Os países que compartilham a Amazônia enfrentam um mesmo desafio: garantir acesso à energia de qualidade para 5 milhões de pessoas que ainda vivem no escuro. Quando a energia elétrica chega às comunidades, o impacto é transformador: gera renda, fortalece a autonomia e a coesão social e promove o desenvolvimento local
Por Vinícius Oliveira da Silva, Fabio Galdino dos Santos e Isis Nóbile Diniz*
Ainda há cinco milhões de pessoas vivendo sem acesso adequado à eletricidade no bioma da Pan-Amazônia, território que o Brasil compartilha com Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela – revelam dados inéditos publicados este mês. São pais e mães sem vacinas e medicamentos para seus filhos que dependem de refrigeração. São estudantes cujo tempo de aprendizagem termina quando o sol se põe. São comunidades inteiras afastadas de serviços públicos essenciais, oportunidades de geração de renda e perspectivas de desenvolvimento.
Essas informações fazem parte de um estudo internacional do Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema). Apesar de os índices de eletrificação superarem 91% em toda a região, chegando a 99% no Brasil, o documento aponta que a exclusão energética atinge de forma desproporcional quem já carrega o histórico da marginalização: 10,5% da população indígena amazônica ainda vive sem eletricidade. Entre as pessoas de menor renda, essa proporção chega a 8,2%.
Os dados nos ambientes levantados, projetos-piloto de organizações financiadas analisadas, também revelam uma persistente desigualdade de gênero. As mulheres representaram apenas 15% dos participantes das capacitações técnicas e das equipes responsáveis pela implementação e manutenção dos sistemas energéticos.
A diferença entre acesso público e acesso adequado à eletricidade vai além da simples existência de uma conexão elétrica. Enquanto a falta de acesso público significa a ausência de atendimento por concessionárias ou programas governamentais, obrigando comunidades a depender de soluções próprias, muitas vezes precárias e custosas, a falta de acesso adequado ocorre quando o serviço existe (instalado por particular ou de forma pública), mas não atende às necessidades locais.
Isso inclui sistemas subdimensionados, interrupções frequentes no fornecimento e soluções tecnicamente inadequadas. De qualquer maneira, o acesso adequado, mesmo quando proveniente de iniciativa particular, não substitui o dever do Estado de garantir um serviço público de qualidade.
Em outras palavras, o desafio na Amazônia não é apenas levar energia às comunidades, mas garantir um serviço de qualidade, seguro e compatível com as necessidades das famílias, dos serviços públicos e das atividades produtivas.
Mas é justamente na latinidade da Amazônia que mora uma oportunidade singular. A Pan-Amazônia e seus 6,7 milhões de quilômetros quadrados de rios, florestas, culturas e línguas nos convidam a pensar juntos. A exclusão energética é um desafio compartilhado.
Transformações nos territórios

O que as experiências amazônicas já demonstram é animador. Quando a energia elétrica chega de forma adequada aos territórios, ela os transforma social, econômica e ambientalmente.
A mudança mais drástica no cotidiano é a liberação do tempo. Sistemas fotovoltaicos instalados em comunidades indígenas reduziram em até 50 horas semanais o trabalho doméstico e produtivo das famílias. Esse período, antes gasto em tarefas manuais exaustivas, é redirecionado para a educação, o lazer e o fortalecimento da coesão comunitária. Nas escolas, viabiliza a ampliação das atividades para além da luz do dia e do acesso a equipamentos digitais e à internet.
Em Unidades de Conservação, por exemplo, mais de 4 mil pessoas tiveram acesso ampliado à comunicação e conectividade, reduzindo o isolamento histórico dessas áreas e aproximando os moradores de serviços, informações e oportunidades.
Os benefícios também se refletem na economia local. Os moradores deixam de atuar apenas em atividades de subsistência para se tornar um espaço de sociobioeconomia ativa. Em 223 comunidades, a eletrificação para usos produtivos elevou em média US$ 361 mensais a renda familiar. O açaí passou a ser beneficiado localmente. O pescado, conservado. O extrativismo, valorizado sem derrubar a floresta.
Há também um ganho ambiental: 99,7% das comunidades que adotaram sistemas renováveis reduziram o uso de geradores a diesel. Em um terço delas, o combustível fóssil foi completamente eliminado. Além disso, famílias que antes precisavam abastecer com combustível fóssil geradores caros e poluidores conseguiram estabilizar seu orçamento, redirecionando recursos para alimentação e melhorias na infraestrutura doméstica.
Programas como o Luz para Todos, no Brasil, e equivalentes no Peru, Equador e Colômbia mostram que caminhos existem quando há planejamento de longo prazo, financiamento estável e escuta das comunidades. Neste ano, o Programa Luz para Todos ganhou avanços socioambientais com o Decreto nº 12.964/2026. Entre as novidades, estão a participação das comunidades nas decisões sobre os projetos, o reconhecimento do uso da eletricidade para atividades produtivas e a formação de agentes comunitários de energia.
Além de iluminação, a energia elétrica passa a ser vista como ferramenta para gerar renda, fortalecer a autonomia das comunidades e promover o desenvolvimento local.
Está na hora de afirmar a Amazônia como um coletivo de Brasil e de América Latina. O desafio agora é aprofundar e conectar essas experiências em uma agenda regional, com instrumentos compartilhados de monitoramento e participação das comunidades locais. Iluminar a Pan-Amazônia significa reconhecer, em cada população ainda no escuro, um direito que nos pertence a todos.
*Vinícius Oliveira da Silva é líder de projetos do Iema
Fabio Galdino dos Santos é assistente de projetos do Iema
Isis Nóbile Diniz é coordenadora de comunicação do Iema
