A transição e a mitigação climática de toda a malha logística pesada do País exigirão um aporte de R$ 3,42 trilhões até 2050. Estimativas do Plano Nacional de Adaptação indicam que entre 20% e 25% da malha federal pavimentada corre alto risco de interrupção por fatores climáticos até 2030; cada R$ 1 investido em prevenção pode gerar economia de até R$ 4 em reconstruções
Por Lucas Teixeira*
Os alertas sobre a possibilidade de chuvas acima da média no Brasil em razão da atuação do El Niño, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, voltaram a colocar a infraestrutura rodoviária no centro das discussões sobre adaptação climática. Nas últimas semanas, órgãos estaduais e comitês científicos de estados como Rio Grande do Sul e Santa Catarina divulgaram comunicados reforçando o risco de eventos extremos.
A preocupação aumentou após uma nota técnica divulgada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), em maio, apontar a possibilidade de um El Niño forte ou muito forte entre 2026 e 2027. A avaliação é baseada em projeções de centros meteorológicos internacionais que indicam o aquecimento das águas do Pacífico tropical, fenômeno associado ao aumento de eventos climáticos extremos no Brasil.
O cenário reforça a necessidade de tornar a infraestrutura rodoviária brasileira mais preparada para antecipar riscos, e não apenas reagir a eles. Os impactos das chuvas vão além dos transtornos à mobilidade e representam custos elevados para governos, concessionárias e para a economia.
Essa urgência financeira ganhou números claros em 2025. Relatórios do setor de infraestrutura e novas diretrizes regulatórias estimaram que serão necessários mais de R$ 22 bilhões, nos próximos 30 anos, em investimentos direcionados exclusivamente para as chamadas “rodovias verdes”. A estimativa, do Ministério dos Transportes, refere-se a iniciativas que incorporam medidas de resiliência climática, como ampliação da capacidade de drenagem, superdimensionamento de bueiros, contenção de encostas e outras obras preventivas para reduzir os impactos de eventos climáticos extremos.
Além disso, discussões estruturais promovidas no mesmo ano apontaram que a transição e a mitigação climática de toda a malha logística pesada do País exigirão um aporte de R$ 3,42 trilhões até 2050. O valor de R$ 3,42 trilhões até 2050 tem como base o estudo Roadmap para o Transporte Rodoviário Net Zero, elaborado pelo Pacto Global da ONU, Rede Brasil, com apoio da Scania e parceria da Confederação Nacional do Transporte (CNT), que estima os investimentos necessários para a descarbonização do transporte rodoviário de cargas no País.
Em Santa Catarina, eventos climáticos registrados entre 2022 e 2024 resultaram em pelo menos R$ 450 milhões em contratos emergenciais para recuperação de rodovias federais, segundo levantamento do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). As intervenções envolveram trechos das BR 470, 280 e 282. No Rio Grande do Sul, após as enchentes de 2024, o governo estadual anunciou investimento de R$ 1,2 bilhão para reconstrução de estradas e pontes afetadas.
Quando falamos em estradas inteligentes, não nos referimos apenas ao uso de sensores ou monitoramento em tempo real, mas à integração de dados climáticos, geoespaciais e operacionais para transformar informação em capacidade de prevenção.
Os dados climáticos permitem acompanhar previsões de chuvas intensas, temperaturas, riscos de alagamento e ventos fortes. Já os dados geoespaciais ajudam a identificar trechos mais vulneráveis a deslizamentos, erosões e interrupções. Somados aos dados operacionais – como fluxo de veículos, disponibilidade de equipes e equipamentos –, criam uma base mais robusta para a tomada de decisões.
A discussão se torna ainda mais urgente diante do estado da infraestrutura rodoviária brasileira. Segundo a Pesquisa CNT de Rodovias 2025, mais de 60% da malha pavimentada do País apresenta algum tipo de deficiência. O cenário se agrava com estimativas do Plano Nacional de Adaptação (PNA), que indicam que entre 20% e 25% da malha federal pavimentada corre alto risco de interrupção por fatores climáticos até 2030, embora cada R$ 1 investido em prevenção possa gerar economia de até R$ 4 em reconstruções.
O que muitas vezes falta não são dados. Concessionárias e órgãos públicos já acumulam grandes volumes de informações sobre tráfego, manutenção e ocorrências. O desafio está em conectar essas bases a dados meteorológicos, topográficos e geoespaciais para gerar inteligência aplicada.
Com essa integração, torna-se possível mapear áreas críticas, estimar probabilidades de alagamento, identificar pontos com maior risco de deslizamento e simular impactos no fluxo viário antes que ocorram interrupções. Modelos preditivos também permitem cruzar previsões meteorológicas com volume de tráfego e histórico operacional, auxiliando na definição de intervenções preventivas e reduzindo custos com reconstruções emergenciais.
A principal questão já não é se os eventos climáticos extremos vão acontecer, mas o quanto a infraestrutura está preparada para responder a eles. Em um cenário de mudanças climáticas cada vez mais evidentes, o uso inteligente de dados e tecnologia deixa de ser um diferencial e passa a ser uma necessidade estratégica para aumentar a resiliência das rodovias e reduzir impactos econômicos e operacionais.
*Executivo de Negócios da Codex, consultoria que atua em mudança climática, infraestrutura e cidades
