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Informação para o novo século

Edição 32

02.07.2009

O medo do homem diante da narrativa feminina

0 por Xico Sá # em 32, Revista

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No ataque e na defesa, o discurso amoroso da mulher mimetiza a nossa arcaica linguagem. Mais que o avanço delas em todos os ramos, a fala é que nos perturba
Por Xico Sá*
O homem é a nova mulher.  Poderia ser apenas um chiste do jornalista Alcino Leite Neto, editor de Moda da Folha de S. Paulo, mas o título diz muito mais sobre a nova postura feminina do que todas as nossas especulações psicanalíticas de botequim.
Pelo menos no discurso amoroso, não há dúvida, a fêmea se apropriou de vez da lengalenga dos marmanjos. É, senhor Lacan, aquela velha história de que a mulher não existe, tua boutade mais famosa, está ficando démodé.  A fala feminina, apesar dos pesares e do miserável trocadilho que só existe em língua portuguesa, é o falo que faltava para a existência plena das moças.
Elas estão podendo.  Elas nos devoram, taradas e indiscretas tupinambás, nos traçam e espalham em todas as rodas sociais.  O poder da fala e do gozo com a narração das aventuras. A nós, homens, só resta uma constatação tipicamente feminina de invernos de outrora: “Você só quer me comer!”
A fala é o novíssimo falo do mulherio. A libido pode até ser comum de dois, mas ela é sobretudo feminina. A fêmea goza, principalmente da nossa cara de machos perdidos na selva mais indômita.
No ataque e na defesa, o discurso amoroso da mulher mimetiza a nossa linguagem mais arcaica.  Sabe aquele manjadíssimo truque do “estou confuso etc.”, tão em voga como mal da boca masculina?  Agora é arte da mulherada.  Sim, a enganação-mor, o clássico dos clássicos da nossa principal mentira agora é falado em outra língua.
“Estou confuso, não é culpa sua, você é ótima, mas acho que não vou lhe fazer bem neste momento, blá-blá-blá”.  Era o que dizíamos para nos safar de alguns encurralamentos, para cair fora, para amaciar o adeus.
Já ouviram esse trágico fragmento, não é?  Para completar a fraude sentimental, vinha sempre algo do naipe: “Você merece algo melhor!!!”  O copyright tem a marca da nossa testosterona das antigas, mas agora quem canta a mesma bola são as formosas damas.
Mais do que o próprio novo comportamento e o avanço da mulher em todos os ramos, a fala é que nos incomoda e perturba o cocuruto. A conquista de uma narração desavergonhada, o sequestro dos nossos dizeres mais “podres” e imorais.
E já reparou, amigo, como elas contam suas jornadas sexuais? Parecem até que possuem pênis mesmo.  Dão com a língua nos dentes. Melhor, batem o pau na mesa, para usar uma das nossas prediletas expressões de baixaria.
*Jornalista e escritor, é autor de Modos de Macho & Modinhas de Fêmea e de Catecismo de Devoções, Intimidades et Pornografias, entre outros livros

No ataque e na defesa, o discurso amoroso da mulher mimetiza a nossa arcaica linguagem. Mais que o avanço delas em todos os ramos, a fala é que nos perturba

CronicaO homem é a nova mulher.  Poderia ser apenas um chiste do jornalista Alcino Leite Neto, editor de Moda da Folha de S. Paulo, mas o título diz muito mais sobre a nova postura feminina do que todas as nossas especulações psicanalíticas de botequim.

Pelo menos no discurso amoroso, não há dúvida, a fêmea se apropriou de vez da lengalenga dos marmanjos. É, senhor Lacan, aquela velha história de que a mulher não existe, tua boutade mais famosa, está ficando démodé.  A fala feminina, apesar dos pesares e do miserável trocadilho que só existe em língua portuguesa, é o falo que faltava para a existência plena das moças.

Elas estão podendo.  Elas nos devoram, taradas e indiscretas tupinambás, nos traçam e espalham em todas as rodas sociais.  O poder da fala e do gozo com a narração das aventuras. A nós, homens, só resta uma constatação tipicamente feminina de invernos de outrora: “Você só quer me comer!”

A fala é o novíssimo falo do mulherio. A libido pode até ser comum de dois, mas ela é sobretudo feminina. A fêmea goza, principalmente da nossa cara de machos perdidos na selva mais indômita.

No ataque e na defesa, o discurso amoroso da mulher mimetiza a nossa linguagem mais arcaica.  Sabe aquele manjadíssimo truque do “estou confuso etc.”, tão em voga como mal da boca masculina?  Agora é arte da mulherada.  Sim, a enganação-mor, o clássico dos clássicos da nossa principal mentira agora é falado em outra língua.

“Estou confuso, não é culpa sua, você é ótima, mas acho que não vou lhe fazer bem neste momento, blá-blá-blá”.  Era o que dizíamos para nos safar de alguns encurralamentos, para cair fora, para amaciar o adeus.

Já ouviram esse trágico fragmento, não é?  Para completar a fraude sentimental, vinha sempre algo do naipe: “Você merece algo melhor!!!”  O copyright tem a marca da nossa testosterona das antigas, mas agora quem canta a mesma bola são as formosas damas.

Mais do que o próprio novo comportamento e o avanço da mulher em todos os ramos, a fala é que nos incomoda e perturba o cocuruto. A conquista de uma narração desavergonhada, o sequestro dos nossos dizeres mais “podres” e imorais.

E já reparou, amigo, como elas contam suas jornadas sexuais? Parecem até que possuem pênis mesmo.  Dão com a língua nos dentes. Melhor, batem o pau na mesa, para usar uma das nossas prediletas expressões de baixaria.

Jornalista e escritor, Xico Sá é autor de Modos de Macho & Modinhas de Fêmea e de Catecismo de Devoções, Intimidades et Pornografias, entre outros livros

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Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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