Não basta reduzir impactos socioambientais negativos. O desafio contemporâneo é restaurar sistemas sociais e ambientais em um mundo que segue estruturado para enxergar desenvolvimento apenas na cifra do PIB. Há uma palavra que deixou de ser tendência e virou princípio: regeneração
Por Jéssica Silva*
No país do Carnaval, há sempre quem sinta que o ano só começa depois da folia. Ainda que eu seja uma grande entusiasta do nosso calendário festivo, o meu ano de 2026 começou desde a COP 30, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, realizada em Belém no fim do ano passado. Venho ampliando a escuta e observando o entorno para identificar quais os rumos que esse ano traz.
Se para você, liderança, a resposta enigmática de previsão futura passa por garantir a perenidade do negócio, existe uma palavra que deixou de ser tendência e virou princípio: regeneração.
Desde a pandemia da Covid-19, relatórios de sustentabilidade bonitos não garantem mais a percepção de confiança e coerência junto aos seus stakeholders. Tampouco práticas que se limitam apenas a reduzir impactos socioambientais negativos. O desafio contemporâneo é restaurar sistemas sociais e ambientais em um mundo que segue estruturado para enxergar desenvolvimento apenas na cifra do PIB.
A transição energética avança no discurso, mas os combustíveis fósseis continuam no centro das estratégias de poder. Conflitos geopolíticos drenam atenção política e recursos que poderiam estar direcionados à ação climática coordenada. Ao mesmo tempo, ciclos eleitorais intensificam disputas narrativas nas redes, dificultando consensos para agendas estruturais de longo prazo. (Só em 2026, aproximadamente 40 países devem ter eleições nacionais!)
A tecnologia adiciona outra camada a esse cenário. A Inteligência Artificial já molda comportamento, economia e comunicação, enquanto amplia o debate sobre infraestrutura digital e a própria sustentabilidade do uso massivo de energia e água por data centers. E tudo isso acontece com os efeitos da mudança climática cada vez mais presentes no cotidiano, pressionando sistemas de saúde, cidades, cadeias produtivas e territórios.
É diante da realidade que precisamos, como liderança, afinar as nossas estratégias de negócio, de gestão de pessoas, de posicionamento de marca, de vínculo com stakeholders chaves.
Empresas que integram uma gestão regenerativa, ou aquelas que ousam a adotar a regeneração como fundamento dos seus produtos e serviços, fortalecem o ecossistema em que estão inseridas, ao mesmo tempo em que geram valor econômico.
Uma liderança contemporânea aos desafios de nossa era deve abrir para perguntas pragmáticas sobre o que sustenta o negócio hoje.
- As reuniões que ocupam o meu tempo trazem soluções para o quê?
- As práticas de gestão de pessoas na minha empresa regeneram as relações, promovendo conhecimento e pensamento crítico coletivo?
- Para produzir o meu produto, minha operação extrai ou regenera a biodiversidade?
- A geração de impacto socioambiental é alocada em qual linha na minha demonstração financeira: receita ou despesa?
Regenerar é uma diretriz estratégica que pavimenta resiliência e vantagem competitiva. Em um mundo que insiste em manter o status quo, liderar em 2026 será, cada vez mais, uma escolha: cuidar do que sustenta a vida, dentro e fora das organizações.
*Jéssica Silva é co-CEO do Sistema B Brasil

