Informação para o novo século

Edição 46

07.10.2010

Em busca de pesos e medidas

Comentários por Gisele Neuls # em 46

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O que ainda precisa evoluir para melhor reportar as ações em defesa da biodiversidade

indicadoresSe alguém quiser saber como uma empresa contribui para evitar a mudança climática, deve buscar em seus relatórios dados sobre quanto de dióxido de carbono ou metano ela deixa de lançar na atmosfera por ano.  Tudo informado de maneira simples e clara, através de uma unidade de medida mundialmente padronizada, o carbono equivalente.  Poderá saber até mesmo quantos dólares o mercado oficial e o voluntário estão pagando por tonelada.

O mesmo não se pode dizer se o curioso quiser saber a quantas anda a contribuição da empresa para a conservação da biodiversidade. Poucos passos foram dados além da descrição de ações de apoio a áreas protegidas e à conservação de espécies ameaçadas, indicadores presentes na maioria dos modelos de relatório de responsabilidade corporativa.

A complexidade do tema em si é certamente uma razão, mas não explica tudo.  Responsável pela unidade de Mudanças Climáticas e Energia Limpa do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), Ângelo Santos diz que o grande problema é que a conservação da biodiversidade ainda não encontrou o caminho para chegar ao centro do processo econômico.  Ele aponta que os avanços mais significativos aconteceram este ano, com o lançamento do estudo A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade, conhecido pela sua sigla em inglês, Teeb, no qual, pela primeira vez, tenta-se uma valoração da biodiversidade e seus serviços [1].  “É um marco na expectativa de que as empresas passem a ver a biodiversidade como valor para seu negócio”, afirma.

[1] O estudo The Economics of Ecosystems and Biodiversity (Teeb) foi encomendado pela Comissão Europeia e Ministério do Meio Ambiente da Alemanha com o objetivo de avaliar os benefícios econômicos da biodiversidade e os custos de sua perda e da degradação dos ecossistemas.  Acesse a versão em português aqui.

Várias empresas já despertaram para esse tema, especialmente aquelas que dependem diretamente de matéria-prima proveniente da biodiversidade, como mostra a reportagem Valor em cadeia sobre os movimentos e redes formados no meio corporativo.  Embora tais iniciativas busquem se embasar nos princípios da Convenção sobre Diversidade Biológica e incentivem suas afiliadas a assumir compromissos e metas verificáveis, nenhuma delas apresenta uma referência para medir a eficácia dos resultados (veja modelos disponíveis para reportar ações voltadas para a biodiversidade ao final desta reportagem).

Nos diversos modelos de relatório de responsabilidade social e ambiental, as questões relativas à biodiversidade aparecem, em geral, restritas a ações como apoio à criação e gestão de áreas protegidas, à conservação de espécies ameaçadas e ao controle de espécies invasoras.  Ações relativas à cadeia de valor aparecem aqui e ali, como nos Indicadores Ethos, que questiona se a empresa tem política explícita de não utilização de materiais e insumos provenientes de exploração ilegal de recursos naturais, e se incentiva seus fornecedores a buscar a certificação florestal.

Ângelo Santos, do Funbio, aponta que essa é uma visão tradicional sobre a biodiversidade.  “Enquanto ela não for incluída no sistema econômico, vai continuar aparecendo como externalidade.  Não é falta de vontade, é que ainda não foi encontrada uma maneira de fazer isso acontecer.” Para ele, o mais próximo que se chegou de extrapolar essa visão é considerar os serviços ecossistêmicos da biodiversidade, tais como controle do estoque de carbono, controle de chuvas e de erosão.  Mas isso ainda está longe de construir a ponte com o mundo dos negócios que a Convenção do Clima conseguiu, ao estabelecer o carbono como unidade de medida e atribuir-lhe valor monetário.

Preocupações novas como a responsabilidade socioambiental ao longo da cadeia de produção e a repartição de benefícios também são passos nesse caminho, mas Santos acha que se pode ir além.  “Talvez uma grande ponte seja fazer a contabilidade do ativo e do passivo ambiental.” Significaria colocar o passivo no preço dos produtos e valorar os ativos ambientais das empresas.  Em um cenário em que a biodiversidade deixa de ser alvo de ações de responsabilidade descritas em relatórios e passa a ser um ativo nos negócios, países megadiversos como o Brasil podem sair na frente.

Caio Magri, do Ethos – instituto que encabeça o Movimento Empresarial pela Biodiversidade (MEB), ao lado de Natura, Walmart, Alcoa e Vale –, acredita que as empresas estão dispostas a incluir a conservação da biodiversidade em seus negócios em uma dimensão mais completa, mas querem apoio dos governos e da sociedade.  “Se não houver políticas macroeconômicas, elas não conseguirão fazer”, afirma.  Justamente por isso, uma das agendas do MEB diz respeito às políticas públicas.  O grupo quer propor um amplo debate com a sociedade sobre aspectos como marco legal, instrumentos econômicos para a conservação e integração com a Política Nacional de Mudanças Climáticas.

