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De lá pra cá

27.02.2012

A sombria história da eugenia nos EUA

Comentários por Regina Scharf # em De lá pra cá

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"State Boys Rebellion", livro de Michael D'Angelo que documenta uma das muitas experiências eugênicas dos EUA

"State Boys Rebellion", livro de Michael D'Antonio que documenta uma das muitas experiências eugênicas dos EUA

Poucos sabem que a eugenia – o desejo de criar uma sociedade em que todos seriam belos, fortes e inteligentes – foi, por muito tempo, promovida ativamente pelo governo dos Estados Unidos. Ela era tremendamente popular na virada do século XX, antes mesmo da eclosão da Segunda Guerra e da Solução Final proposta por Hitler. Os presidentes Theodore Roosevelt e Calvin Coolidge – bem como, do outro lado do Atlântico, o naturalista Charles Darwin e  o inventor do telefone,  Alexander Graham Bell -  eram entusiastas da idéia de dar uma mãozinha para um suposto aprimoramento humano.

Vários estados americanos encamparam a eugenia e esterilizaram dezenas de milhares de indivíduos que viviam em asilos do governo e tinham inteligência considerada abaixo da média. Num episódio famoso, em 1927, a Suprema Corte dos EUA aprovou a esterilização de Carrie Buck, uma deficiente intelectual de 17 anos, filha de uma mulher nas mesmas condições e mãe de um bebê que recebera o mesmo diagnóstico. O veredito: “três gerações de idiotas são mais que suficientes”. Os Estados Unidos também limitaram a imigração de populações que consideravam geneticamente indesejáveis e desenvolveram programas para encorajar casais saudáveis a se reproduzirem.

Um documentário produzido há quatro anos pela rede de TV CBS, baseado no livro “State Boys Rebellion”, de Michael D’Antonio, ilustra o funcionamento dessa eugenia de estado. Ele conta como a Fernald State School, um dos primeiros orfanatos públicos especializados em crianças com deficiências intelectuais, converteu-se num depósito que chegou a ter 2.500 alunos, muitos deles perfeitamente dentro da norma.  Mas o Estado não sabia o que fazer com eles e, ademais, a escola precisava de mão-de-obra grátis para plantar alimentos e fazer os servicos de limpeza e manutenção. Transformada em depósito humano, ela era palco de toda sorte de abusos, inclusive o uso dos jovens como cobaias de experiências científicas. Nos anos 20, o reformatório era considerado um modelo de sucesso pelos eugenistas americanos, o melhor dentre 100 instituições no gênero em todo o país.

“Pensamos, por muito tempo, que nós pertencíamos àquele lugar, que não pertencíamos à espécie [humana]“, relatou à CBS Fred Boyce, que chegou à Fernald em 1949, aos oito anos, quando sua mãe adotiva morreu, e ali ficou por 11 anos. “Pensávamos que nunca deveríamos ter nascido”.

O pesquisador D’Antonio estima que pelo menos a metade dos internos funcionariam bem no mundo atual. Mesmo assim, tinham acesso a apenas a um mínimo de educação, revendo as mesmas lições durante cinco, seis anos seguidos. Além disso, em 1994 foi divulgado que pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology, o MIT, forneceram mingau irradiado para os garotos num estudo nutricional encomendado pela Aveia Quacker. Um grupo de ex-internos acabou conseguindo uma pequena indenização, paga pela empresa, o MIT e o governo. Nada que compensasse, mesmo remotamente, a experiência de passar pela Fernald.

Comentários

Comentários

  1. Aldo Presto disse:

    Infelizmente a memória dos Darwinistas de plantão é curta – eles preferem lembrar de barbaridades da, e.g., Igreja Católica no século XIV a lembrar as atrocidades que seus irmãos de fé praticaram ontem (e muitos continuam praticando). Vamos conferir o livro.

  2. PB disse:

    Gente, só uma coisa: qual é a fonte ou publicação na qual Darwin menciona ou enseja ser eugenista? Do que já li dele, e não foi pouca coisa, ele apenas diz: a seleção natural é o mecanismo através do qual os mais bem adaptados são capazes de deixar um maior número de descendentes e, consequentemente, perpetuar de forma eficiente a espécie. Mudadas as condições de adaptabilidade, deixa o organismo mais adaptado de ser beneficiado pela seleção natural, e isso é algo que o próprio Darwin deixou explícito – não há como estruturar uma engenharia social aprioristicamente, já que o domínio sobre estas condições estão fora de alcance e de manipulação. O que não impediu, é claro, o desvirtuamento de sua teoria. Entretanto, colocá-lo neste balaio é um equívoco.

    1. Regina Scharf disse:

      O seu comentário é pertinente, Aldo.
      Antes de mais nada, entendo que escritos ou declarações de Darwin tenham sido usado politicamente (“A Ciência fomentou o Nazismo”), daí compreendo a sua preocupação. De fato, dei uma nova busca e encontrei vários sites criacionistas que vendem a idéia de que Darwin era eugenista. Assim, é possível que eu tenha caído num engodo (embora o debate ainda esteja em campo).
      Um fato indiscutível é que Darwin estava num ambiente muito pró-eugenia, criado por seu primo Galton e fomentado pelo próprio filho de Darwin, que presidiu um congresso sobre o tema.
      As referências que encontrei a comentários do próprio Darwin vêm do livro “A Descendência do Homem”. Um professor de Ética da Ciência da Universidade de Kyoto diz algo interessante sobre este livro:

      ‘Notice that Darwin did not endorse eugenics, despite several sympathetic remarks, as you can see from the preceding quotations. At the same time, you can also see that eugenic ideas were “in the air” in Darwin’s time, because major European nations (including the United States) were competing with each other in various fields. Such competitions were often likened to the “struggle for existence”.

      Mas outras fontes dizem que o livro mostra, justamente, que Darwin reprovava a eugenia (ao contrário do professor acima, que fala em “sympathetic”).
      E, vejam que interessante esta página da Wikipedia com citações erradas dos livros de Darwin, que parece indicar que você está no caminho certo.
      Obrigada por seus comentários. Quero continuar a estudar o tema e ver se posso acrescentar mais ao debate.

  3. PB disse:

    O tema é interessante mesmo de ser pesquisado, e acredito que você deve ir mais a fundo. Sou partidário de que Darwin não ensejou nenhuma espécie de eugenismo. Infelizmente, não posso discordar que seus estudos e sua própria teoria foi utilizada para propósitos de engenharia social. Na verdade, uma conjunção de fatores concorreram para a defesa de uma “sociedade mais pura”, e os estudos do Darwin estão dentre eles – e não Darwin em si. Adicionou-se as perspectivas pessimistas de Malthus, sobretudo, e até hoje estamos colhendo os frutos disto. Parabéns pelo texto.

    1. Regina Scharf disse:

      Valeu, PB. Assunto realmente espinhoso, obrigada pelos insights.

Revista Página 22 - Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP - FGV
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