Estudo do Conselho Nórdico de Ministros alerta que o aquecimento global vem enfraquendo a AMOC e que o seu colapso promoveria um congelamento severo dos países nórdicos, do Reino Unido e da Irlanda, além de efeitos globais como secas no Sahel, no Norte da Amazônia e na Índia. Isso colocaria em xeque a estratégia de países como Estados Unidos de explorar as riquezas minerais no Ártico e de abrir novas rotas de navegação
A Circulação Meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês) transporta calor para o Atlântico Norte e contribui para o clima relativamente ameno dos países nórdicos. O relatório A Nordic Perspective on AMOC Tipping divulgado hoje pelo Conselho Nórdico de Ministros alerta que o aquecimento global vem desacelerando essa circulação e, embora seja improvável, existe a possibilidade de que ela possa até parar em níveis relativamente baixos de aquecimento global. Isso colocaria em xeque a estratégia de países como Estados Unidos de explorar as riquezas minerais no Ártico e de abrir novas rotas de navegação – o que seria possibilitado pelo crescente derretimento do gelo na região.
Uma mudança dessa magnitude poderia, ao contrário, levar o clima do norte da Europa a um resfriamento significativo, enquanto o restante do mundo continuaria aquecendo — com efeitos visíveis sobre a produção de alimentos, os sistemas de energia e os meios de subsistência, entre outros impactos. Além disso, este estudo reúne os impactos da AMOC ao redor da Terra, inclusive o que pode mudar aqui no Brasil.
Nesse cenário, haveria um congelamento severo dos países nórdicos — Groenlândia, Islândia, Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca — além do Reino Unido e da Irlanda. Estudos recentes indicam que as temperaturas poderiam cair para –20°C em Londres e quase –50°C em Oslo, mesmo com o restante do mundo seguindo a tendência de aquecimento.
O relatório, divulgado no Brasil pelo ClimaInfo, expõe que a mudança climática já está enfraquecendo essa circulação. E qualquer aquecimento adicional acima dos níveis atuais aumenta a probabilidade de um colapso total da AMOC – como retratado no filme O Dia Depois de Amanhã. Em vez de um Ártico mais navegável, provocaria um resfriamento extremo e rápido no Norte do planeta, justamente enquanto o restante do mundo segue aquecendo.
Impactos diretos na segurança nacional
O Conselho Nórdico de Ministros alerta ainda para impactos diretos na segurança nacional da região e da OTAN. Entre os riscos estão quedas severas nos estoques pesqueiros, interrupções no transporte e no comércio com o congelamento de portos, fortes prejuízos à agricultura e uma elevação do nível do mar de até 50 centímetros. O gelo marinho de inverno poderia cobrir toda a costa da Islândia, o norte da Escandinávia e partes do Mar Báltico. Fora da Europa, o colapso da AMOC também teria efeitos globais, como secas no Sahel, no Norte da Amazônia e na Índia.
“A AMOC é uma parte fundamental do sistema climático da região nórdica. Embora o futuro dela seja incerto, o risco de um enfraquecimento rápido ou de um colapso precisa ser levado a sério”, afirma Aleksi Nummelin, pesquisador sênior do Instituto Meteorológico da Finlândia. “Este relatório reúne o conhecimento científico atual e destaca ações práticas de mitigação, monitoramento e preparação.”
Principais mensagens do relatório:
- É vital promover uma mitigação vigorosa que leve à descarbonização e ao alcance de metas de emissões líquidas negativas. Até que haja uma melhor compreensão sobre a probabilidade de a AMOC ultrapassar um limiar crítico (tipping point), bem como sobre o nível de aquecimento global ou o prazo em que isso poderia ocorrer, deve prevalecer uma abordagem de precaução: qualquer aquecimento adicional, assim como qualquer aumento na duração do “overshoot” acima de 1,5°C, eleva o risco de colapso da AMOC. Portanto, evitar um maior aquecimento é crucial.
- É necessário garantir financiamento de longo prazo para sustentar e operacionalizar redes essenciais de observação, além de construir um sistema de alerta precoce para a AMOC, que combine observações da Terra com simulações de modelos. Esse sistema de alerta deve ser incorporado aos processos de formulação de políticas públicas, de modo a permitir respostas rápidas baseadas no conhecimento científico. O novo EU Ocean Act oferece oportunidades para coordenar esse esforço.
- O futuro da AMOC é altamente incerto, mas um eventual colapso poderia desencadear impactos extremos nos países nórdicos, diferentes — e em parte opostos — aos efeitos esperados da mudança climática global. É essencial desenvolver e adotar estratégias flexíveis de adaptação climática que considerem a exposição da região aos impactos do enfraquecimento da AMOC e que sejam eficazes em trajetórias futuras distintas, com ou sem o colapso da circulação. Além disso, o possível colapso da AMOC deve ser tratado como uma ameaça real e significativa, à qual devem ser aplicados e integrados marcos abrangentes de gestão de riscos em todos os níveis de governança.
O relatório foi iniciado a partir do workshop Nordic Tipping Week, patrocinado pelo Conselho Nórdico de Ministros e realizado entre 21 e 24 de outubro de 2025, em Helsinque e Rovaniemi, na Finlândia, como parte do tema de resiliência da presidência finlandesa do Conselho. O encontro reuniu cientistas que estudam diferentes aspectos da dinâmica da AMOC e seus impactos, de oceanógrafos físicos a cientistas sociais.
O documento foi elaborado em colaboração com pesquisadores de diversas instituições de pesquisa nórdicas e internacionais, sob coordenação do Instituto Meteorológico da Finlândia. O workshop e o relatório também foram motivados, em parte, por uma Carta Aberta de Cientistas do Clima enviada ao Conselho Nórdico de Ministros em 2024, que sugeria que o risco de colapso da AMOC poderia ter sido subestimado anteriormente.

