Criatividade no financiamento da sustentabilidade empresarial

(Foto: Alex Abian/Flickr)
(Foto: Alex Abian/Flickr)

Quando se fala em sustentabilidade corporativa, a defesa da implementação de ações focadas neste princípio frequentemente passa pela argumentação sobre a diminuição de custos e a potencial criação de inovações, seja na gestão ou no desenvolvimento e oferta de novos produtos e serviços. Estas ações, no entanto, requerem orçamento e competem com outras demandas empresariais. Como, então, equacionar o investimento necessário, a perspectiva de ganhos e ainda vislumbrar a criação de oportunidades para o negócio?

O que sabemos é que muitos negócios têm de fato mergulhado neste universo de desafios e buscado muitas e diferentes maneiras de viabilizar o cumprimento de metas cada vez mais ambiciosas e escopos mais abrangentes, não só no que se refere à redução dos seus impactos, mas igualmente na operacionalização destas ações. Por exemplo: é ótimo aliar eficiência energética e redução de custos, mas isso requer investimentos contínuos. De onde obter os recursos necessários, então?

Uma solução incomum é a engenhosa ideia da multinacional Adidas para viabilizar projetos focados em sustentabilidade. Uma vez desafiado, um grupo de funcionários concebeu o estabelecimento de um fundo de venture capital. Lançado em 2012, o Fundo de Energia Verde possui três objetivos: acelerar a redução da emissão de carbono nas operações globais; monitorar a performance dos projetos de redução e obter bom retorno do capital. Além disso, o fundo poderá ajudar a empresa a atingir suas metas para 2015 em redução de energia e carbono (saiba mais sobre o greenENERGYFund aqui).

O portfólio é montado para criar valor ao investimento. Os projetos são prospectados e avaliados dentre aqueles com melhor retorno financeiro e maior redução de emissões de gases de efeito estufa. Segundo a Adidas, o investimento verde é visto como uma oportunidade de negócios e que visa ganhos. A meta do fundo é obter 20% de taxa interna de retorno no portfólio, sendo que há flexibilidade na análise caso a caso.

O números apresentados pelo fundo para as fases 1 e 2 são:

Fase Piloto 1 – de julho a dezembro 2013
– Capital: US$ 690 mil
– Resultado previsto: 37% IRR (retorno sobre investimento)
*abrange instalações próprias na América do Norte.

Fase Piloto 2 – janeiro – dezembro 2013
– Capital: US$ 2 milhões
– Resultado previsto: 30-40% IRR (retorno sobre investimento projetado)
*abrange instalações próprias e em lease globalmente.

Além da viabilização de projetos e retorno financeiro, o feedback é relevante na geração de conhecimento. O aprendizado, os resultados e as melhores práticas são compartilhados em um portal. O encurtamento de caminhos, as trocas com colegas globalmente ou até mesmo o desenvolvimento coletivo de soluções certamente ampliam as fronteiras que antes eram limites. Mas estes ganhos talvez ainda não estejam sendo computados. Outro aspecto significativo do fundo é que a concepção e a implementação do plano de monitoramento e verificação dos resultados, o que sempre demanda expertise e recursos, também estão incorporados no projeto.

Outra iniciativa interessante vem da Universidade de Dartmouth, dos EUA. Para concretizar projetos de eficiência energética e redução de emissão de gases de efeito estufa, a instituição criou o seu Fundo Verde Rotativo. Aliás, esta tem sido uma prática bastante difundida nas instituições de ensino superior do país para financiar projetos de sustentabilidade. Os fundos rotativos podem ser criados com o próprio capital ou ainda com fontes externas, únicas ou complementares. No caso citado, os ganhos resultantes da implementação dos projetos aprovados são reinvestidos no fundo, criando um ciclo de refinanciamento de novos projetos e gerando resultados financeiros e ambientais positivos.

O repagamento pode ainda ser feito de forma a atender a critérios específicos do gestor, como por exemplo, liquidez ou a inclusão ou não de juros. No Brasil, o Funbio (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) é o operador de uma notória experiência em fundo rotativo ambiental, o Fundo de Áreas Protegidas. O FAP tem como objetivo garantir um fluxo contínuo de recursos para as unidades de conservação localizadas na região Amazônica.

A ferramenta que nasceu na universidade começa agora a chamar a atenção de empresas nos EUA, pois reposiciona o que é visto como custo em investimento. É certo que há grande demanda por novas perspectivas que ampliem as respostas aos vários desafios de uma gestão que trafega rumo à sustentabilidade. A inspiração em outros setores, uma das lições dos inovadores, parece ser, no mínimo, um bom começo.

A alegação de que a adoção de sustentabilidade na estratégia empresarial leva a oportunidades e inovações é tida comumente como genérica e tímida em exemplos, sendo vista como algo hermético mesmo por aqueles que querem ser convencidos dessa possibilidade. Por outro lado, há empresas que não estão esperando ser convencidas. De repente e aos poucos, boas novidades surgem e mostram não apenas que dificuldades podem ser ótimas aliadas da criatividade, mas que também tem muita gente silenciosamente se recriando.

Como dizem por aí, o melhor é criar as melhores práticas e não ser o primeiro a adotá-las.

*Luciana Simões, Engenheira Florestal (Esalq/USP), Mestre em Gestão de Florestas Tropicais (Universidade de Wageningejn/Holanda) atua como consultora com foco em biodiversidade e sustentabilidade em negócios. É autora de diversas publicações leigas e científicas e atuou por mais de 15 anos na gestão de projetos socioambientais em instituições como Fundação SOS Mata Atlântica e WWF-Brasil.

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