Desde Acordo de Paris, petrolíferas gastaram US$ 1 bi em desinformação sobre clima

Ao mesmo tempo em que se colocam como “parte da solução” da crise climática, as cinco principais companhias de petróleo e gás do mundo continuam agindo contra políticas climáticas, segundo relatório do think tank inglês InfluenceMap

Desde que o Acordo de Paris foi concluído em 2015, as cinco principais empresas de capital aberto do setor de petróleo e gás do mundo gastaram mais de US$ 1 bilhão para destacar suas “credenciais” como companhias preocupadas com a mudança do clima, ao mesmo tempo em que continuaram pressionando agentes públicos para proteger seus interesses e expandir suas operações de combustíveis fósseis. Esse dado foi revelado pelo think tank britânico InfluenceMap, que publicou um relatório abrangente sobre os gastos dessas empresas relacionados a clima.

O relatório revela que ExxonMobil, Royal Dutch Shell, Chevron, BP e Total gastam anualmente cerca de US$ 195 milhões em campanhas de branding, reforçando seus compromissos climáticos junto aos diferentes públicos de interesse. Ao mesmo tempo, essas mesmas empresas despendem US$ 200 milhões anuais para controlar ou adiar políticas públicas em clima e energia, impedindo que governos cumpram com suas promessas de redução de emissões de gases de efeito estufa no âmbito do Acordo de Paris.

“As principais empresas de petróleo estão se projetando como atores-chave na transição energética enquanto fazem lobby para atrasar, enfraquecer ou se opor a políticas climáticas significativas”, aponta Edward Collins, analista do InfluenceMap e autor do relatório.

De acordo com o relatório, a assinatura do Acordo de Paris forçou uma mudança na conduta de comunicação das gigantes petrolíferas, já que a percepção pública sobre a questão climática mudou em favor de ações incisivas para enfrentar o problema do aquecimento do planeta. Por isso, a estratégia de comunicação dessas empresas passou a valorizar a preocupação corporativa com a mudança do clima. No entanto, sem conexões mais sólidas entre mensagem e ação, essas companhias acabam praticando greenwash.

Esse esforço seria parte de uma estratégia mais ampla das empresas para proteger e expandir as operações com vendas anuais combinadas de mais de US$ 1 trilhão e lucros de US$ 55 bilhões em 2018, a grande maioria relacionada a petróleo e gás. Os gastos das empresas aumentarão para US$ 115 bilhões em 2019, de acordo com as divulgações corporativas, mas apenas cerca de 3% serão investidos em baixo carbono.

O relatório do InfluenceMap analisou e avaliou detalhadamente os gastos das grandes companhias petrolíferas em atividades relacionadas a clima, tanto diretamente quanto através de parceiros e grupos comerciais. Para tanto, primeiro foram identificaram áreas de atividade corporativa que possam influenciar a política e o branding nas empresas, incluindo pessoal interno, gastos com publicidade e lobby externo, com coleta de dados sobre esses gastos. Depois, analisou-se a proporção de custos dedicada a clima, observando o foco das publicações, propagandas e atividades de lobby.

Uma tendência observada no relatório é o uso tático de redes sociais. Nas quatro semanas que antecederam as eleições de 2018 nos Estados Unidos, a ExxonMobil liderou um esforço de US$ 2 milhões em anúncios no Facebook e no Instagram promovendo os benefícios do aumento da produção de combustível fóssil e se opondo a diversas iniciativas legislativas colocadas para votação popular no pleito.

O relatório conclui que as grandes petrolíferas terceirizam o lobby mais agressivo contra ação climática para grupos comerciais como o American Petroleum Institute, que fez campanha em 2018 para desregulamentar o setor de petróleo e gás e reverter as regulações sobre metano nos Estados Unidos. Esses grupos também vêm coordenando esforços para bloquear políticas para acelerar o desenvolvimento e uso de veículos elétricos nos Estados Unidos e na Europa.

No entanto, as empresas estão enfrentando uma pressão crescente de investidores, políticos e sociedade civil para mudar seu comportamento. Por exemplo, a iniciativa Climate Action 100+, que reúne instituições com US$ 30 trilhões em ativos, ajudou a forçar a Shell e a BP a se comprometer com a reforma de suas práticas de lobby. No plano político, alguns estados norte-americanos estão buscando processos legais climáticos contra ExxonMobil e outras empresas.

“As credenciais climáticas das gigantes petrolíferas estão esvaziadas, o que coloca sua credibilidade em jogo. Elas apoiam publicamente a ação climática, mas fazem lobby político contra. Elas defendem soluções de baixo carbono, mas esses investimentos são superados pelos gastos em expandir seu negócio de combustíveis fósseis”, aponta Collins.

“Há um consenso crescente sobre a necessidade de ação urgente em relação à mudança do clima, unindo cientistas, empresas, investidores e a sociedade civil em geral. Este relatório fornecerá munição para pressionar por regulamentos significativos e obrigatórios nas operações dessas empresas”.

O relatório está disponível neste link.