Estudo da Proteção Animal Mundial analisou 17 editais e programas que somam mais de R$ 685 milhões e identificou a falta de exigência de monitoramento da fauna
O Brasil vem ampliando investimentos e metas de restauração florestal para cumprir compromissos climáticos e de biodiversidade, mas os animais seguem praticamente ignorados nas políticas públicas e nos financiamentos destinados à recuperação de florestas. A conclusão é do relatório Incorporação de Fauna em Projetos de Restauração Florestal nos Biomas Brasileiros, lançado pela ONG Proteção Animal Mundial.
O estudo analisou 17 programas e editais públicos e privados de restauração florestal entre 2024 e 2025, que juntos movimentam mais de R$ 685 milhões, e concluiu que nenhum deles considera a fauna como um critério importante para a regeneração das florestas.
Segundo a análise, apenas 12,5% dos editais mencionam fauna, ainda assim de forma indireta e sem protocolos ou indicadores mensuráveis. Enquanto isso, 100% exigem indicadores de cobertura vegetal e 75% incluem métricas de carbono.
“Hoje, nenhuma lei ou diretriz governamental estabelece critérios faunísticos obrigatórios para projetos de restauração. Esse relatório abre a oportunidade para incluirmos os animais nas políticas e programas nacionais que tratam de restauração, como o Planaveg [Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa], para serem colocados em prática em editais públicos e privados”, afirma Rodrigo Gerhardt, gerente de Vida Silvestre da Proteção Animal Mundial.
A publicação reúne evidências científicas sobre o papel dos animais na regeneração florestal e aponta que a ausência de fauna compromete diretamente processos ecológicos fundamentais, como dispersão de sementes, ciclagem de nutrientes, controle da vegetação e polinização.
“Plantar árvores não basta para ‘restaurar’ efetivamente uma floresta. Sem animais, processos ecológicos essenciais, como a polinização, a dispersão de sementes e a fertilização do solo, deixam de ocorrer de forma natural. Por isso, a presença de fauna é fundamental para uma restauração florestal completa e deve ser considerada em qualquer projeto que busque sucesso a longo prazo”, explica Laís Lautenschlager, autora do estudo.
Entre os principais destaques do relatório, também reunidos na síntese de políticas públicas do estudo:
- Entre 80% e 90% das sementes em florestas tropicais são dispersadas por animais;
- Florestas defaunadas armazenam entre 30% e 40% menos carbono;
- 88% da Mata Atlântica já perdeu ao menos quatro espécies-chave de vertebrados;
- Houve redução de cerca de 70% dos mamíferos de médio e grande porte no Brasil nos últimos 500 anos.
- Estudos científicos mostram que projetos que incorporam monitoramento de fauna e funcionalidade ecológica apresentam regeneração natural até 40% mais rápida.
O documento também propõe a criação de critérios obrigatórios de monitoramento de fauna em projetos de restauração, divididos em três níveis progressivos de exigência, além de sugerir integração entre áreas restauradas e programas de reabilitação de animais silvestres conduzidos por Centros de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) e Centros de Reabilitação de Animais Silvestres (Cras).
Segundo o relatório, incorporar monitoramento de fauna representaria um custo adicional estimado entre 3% e 8% do valor total dos projetos, mas aumentaria significativamente a efetividade ecológica e climática da restauração.
O estudo foi elaborado por Laís Lautenschlager, da Wildlife Survey, com supervisão do pesquisador Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

