Revolução silenciosa

Diante dos limites planetários e das atuais demandas sociais, a inovação é vista como chave para virar o jogo da sustentabilidade

Depois que descobriu a fórmula para produzir etanol com alto rendimento a partir do bagaço e palha da cana, utilizando um consórcio de microrganismos, o jovem cientista Douglas Spalato, 25 anos, bem que poderia vendê-la para uma multinacional. Mas fez diferente. Junto com o irmão e uma colega, instalou o próprio laboratório, em Sorocaba (SP), para ir longe na inovação.

O invento despertou a atenção de um importante investidor internacional – a World-Transforming Technologies (WTT) [1] –, que injetou US$ 1 milhão na compra de máquinas ultramodernas e montagem da equipe. Hoje a Braerg, pequena empresa criada por eles para estabelecer parcerias e dar escala às ideias, reúne 12 especialistas dedicados à busca intensiva de soluções capazes de mudar o padrão socioambiental do País.

[1] Parceria da Fundação Avina com os investidores GP Leal e Good Energies Foundation, tem como objetivo vincular inovação e negócios à superação da pobreza e conservação do meio ambiente

Após dois anos, o inventor paulista prepara-se para uma nova cartada, em conjunto com a Green Social Bioethanol, de Porto Alegre: fabricar fogões a etanol para substituição dos que utilizam lenha e carvão, principalmente no interior nordestino, onde a queima da biomassa causa desmatamento e problemas de saúde. No mundo, segundo as Nações Unidas, 4 milhões de pessoas morrem por ano devido a doenças respiratórias provocadas pela fuligem ao cozinhar. “Há bom espaço no mercado para quem busca, além do lucro, melhorar o mundo”, analisa Rodrigo Brito, gestor de parcerias da WTT.

A iniciativa desses investidores é prospectar inovações com potencial de larga escala para o enfrentamento de desafios ambientais e sociais, desenhar modelos de negócios e articular parcerias para aumento do raio de abrangência. Com ênfase em energia, água e biodiversidade, o portfólio inicial inclui cinco projetos no mundo, no total de US$ 3 milhões. “É preciso maior conexão da ciência e tecnologia com as reais necessidades do planeta”, completa Brito.

Mudanças de paradigma marcam o desenvolvimento da ciência, conforme descreveu o físico e filósofo americano Thomas Kuhn (1922-1996), em seu clássico livro A Estrutura das Revoluções Científicas. Rupturas ocorrem quando o saber teórico se materializa em soluções práticas com efeitos na qualidade de vida e no uso dos recursos pela humanidade. Por isso, a inovação hoje é considerada a chave que vai virar o jogo em favor da sustentabilidade. “A transição para uma nova economia exige passos transformadores e negócios alinhados a tal desafio terão mais chances de prosperar”, afirma Paulo Branco, vice-coordenador do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-Eaesp (GVces).

Investimento de impacto é o capital injetado em empresas, organizações ou fundos para gerar impactos socioambientais positivos. A maioria dos investidores está na América do Norte e na Europa, mas 70% dos recursos são alocados em países em desenvolvimento. No Brasil, estima-se que os investimentos pularam de R$ 70 milhões para R$ 400 milhões, em três anos

Inovações disruptivas

Desde o início de suas atividades, em 2003, o GVces tem desenvolvido diferentes programas que reforçam o vínculo entre inovação e sustentabilidade. Somada à urgência do tema, a experiência nos últimos anos motivou uma nova e pioneira empreitada: o lançamento, em março, do Guia de Inovação para Sustentabilidade em MPE – uma referência que destacará micros e pequenos negócios comprovadamente inovadores nas variadas áreas da sustentabilidade, aproximando-os de investidores, clientes, facilitadores e demais segmentos do chamado “ecossistema da inovação” (mais sobre o Guia abaixo).

Além do potencial de escala, os negócios devem ser economicamente viáveis, de tal forma que bons lucros devido à demanda pela sociedade sejam proporcionais à redução de pressões ambientais. Segundo as Nações Unidas, está em jogo a necessidade de gerar energia e duplicar a produção de alimentos para uma população global prevista para atingir 9 bilhões de habitantes em 2050, com dois terços vivendo em aglomerados urbanos. E há o desafio de lidar com 2 bilhões de automóveis e caminhões que circularão no planeta até 2030.

Na luta contra o tempo diante de questões como a mudança climática, ganha força a inovação disruptiva, que gera transformação e vai além de apenas fazer melhor a mesma coisa de antes. A lógica é colaborativa – não segue a regra de trancar em caixas-pretas soluções importantes para toda a sociedade. Ao contrário: pequenas empresas cada vez mais são chamadas a desenvolver boas ideias nas cadeias produtivas de grandes corporações. E dali a inovação tem potencial de se replicar e ultrapassar fronteiras, em tempos de globalização.

