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Informação para o novo século

Edição 41

10.05.2010

O fator PMDB

0 por Maristela Bernardo* # em 41, Revista

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Nenhuma novidade partidária escapará dessa máquina, se chegar ao poder.  A menos que tenha como propósito central a modernização do Estado e a reforma política

PoliticaO princípio era o MDB, o grande guardachuva político, ainda que precário, sob o qual se abrigavam, formal ou informalmente, todas as tendências e ideologias que se opunham à ditadura militar.  Isso foi no tempo em que o bipartidarismo imposto nem sequer permitia que um grupamento desses se chamasse partido.  Até o P (de partido) foi cassado.  De 1966 a 1979, eram a Arena (Aliança Renovadora Nacional), o partidão da ditadura, e o Movimento Democrático Brasileiro, o partidão de quem lutava contra a ditadura pelas vias institucionais de então ou tentava proteger quem se aventurava por outros caminhos e atraía a repressão do regime.

Depois vieram as eleições de 1974, com uma vitória sobre a Arena que assustou a linha dura militar e forçou ainda mais a tal da abertura lenta e gradual.  A Arena deu à luz outros partidos, principalmente o PFL, atual DEM.  E o MDB virou PMDB, de onde surgiu o PSDB.

As características próprias da negociação que encerrou o período militar no Brasil e seus desdobramentos acidentais – como a ascensão de Sarney à Presidência da República – ajudaram a consolidar uma espécie de política intersticial, na qual há zonas escorregadias onde se interpenetram todas as ideologias e se acomodam todos os interesses, sob a égide do presidencialismo de coalizão.  Que, a pretexto da governabilidade de resultados, tem feito a política partidária aparecer, aos olhos da população, como o poço de todos os pecados e de toda a corrupção.  Se a crítica é principalmente moralista e movida a escândalos, não quer dizer que, no fundo, sua maior reivindicação não seja ética e legítima, ou seja, que o sistema, como um todo, recupere o seu compromisso fundamental com o interesse público.

O jogo gelatinoso em que se transformaram os acordos de governabilidade aprofunda-se, porém, na direção contrária do interesse público.  Para usar uma expressão corrente, sabe-se como começa a busca de governabilidade, mas é melhor nem saber como termina.  E, nesse contexto, o PMDB, do alto do cacife eleitoral que acumulou em todo o País desde a histórica vitória sobre a Arena em 1974, é o principal avalista do presidencialismo de coalizão.

Especializou-se em ser o fi el da balança, o partido do poder, seja quem estiver no poder.  Tem virtudes, porque supostamente garante a sobrevivência de valores de centro e tende ao equilíbrio.  E grandes pecados, pois continua sendo um guarda-chuva, mas para os diversos matizes de conservadorismo que puxam a política para trás, para a cultura do patrimonialismo e, indiretamente, da corrupção.

A tal ponto chegou a especialização do PMDB que nem causa mais espanto que o maior partido brasileiro, com a maior capilaridade em todo o território nacional, não se anime a lançar o seu próprio candidato à Presidência da República.  O último foi Orestes Quércia, em 1994.  Parece ter pragmaticamente decidido que é melhor governar de fato do que estar no trono.  Ter o presidente sob controle e garantir o controle da parte que lhe toca no aparato do Estado.

Mas é inútil buscar uma suposta culpa do PMDB.  O modelo vigente criou esse nicho que por circunstâncias históricas foi ocupado por ele.  É cabível responsabilizá-lo e a maioria dos partidos pela prática nefasta de fazer do Estado uma partilha como se ele fosse os despojos de uma caça abatida ou a pilhagem de uma guerra.  O ponto central não é esse.  É como romper com aquilo em que se transformou o presidencialismo de coalizão no País: uma máquina de gerar corrupção e mau uso de recursos públicos, em cima de acordos de governabilidade.

Nenhuma novidade partidária – como um dia foi o PT – deixará de ser engolida por essa máquina, se chegar ao poder.  A menos que seu propósito central, sua obsessão, seja uma modernização institucional do Estado e uma reforma do sistema político que, até mesmo, vá contra seu próprio poder presidencialista.  Uma super-reforma destinada a trazer, de fato, para o centro das decisões, a democracia participativa de que tanto se fala, em vão.  Com tamanha força, convicção e apoio social que, quando essa reforma for votada no Congresso, o PMDB esteja lá votando a favor dela.  Sim, porque os muito pragmáticos têm apetite, mas, na hora H, também têm juízo.

Pergunta: Será que vai colar essa fi ssura digital que tomou conta dos candidatos?  Será que não se está raciocinando muito em cima da realidade das eleições americanas?  Nada contra, é positivo que se explorem as novas mídias, mas é preciso lembrar que apenas 27% das residências têm acesso à internet[1].  Já à televisão, são 98%.  E aí, as regras eleitorais impõem uma tremenda desigualdade, fazendo quem já tem poder ser mais poderoso ainda e mais propenso a explorar as pirotecnias marqueteiras.  Mas, é claro, sempre se pode contar com o imponderável para furar o bloqueio.

[1] Dados de 2009 da Pesquisa sobre Uso das Tecnologias de Informação no Brasil / TIC Domicialiar.

*Jornalista, socióloga e consultora independente

  • por Fernando Zarakauskas # em 13.05.2010 às 1:31 am | Responder

    Enquanto os eleitores brasileiros forem massa de manobra e a ignorância persistir entre a elite dominante, o PMDB vai reinar. O povo sempre equidistante da própria realidade, é indiferente à sua sorte, não exerce a cidadania, pois nem sabe do que se trata…Direitos são para os felizardos que possuem controle da riqueza do país e egolatricamente esbanja o PIB acumulado em detrimento ao desenvolvimento do Brasil, preferindo apoiar a predação acelerada da pátria amada, salve, salve! Isto é que é povo bom: ajuda outros povos a enriquecer a custa de um salário mínimo deplorável e não condizente com a dignidade humana. Mas quemé que se importa? Enquanto tiver carnaval, samba, economia informal, cachaça para beber, impunidade para fazer o que quizer, a falta da justiça pode levar ao caos repentinamente, pois sem justiça não há paz.

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Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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