Feminismo, a bandeira que esquecemos de carregar

Foto de moça indiana feita por Meena Kadri/Flickr
Foto de moça indiana feita por Meena Kadri/Flickr

O que mais me espantou quando o Ipea divulgou que a maioria dos brasileiros pensam que uma mulher usando roupas provocantes pede para ser estuprada foi o próprio espanto. Não entendo a surpresa. A batalha pelos direitos da mulheres não é das mais aguerridas, nem no Brasil nem no exterior, especialmente se comparada com a luta pela igualdade de minorias étnicas e sexuais. Mas isso não significa, nem remotamente, que as mulheres chegaram lá.

É muito fácil esquecer que a discriminação e a violência continuam firmes e fortes. Afinal, Brasil, Argentina, Chile, Jamaica, Coréia do Sul, Bangladesh, Senegal, Alemanha, Dinamarca, Noruega, Eslovênia e Lituânia são governados por mulheres. Mas, claro, a exceção só confirma a regra.

O último grande relatório sobre a situação da mulher publicado pela ONU, Mulheres do Mundo 2010, indicou progressos importantes no acesso das mulheres à escola, à saúde e à vida econômica, mas a violência e a falta de representaçào política ainda são particularmente problemáticas. Elas estão casando cada vez mais tarde e tendo menos filhos (2,5 em média), mas em algumas partes do mundo ainda são obrigadas a casar muito cedo e ter tantos filhos quanto seu útero permitir.

Caso você não esteja prestando atenção, saiba que a realidade feminina ainda passa por aqui:

  • Falta de acesso à política – Em 1995, as mulheres representavam 10% dos parlamentares do planeta. Nos quatro anos seguintes, essa taxa subiu a 17%, sobretudo devido ao estabelecimento de cotas. O website do diário britânico The Guardian publicou um excelente infográfico mostrando qual o nível acesso das mulheres à vida política em todo o globo, incluindo o direito a votar e ser votada.
  • Disparidade salarial e no acesso à renda – A presença feminina em posições de maior status e remuneração ainda está muito aquém do esperado. As disparidades salariais continuam gritantes na maioria dos países. As mulheres representam 16,7% do alto escalão das 1oo principais empresas britânicas. Além disso, mulheres ainda têm acesso restrito à posse de terras e propriedades na maioria dos países africanos e em cerca de metade dos países asiáticos.

  • Sem direito ao planejamento familiar – Cerca de 222 milhões de mulheres em países em desenvolvimento não têm acesso a métodos anticoncepcionais, informação e serviço de qualidade – muitas vezes por razões sociais (políticas, religiosas) ou econômicas.
  • Mutilação sexual – Um relatório divulgado no ano passado pelo Unicef, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, indica que 125 milhões de mulheres que vivem em 29 países da África e do Oriente Médio sofreram mutilação sexual e outras 30 milhões deverão ter suas genitálias externas cortadas ao longo da próxima década. A prática tem declinado em algumas regiões, graças à crescente oposição popular, mas continua universalizada em quatro países: Somália, Guiné, Djibuti e, sobretudo, o Egito. Segundo a ONU, desde 2008, quase 10 mil comunidades em 15 países – uma população de 8 milhões de pessoas – abandonaram a prática. É uma tendência lenta, mas confirmada. No Egito, por exemplo, recordista na prática, 96% das mulheres na faixa dos 40 foram mutiladas, contra 81% na faixa entre 15 e 19 anos.
  • Educação – As mulheres representam dois terços do universo de 774 milhões de adultos analfabetos. Olhando por outro ângulo, um quarto das mulheres jovens não completaram a educação primária.
  • Violência – Veja, ao lado, um vídeo incrível que explora como a violência doméstica persiste mesmo em sociedades sofisticadas e de alta tecnologia.

“Houve um tempo em que os militantes pediam a homens para defender os direitos das mulheres. Agora, nós o faremos nós mesmas”, discursou Malala Yousafzai, a paquistanesa de 16 anos baleada na cabeça pelo Talibã por promover o acesso de meninas à educação, em julho do ano passado, na ONU, em Nova York. É, Malala, esta é uma bandeira que não podemos baixar de jeito nenhum.

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