“O desafio do novo envolve riscos, tentativa-erro, e ainda depende financeiramente do empurrão de doações”, afirma Paulo Bellotti, diretor da MOV Investimentos, criada em 2012 para injetar recursos em empresas com modelo de negócio voltado para a solução de problemas ambientais e sociais. Até o momento, foram realizados quatro investimentos, entre R$ 5 milhões e R$ 10 milhões cada, nos setores de florestas, reciclagem inclusiva, educação, saúde e energia renovável. Enquanto a empresa Ebes recebe investimento para atuar no mercado de energia solar [2] distribuída, a Terra Nova media conflitos e presta serviço para regularização fundiária. Para Bellotti, “quem trabalhava apenas com filantropia já percebe que investir em negócios pode gerar resultados mais eficientes”.

[2] Geração elétrica realizada pelo próprio consumidor, sem depender do fornecimento pela rede

“O mercado precisa entender o diferencial dos pequenos negócios inovadores, que são mais caros, mas podem gerar um valor bem maior que os convencionais”, recomenda Rebeca Rocha, coordenadora da Aspen Network of Development Entrepreneurs (Ande), no Brasil. A rede mundial engloba mais de 200 membros (aceleradores, fundos de investimento, fundações, órgãos governamentais) para promoção do empreendedorismo. Uma das temáticas é a sustentabilidade, “um novo olhar que interfere nos negócios, principalmente os que se estruturam para desenvolver uma sociedade mais harmônica e saudável”.

Entre as participantes, a Artemisia especializou-se em fomentar start-ups com potencial de mudar o Brasil, gerando maior impacto social positivo, o que muitas vezes exige inovação para romper padrões estabelecidos. O trabalho prevê conexões com investidores e parceiros, como a Coca-Cola. “Queremos transformar a capilaridade da companhia, valendo-se de 1 milhão de pontos de venda, para gerar maior ganho socioambiental”, revela Pedro Massa, diretor de negócios sociais e sustentabilidade da empresa.

Foram mapeadas demandas nas áreas de empreendedorismo em comunidades de baixa renda, rotas pedagógicas inovadoras e empregabilidade [3] para jovens, ponto de partida do projeto. Entre mais de mil inscritos, dois pequenos negócios sociais serão selecionados e “acelerados” para se integrar ao desafio – e dar ao processo a agilidade e velocidade que a cultura organizacional de uma grande empresa normalmente não tem.

Para especialistas, chegou a hora de driblar barreiras conjunturais do País para tornar a escala das soluções compatível com a urgência dos problemas ambientais. De acordo com dados do IBGE, a taxa de inovação [4] das empresas brasileiras é bastante baixa (35,7%, em 2011). “O cenário é consequência de problemas estruturais da economia e de políticas macro que desestimulam tanto os investimentos no setor como a competição da indústria brasileira lá fora”, analisa Tulio Chiarini, pesquisador do Instituto Nacional de Tecnologia e autor de recente tese de doutorado sobre o tema na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

[3] Corresponde à parcela de empresas que declaram ter introduzido pelo menos uma inovação em determinado período, comparando-se com o número total das que foram pesquisadas nos vários setores

[4] Empregabilidade é a capacidade de desenvolver habilidades e de se adequar ao novo a fim de ganhar espaço no mercado de trabalho

 Protagonismo possível

O tamanho da economia e dos expressivos estoques naturais poderia credenciar o País ao protagonismo em soluções verdes. No entanto, neste e nos demais campos da inovação, o Brasil está muito atrás, ocupando o 61º lugar no The Global Innovation Index 2014. O ranking mundial [5], elaborado pelo The Business School for the World (Insead), abrange dezenas de indicadores. Considerando-se apenas o quesito “inovação e sustentabilidade”, a posição brasileira desce um degrau, para 62º.

[5] Suíça, Reino Unido e Suécia ocupam, respectivamente, as primeiras posições. Os Estados Unidos ficaram na sexta. Mais informações aqui.

Não há tempo a perder. “O meio ambiente não pode esperar tanto: invenções neste campo precisam de rapidez para resolver os problemas”, adverte Patrícia Carvalho dos Reis, coordenadora do Grupo de Trabalho de Patentes Verdes [6], do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi). Lançado em 2012 na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), o programa piloto para estímulo a essa categoria de patentes reduziu de dez para dois anos o tempo de análise dos registros nas áreas de energia alternativa, conservação energética, gerenciamento de resíduos, agricultura e transportes. Patrícia explica: “O maior desafio para os inventores é montar negócios para colocar a solução no mercado, pois a patente caduca em três anos se isso não acontecer”.

[6] Em três anos, foram realizados 324 registros, dos quais foram efetivados 44 – a maior parte apresentada por inventores nacionais porque os estrangeiros só tiveram acesso ao programa em 2014

“Apoiar empresas de ponta que lucram com tecnologia gera mais impostos e retorno de recursos financeiros para a ciência”, lembra Sérgio Queiroz, coordenador de Pesquisa para Inovação na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). A instituição recebe 1% da arrecadação do ICMS para investimento em projetos que também contemplam pequenos negócios com valores de até R$ 1 milhão, em dois anos.