Da meta à métrica

A iniciativa que mais avançou até agora em direção a padrões métricos é a Certificação Life [2]. Ela difere dos relatórios de responsabilidade não só por conceder um certificado de qualidade, como os famosos ISO 14000, mas porque é voltada especificamente para biodiversidade.  A certificação foi criada pelo Instituto Life, nascido em 2009 com apoio da Fundação Avina, da Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e da indústria gráfica Posigraf.

Segundo Clóvis Borges, presidente do conselho deliberativo do Instituto Life, a certificação atrai tanto empresas que já têm atuação na conservação da biodiversidade como aquelas que a percebem como tendência de mercado.  Borges observa que a responsabilidade pela conservação da biodiversidade, em geral, é associada a quem prospecta recursos diretamente da natureza, uma pequena parte do total de empresas brasileiras.  Para dar escala às ações de conservação no mundo dos negócios, é preciso extrapolar esse perfil.  “Precisamos das empresas de parafuso, de serviços, dos bancos, das metalúrgicas, até da pizzaria da esquina.”

Mas criar um sistema de pesos e medidas para avaliar o respeito à biodiversidade, aplicáveis a qualquer ramo de negócios, não é nada simples.  A metodologia Life já passou por vários ciclos de avaliação e refinamento.  Agora, quatro empresas – Itaipu, O Boticário, MPX e Posigraf – estão aplicando os indicadores, como projeto piloto.  Para ser certificada, uma empresa precisa atingir uma certa pontuação, que é determinada de acordo com variáveis como o tamanho da empresa, o tipo de negócio e a significância do impacto que ela gera na natureza.  A partir disso, recebe um leque de alternativas para contrabalançar esses impactos de maneira eficaz.

Entretanto, como toda certificação, a Life tem um custo que pode encarecer o produto final das empresas, mas Borges acredita que há boas razões econômicas para as empresas se interessarem pela Life.  A primeira é se vacinar contra marcos regulatórios e barreiras não tarifárias que podem paralisar o negócio – uma possibilidade cada vez mais real no mercado europeu, por exemplo.  O acesso facilitado a capital é outra.  Há uma tendência das instituições financeiras de buscarem clientes mais limpos, e não será espanto se advirem taxas de juros mais baixas para quem está em dia com essas questões.

Além disso, ser reconhecida por consumidores e fornecedores em razão de boas práticas ajuda a sobreviver a tempos de crise.  E, para aquelas que extraem matéria-prima diretamente da natureza, conservar a biodiversidade de maneira eficaz significa perpetuar-se no negócio.  “Nós temos de trabalhar com argumentos econômicos, e não de responsabilidade social.  Não podemos operar apenas com os empresários que gostam da natureza.  Eles são minoria”, conclui Borges.

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Onde está a biodiversidade nos relatórios

Global reporting initiative (GRI)
Criação:
1997
Objetivo geral: Oferecer uma estrutura confiável para a elaboração de relatórios de sustentabilidade que possa ser usada por organizações de todos os tamanhos, setores e localidades.
Total de indicadores: Setenta, de desempenho econômico, ambiental, social, práticas trabalhistas e trabalho decente, direitos humanos, sociedade, responsabilidade pelo produto.
Onde aparece a biodiversidade: Em seis, entre os 30 de desempenho ambiental.  Além de no subgrupo biodiversidade, o tema aparece em: emissões, resíduos e efluentes.
Tipos de ações consideradas: Áreas protegidas; restauração de habitats; gestão de impactos na biodiversidade, inclusive em corpos d’água.  Pede que se descrevam os impactos das operações sobre a biodiversidade e as ações relacionadas.
Público abrangido: Empresas de qualquer porte e qualquer setor.  É referência mundial.  Os Indicadores Ethos se baseiam nesse modelo.
Como funciona: É uma ferramenta de autoavaliação.  A empresa responde ao questionário e pode submetê-lo ao GRI para apreciação.

Indicadores Ethos
Criação:
2000
Objetivo geral: Ferramenta de autoavaliação das práticas de responsabilidade social.
Total de indicadores: Trinta e nove, organizados em sete temas: valores, transparência e governança; público interno; meio ambiente; fornecedores; consumidores e clientes; comunidade; governo e sociedade.
Onde aparece a biodiversidade: No tema meio ambiente, dentro dos indicadores: compromisso com a melhoria da qualidade ambiental e sustentabilidade da economia florestal.
Tipos de ações consideradas: Áreas protegidas, proteção a animais ameaçados, não utilização de materiais e insumos provenientes de exploração ilegal, certificação florestal.
Público abrangido: Empresas de qualquer porte e qualquer setor.
Como funciona: A empresa responde ao questionário, envia e pode receber orientações sobre práticas.

