Publicação do Instituto Ar e do Movimento Médicos pelo Clima oferece roteiro prático para que empresas tratem o calor como risco ocupacional; 70% da força de trabalho mundial já está exposta a altas temperaturas, com 6,2 bilhões de horas produtivas perdidas por ano, segundo a OIT
O Instituto Ar e o Movimento Médicos pelo Clima acabam de lançar, em parceria com a Associação Paulista de Medicina do Trabalho (APMT) e apoio do Instituto Itaúsa, um guia prático para capacitar empresas de médio e grande porte a enfrentar e mitigar os desafios impostos pelo aumento da temperatura na saúde e segurança dos trabalhadores. Desenvolvido por médicos do trabalho e especialistas em saúde, o guia adota uma linguagem acessível, reunindo evidências científicas, referências normativas e orientações de aplicação imediata para setores estratégicos como agroindústria, construção civil, transporte e logística.
A iniciativa nasce de uma lacuna: embora existam normas de saúde e segurança, ainda é raro que empresas conectem de forma consistente mudança do clima, aumento de temperatura e saúde ocupacional em suas rotinas.
“No Brasil estamos atrasados: as empresas ainda não incorporaram que o aumento regular da temperatura já exige medidas de proteção, não só ondas de calor, que são os eventos extremos com cinco dias consecutivos muito acima da média”, alerta a médica Evangelina Araújo, fundadora do Instituto Ar.
“O lançamento do guia é uma oportunidade que áreas como RH e Medicina do Trabalho têm de proteger seus colaboradores, reduzir absenteísmo e evitar passivos trabalhistas”, complementa.
Calor já provoca perda de produtividade
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que 70% da força de trabalho global (cerca de 2,4 bilhões de pessoas) está exposta ao calor intenso. “Existem muitas organizações que só fazem a métrica do afastamento do trabalho, mas às vezes os impactos do calor não chegam a fazer com que a pessoa precise de um atestado”, lembra o médico do trabalho João Silvestre da Silva-Junior, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e um dos autores do guia.
A exposição ao calor leva o trabalhador a interromper tarefas com maior frequência, demandar mais pausas para hidratação e recuperação fisiológica, reduzindo a produtividade sem necessariamente gerar afastamento.

Silva-Junior explica que, pela legislação brasileira, toda empresa, independentemente do porte e do número de funcionários, é obrigada a manter um Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), previsto na Norma Regulamentadora nº 7 (NR-7) do Ministério do Trabalho. “Toda empresa precisa ter esse programa, que é desenhado por um médico do trabalho. Esse profissional pode atuar internamente, em empresas maiores, ou atender múltiplas organizações por meio de clínicas especializadas. Mas a obrigação permanece”.
Segundo o médico, o enfrentamento do calor não pode ser isolado da gestão de riscos. É necessário integrar segurança do trabalho, higiene ocupacional, medicina do trabalho e produção para definir medidas de mitigação: reorganização de jornadas para evitar horários mais quentes, rodízio de trabalhadores expostos, ampliação da hidratação, pausas programadas e monitoramento contínuo da saúde.
País mais quente, ambiente de trabalho sob pressão
Em 2025, de acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) a temperatura média anual do país foi de 24,56°C, 0,33°C acima da média histórica, sendo o sétimo ano mais quente desde 1961. O recorde segue com 2024, quando a média chegou a 25,02°C. Esses números acompanham a tendência global: 2025 foi o terceiro ano mais quente do planeta e o sexto mais quente da América do Sul. Em São Paulo, a capital registrou em 25 de dezembro de 2025 a maior temperatura para um dia de dezembro em 64 anos. Já Curitiba, capital mais fria do país, teve no verão 2023–2024 o início de estação mais quente dos últimos anos, incluindo pico de 35,4 °C, um dos maiores valores desde 1961.
“É importante enfatizar que o aquecimento global é uma realidade, não algo futuro”, afirma a pneumologista e embaixadora do Movimento Médicos pelo Clima Danielle Bedin, uma das autoras do guia. “Quem vai sofrer mais são os trabalhadores em áreas externas ou em ambientes internos muito quentes e pouco ventilados, além daqueles que têm comorbidades e estão entre os grupos mais vulneráveis, como idosos e gestantes”.
Segundo a pneumologista, os primeiros sinais de sobrecarga térmica costumam ser discretos: mal-estar, sensação de moleza, boca seca e coração acelerado, associados à desidratação. “Se a exposição ao calor continua, esses sintomas podem evoluir para tontura, sensação de desmaio, dor no peito, arritmias e até infarto”, explica. “Quando o corpo tenta dissipar calor dilatando vasos próximos à pele e aumentando o suor, pessoas mais idosas ou com artérias doentes têm dificuldade de fazer essa adaptação. Fica mais difícil garantir circulação adequada para cérebro, coração e rins”.
A umidade elevada agrava o quadro, já que reduz a eficiência do suor como mecanismo de resfriamento. “Quando o ar está muito úmido, fica mais difícil perder calor pelo suor, então a resposta fisiológica é ainda mais lenta”, diz a médica.
Roteiro com orientações para gestores, médicos do trabalho e RH
As orientações do guia são divididas em um bloco de medidas gerais e outro com recomendações específicas para quatro grupos: trabalhadores de áreas a céu aberto, como agricultura, construção civil, coleta de resíduos, transporte, manutenção viária e serviços urbanos; trabalhadores em áreas internas quentes, como operadores de fornos industriais, metalúrgicos; trabalhadores em ambientes fechados, como atendentes de call center e comércios; e pessoas com doenças pré-existentes, como cardiopatas, diabéticos, gestantes e idosos. “Na agricultura, cortadores de cana usam força física sob sol forte com vestimentas inadequadas”, exemplifica Evangelina Araújo.
O documento recomenda integrar o tema do calor intenso ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e ao PCMSO, utilizando indicadores como o IBUTG, índice que combina temperatura, umidade e radiação para medir o estresse térmico, e referências da NHO‑06, norma técnica brasileira que estabelece como fazer essa medição, para definir pausas, rodízios, limites de exposição e adaptações nas jornadas.
Entre as diretrizes gerais, estão garantir acesso permanente à água potável, programar pausas em locais frescos, reorganizar tarefas para reduzir exposição nos horários mais quentes e investir em sombreamento, ventilação e climatização adequada nos ambientes com maior carga térmica.
Para o grupo de trabalhadores com doenças cardiovasculares, respiratórias, renais, metabólicas, neurológicas, transtornos mentais, gestantes e idosos, uma das recomendações é fazer avaliações médicas específicas em períodos de calor intenso, readequação temporária de função e, quando necessário, afastamento de ambientes quentes.
O guia Mudança do clima: calor e saúde do trabalhador está disponível para download no site do Instituto Ar.