Um deles, criado por quatro pesquisadores da Unicamp, resultou na constituição da I.Systems, especialista em software de inteligência artificial para aumento da eficiência de máquinas e usinas, reduzindo perdas de materiais nas indústrias. Para decolar, a empresa recebeu capital do Fundo Pitanga, voltado para negócios transformadores de alto potencial de crescimento.

Por vezes, inovar é mexer na cultura do consumo, porque os recursos naturais já não se recuperam na proporção do seu uso. Em alguns casos, o pulo do gato é voltar às origens na natureza – ou então imitá-la.

A empresa TerpenOil, de Jundiaí (SP), inspirou-se no processo de assepsia do mundo vegetal para formular produtos naturais de limpeza. A base é o terpeno, subproduto da fabricação do suco de laranja. Após experiência inicial na retirada de graxa na fábrica de fogões e geladeiras da Whirlpool em Rio Claro (SP), a novidade ramificou-se em diversas aplicações, até domésticas, permitindo expressiva economia de água – e ótimas perspectivas de negócio.

“Copiar a natureza para resolver problemas é uma prática que chega agora à gestão empresarial”, conta Maria Moraes Robinson, coautora do livro Holonomics: Business Where People and Planet Matter (mais em Entrevista da edição 85). No contexto da globalização e das redes sociais, as conexões econômicas, sociais e culturais se multiplicaram. Tornaram-se tão complexas e fluidas quanto as dos ecossistemas naturais. “As organizações precisam de modelos novos para soluções novas e agilidade nas tomadas de decisão, inclusive perante o desafio da sustentabilidade”, diz a especialista.

Vem aí uma geração de negócios marcada por valores ligados à conservação de recursos vitais para o presente e o futuro.

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Mapa Teórico do Sistema de Inovação Brasileiro

Este mapa, desenvolvido pela Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei), representa os principais atores do sistema nacional de inovação e os fluxos de interação entre eles. A relação entre Instituições Científicas e Tecnológicas (ICTs) e as empresas (seta verde-clara) caracteriza-se pela transferência de conhecimento, tecnologia e profissionais entre as universidades ou instituições de pesquisa e os atores empresariais. As setas na cor verde-escura indicam apoio financeiro ou pagamento de impostos. As relações de cor azul representam o apoio à criação e manutenção de habitats de suporte – como núcleos de inovação tecnológica (NIT), parques tecnológicos e incubadoras – ou à infraestrutura de pesquisa e laboratórios para ICTs públicas. Os habitats de suporte, por sua vez, identificam tecnologias e empreendedores para investidores interessados (seta cinza). Para os investidores, esses habitats também oferecem apoio à gestão da inovação nas empresas (setas amarelas). Por fim, as vermelhas indicam a articulação nas entidades de classe, como a Anpei, e o compartilhamento dessa agenda com o governo. – por Fernanda Macedo

GVces e Página22 lançam o Guia de Inovação para Sustentabilidade em MPE

No ecossistema da inovação, o dinamismo, a agilidade e a flexibilidade criam ambiente fértil para a busca das mais inventivas soluções. Natural que os micros e pequenos players, que reúnem essas características, se destaquem quando a proposta é encontrar saídas para novos e velhos problemas da humanidade, às voltas com o desafio de alcançar o bem-estar e a justiça social em um mundo de recursos finitos e desequilíbrios crescentes.

Mais ainda do que nas companhias de grande porte, em que estruturas e práticas estão consolidadas, nas micros e pequenas empresas residem oportunidades de promover a inovação em seu nascedouro, de forma inerente ao negócio. Com isso, a expectativa é de maior espaço para inovações de caráter disruptivo, que possam levar a transformações efetivas e com potencial de gerar escala.

A nova economia combina muito bem com o universo dos pequenos, que, por sua vez, têm muito a contribuir com os médios e grandes por meio das cadeias de valor. É o fortalecimento dessa teia e seus vários integrantes (veja gráfico na página ao lado) que o Guia de Inovação para Sustentabilidade em MPE almeja. Iniciativa do GVces e da Revista Página22, o Guia vai além de uma publicação: buscará promover também a interação entre os protagonistas da inovação para sustentabilidade, por meio de um ambiente colaborativo e propositivo.

A metodologia de avaliação e seleção das empresas candidatas a ingressar no Guia está sendo desenvolvida pelo GVces, e o processo de escolha contará com o apoio de um Comitê Seletor formado por especialistas. As empresas selecionadas, bem como os critérios e conceitos utilizados no processo, serão apresentadas na edição especial de novembro de Página22, número 101. A partir daí, estarão abertos os espaços de relacionamento e atividades, tanto presenciais como virtuais. O ciclo da iniciativa será anual. Para esquentar os debates nesse tema, publicaremos reportagens mensais sobre inovação, sempre identificadas com o selo Guia de Inovação para Sustentabilidade em MPE. Esta é a primeira da série. – por Amália Safatle

Acompanhe o cronograma da iniciativa em nosso site ou escreva para guiadeinovacao@pagina22.com.br. A chamada para identificar micros e pequenas empresas inovadoras que apresentam soluções aos desafios da sustentabilidade está prevista para o mês de maio.

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