Índice de Desenvolvimento Sustentável (IDS )
Criação:
2002, atualizado em 2010.
Objetivo geral: Disponibilizar um sistema de informações para o acompanhamento da sustentabilidade do padrão de desenvolvimento do País.
Total de indicadores: Cinquenta e cinco, organizados em quatro temas: ambiental, social, econômico e institucional.
Onde aparece a biodiversidade: Em três dos vinte indicadores ambientais.
Tipos de ações consideradas: Espécies ameaçadas, áreas protegidas, espécies invasoras.
Público abrangido: Sociedade em geral.
Como funciona: É um relatório de referência.

Índice de Sustentabilidade Empresarial
Criação: 2005
Objetivo geral: Medir e refletir o retorno de uma carteira teórica composta por ações de empresas com reconhecido comprometimento com a sustentabilidade empresarial.
Total de indicadores: Setenta e um, distribuídos em sete dimensões: geral, natureza do produto, governança corporativa, econômico-financeira, ambiental, social e mudança climática.
Onde aparece a biodiversidade: Na dimensão ambiental há um indicador que trata especificamente deste tema (Compromisso global: mudanças climáticas e biodiversidade).
Tipos de ações consideradas: Apoio à conservação e ao uso racional dos recursos da biodiversidade, conforme preconiza a Convenção das Nações Unidas sobre Biodiversidade; recuperação de áreas degradadas em APP(s) e Reserva Legal; projetos de conservação em propriedades próprias ou de terceiros; doação para projetos de organizações conservacionistas e fundos que tenham como objetivo a conservação; apoio a ações governamentais que visem proteger unidades de conservação; apoio a projetos de pagamento por serviços ambientais.
Público abrangido: Empresas emissoras das 200 ações mais negociadas da BM&Fbovespa.
Como funciona: As empresas são avaliadas pelas respostas dadas ao questionário.  São selecionadas as que se destacam no grupo, seja pelo desempenho quantitativo, seja pelo qualitativo (avaliação de documentos comprobatórios).

Certificação LIFE
Criação: 2009
Objetivo geral: Medir, qualificar e reconhecer práticas empresariais em favor da conservação da biodiversidade.
Total de indicadores: Quinze, distribuídos entre os critérios: cumprimento à legislação, gestão ambiental e empresarial, e ações para conservação da biodiversidade.
Onde aparece a biodiversidade: Em três, relacionados à mensuração do impacto ambiental da empresa, sua significância e controle.
Tipos de ações consideradas: As ações são desenhadas de acordo com o impacto ambiental da empresa, a fim de evitar, reduzir ou mitigar esses impactos.
Público abrangido: Empresas de qualquer porte e qualquer setor, públicas ou privadas.
Como funciona: Auditoria avalia aspectos e gestão de impactos ambientais e comprometimento com melhorias contínuas e, em seguida, apresenta o que deve ser realizado para a obtenção da certificação.

Comentários

Comentários

  1. [...] This post was mentioned on Twitter by Marcos Custodio, VERDE E PROGRESSO and Alessandra, Revista Página 22. Revista Página 22 said: Empresas: o que ainda precisa evoluir para melhor reportar ações em defesa da biodiversidade http://bit.ly/dcEJdI [...]

  2. Luciana Silva Moraes disse:

    Os relatórios são ferramentas indispensáveis para que a sociedade avaliar as empresas em que depositam sua confiança. Resta a dúvida qual a melhor forma.. A Life é Certificadora o que a difere dos outros tipos de relatório de sustentabilidade. O ideal é que os paramentros para a mensuração da manutenção da BIODIVERSIDADE não se isole das questões socioeconomicas do ecossistema da empresa.

  3. Luciana Silva Moraes disse:

    O link da reportagem não está dando acesso a versão em portugues do estudo The Economics of Ecosystems and Biodiversity (Teeb). Como posso ter acesso?

  4. Redação disse:

    Olá Luciana,

    O Teeb na verdade tem uma série de versões, voltadas para públicos especificos. No site indicado pela nossa reportagem, você encontra em português apenas os relatórios para a comunidades de negócios e para agentes de políticas públicas locais e regionais, além do relatório de “interim”, o primeiro da série. Veja aqui: http://www.teebweb.org/InformationMaterial/TEEBReports/tabid/1278/Default.aspx

  5. [...] Veja a reportagem completa da Revista Página 22 aqui. [...]

Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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