Por Amália Safatle
Quando a grafia da luz se combina com a arte, a fotografia alcança um status que ultrapassa o real e liberta nossa visão. Descortina montanhas onde tem um borrão no muro. Penhasco de pedra na sarjeta da rua. Árvore na ranhura do asfalto. Miriam Homem de Mello não age sozinha: usa a matéria-prima que mora na imaginação humana para compor o seu trabalho, em uma interatividade silenciosamente visual.
Neste ensaio, Miriam liquidifica a realidade. Ao lançar mão de sua objetiva subjetiva, mistura o urbano e o selvagem e usa a abstração para construir novos formatos. Já não temos somente o leite derramado juntando-se com a água da guia, e sim uma paisagem abissal cercada de espuma e fumaça. E nem prédios ou guindastes refletidos em um espelho d’água, mas personagens, quem sabe, quixotescos.
O devaneio, a fantasia revelam camadas de cidade menos óbvias, embora estejam bem de frente do nariz, para quem quiser ver além dos olhos.
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