

Em São Paulo, um redesenho inspirado nos princípios de uma economia circular poderia construir um sistema alimentar urbano regenerativo e mais inclusivo. O relatório descreve um cenário em que a produção local de alimentos é expandida com ampla adoção de práticas regenerativas.

Agricultores familiares desempenham um papel central na regeneração das áreas verdes da capital paulista e região metropolitana através da produção de alimentos, podendo evitar 92 mil toneladas de emissões de gases de efeito estufa e reduzir o consumo de água doce em 46 milhões m3 em comparação a um cenário de práticas agrícolas convencionais.

Com produção mais local e distribuída, os alimentos saudáveis se tornam mais acessíveis para todos e os desertos alimentares urbanos deixam de existir. A economia da cidade também se beneficia com esse cenário, já que a oferta ampliada de ingredientes diversos e nutritivos abastece a os cardápios dos 23 mil restaurantes da cidade e reforça sua posição como uma capital gastronômica.

Luísa Santiago, líder da Ellen MacArthur Foundation Brasil, afirma: “As falhas do nosso atual sistema linear de alimentos estão evidentes em cidades ao redor do mundo e as cidades brasileiras poderiam encontrar grandes oportunidades na transição para uma economia circular dos alimentos. A nossa análise da cidade de São Paulo, por exemplo, sugere que essa capital gastronômica poderia capturar mais de R$ 500 milhões em benefícios anuais ao adotar princípios de circularidade para alimentar sua população, além de regenerar os ecossistemas locais e ampliar o acesso a alimentos saudáveis.”

O relatório foi produzido como parte do Project Mainstream, uma iniciativa global liderada por CEOs, criada pela Ellen MacArthur Foundation e o Fórum Econômico Mundial, que ajuda a dar escala às inovações de economia circular nos negócios.

PRINCIPAIS DADOS E EXEMPLOS

Para cada US$ 1 gasto em alimentos, a sociedade paga US$ 2 em custos ambientais, econômicos e de saúde. Esses impactos negativos custam US$ 5,7 trilhões por ano – o mesmo que o total da obesidade, desnutrição e outros problemas associados ao consumo de alimentos. Esses custos são se devem a:

Extração de recursos finitos. Grandes quantidades de fósforo, potássio e outros recursos finitos são usados na produção de alimentos. Desde tratores no campo, a plantas de processamento de alimentos e frotas de caminhões de distribuição, a maior parte das atividades no sistema alimentar depende de combustíveis fósseis. Para cada caloria de um alimento consumido nos Estados Unidos, uma energia equivalente a 13 calorias de petróleo é usada em sua produção.

Desperdício. Hoje, o desperdício de alimentos em condição de consumo equivale a seis caminhões de lixo por segundo. Além disso,, menos de 2% dos nutrientes valiosos contidos em co-produtos alimentícios e resíduos humanos nas cidades são valorizados de forma segura e produtiva. Em vez disso, esses nutrientes costumam ser destinados a aterros, incineradores ou, pior, se decompõem em lixões a céu aberto ou são liberados sem tratamento, apresentando riscos de saúde aos habitantes próximos e ao meio ambiente.

Poluição. Pesticidas e fertilizantes sintéticos usados em práticas agrícolas convencionais, assim como a má administração de esterco, podem intensificar a poluição atmosférica, contaminar o solo, e liberar substâncias químicas no abastecimento de água. A má gestão de resíduos alimentares e co-produtos gerados no processamento, distribuição e embalagem de alimentos poluem ainda mais a água, sobretudo em países menos desenvolvidos. A indústria agroalimentar é a segunda maior emissora global de gases de efeito estufa, sendo responsável por cerca de 25% de todas as emissões de origem humana.

Degradação do capital natural. Práticas agrícolas inadequadas contribuem para a degradação de 39 milhões de hectares de terra arável todo ano. Cerca de 70% da demanda global de água doce se deve à agricultura. A agricultura foi responsável por aproximadamente 73% do desmatamento total entre 2000 e 2010.

E se nada mudar? A poluição atmosférica e a contaminação da água (causadas pelo uso excessivo de fertilizantes, criação de animais e resíduos humanos sem tratamento), somadas à resistência antimicrobiótica facilitada pelo uso excessivo de antibióticos na criação de animais e esgoto mal tratado, poderiam contribuir para 5 milhões de mortes por ano globalmente até 2050, o dobro de mortes causadas pela obesidade. O sistema alimentar terá consumido, sozinho, dois terços do orçamento global de carbono remanescente para termos uma possibilidade razoável de limitar o aquecimento global a 1,5°C ou menos em comparação a níveis pré-industriais.