O Brasil foi eficiente ao incluir a pauta da bioeconomia durante sua presidência no G20. Sediar a COP 30 dará uma nova oportunidade para o País reforçar essa estratégia. Mas isso requer um esforço coordenado entre governos e sociedade, a fim de apresentar soluções estruturais para os desafios da região e do mundo
Por André Vianna*
A Amazônia está no centro do debate global sobre sustentabilidade, e a COP 30, que será sediada em Belém em novembro, representa uma das oportunidades para o Brasil demonstrar liderança e avanços concretos. No entanto, corremos o risco de perder essa chance caso não consigamos apresentar soluções estruturais para os desafios da região e do planeta.
O contexto geopolítico global está em transformação, com disputas comerciais, descarbonização da economia e maior escrutínio sobre cadeias produtivas. Se o Brasil não se posicionar adequadamente, poderá ficar à margem das novas dinâmicas econômicas e perder investimentos essenciais para a transição da Amazônia para uma economia de menor impacto ambiental e inclusiva.
Historicamente, o desmatamento na região esteve atrelado à expansão de pastagens de baixa produtividade e à pressão do mercado de commodities. Em momentos anteriores, ações coordenadas entre governo, setor privado e sociedade civil conseguiram frear a tendência de crescimento do desmatamento e, até mesmo, reduzi-lo. Entretanto, a dinâmica atual é mais complexa, com a inserção de novos atores e desafios.
O crime organizado tem sido um desses atores do desmatamento e vem expandindo sua influência sobre garimpos ilegais, ocupações clandestinas e extração ilegal de madeira. Essa atividade criminosa não apenas acelera a degradação ambiental, mas também agrava as condições sociais das populações tradicionais, aumentando a violência e a vulnerabilidade de comunidades ribeirinhas e indígenas.
Ainda, a maior frequência de eventos climáticos extremos tem sido vivenciada pelas pessoas que residem na Amazônia ao sentirem impactos ambientais, sociais e econômicos. Dois anos seguidos do fenômeno El Niño resultaram em recordes negativos nos níveis das calhas dos rios e impactaram a qualidade de vida das populações ribeirinhas, elevando, ainda, o tempo de transportes e custos de produtos para a população em geral.
Em 2024, o evento climático estava acompanhado de um padrão de desmatamento e queimadas diferente dos anos anteriores, o que demanda atenção pois, apesar da redução significativa no desmatamento, foi registrado aumento no número de focos de incêndios.
As ações de comando e controle se mostraram eficientes no curto prazo. Contudo, sem uma mudança na matriz econômica de forma que esta seja pautada por atividades sustentáveis, tais esforços ficam sujeitos a oscilações econômicas e políticas.
Ao olharmos as janelas de oportunidades, o Brasil foi eficiente ao incluir a pauta da bioeconomia durante sua presidência no G20. Em muitos países ainda não há uma visão de conservação ambiental, e principalmente da Amazônia, em função de atividades produtivas, que é a principal estratégia de longo prazo. Sediar a COP 30 nos dará uma nova oportunidade para reforçarmos essa estratégia.
É fundamental, portanto, considerar e aproveitar as oportunidades que surgem a partir da bioeconomia – mesmo na ausência de atores-chave como os EUA. No entanto, para capitalizá-las plenamente, é preciso haver uma preparação estratégica e um esforço coordenado entre governos e sociedade. O trabalho já iniciado exige agora uma abordagem renovada, que seja capaz de se adaptar aos novos desafios e potencializar seus efeitos.
*André Vianna, diretor técnico do Idesam, é engenheiro florestal pela Esalq/USP e mestre em Ciências de Florestas Tropicais pelo Inpa.