A 31º plenária da rede Uma Concertação pela Amazônia reuniu quase 200 pessoas para debater temas relacionados à Amazônia que poderão entrar na agenda do evento global no final do ano, em Belém. Em pauta, ciência, artes, política e setor privado
Por Magali Cabral
“Contudo, estranhamente, sempre no meio da distância que separava a casa e a escola, a avó soltava minha mão e repetia esta frase, como se fosse parte de uma de suas rezas: — Vai, meu filho. A candura da sua voz diminuía o meu medo. A singular beatitude nos olhos dela não aplacava a minha vontade de voltar até ela e dizer:
— Vamos, vó.
Só muitos anos depois é que eu fui compreender por que ela fazia isso. Um dos motivos era que eu tinha que aprender a qualquer custo trilhar o meu próprio caminho.
Aprender a calcular cada tragédia do passo em falso que daria.
Mesmo sem nunca ter lido Grande Sertão: Veredas, minha avó já tinha aprendido sozinha que o que a vida quer da gente é coragem.”
Airton Souza, escritor paraense
O trecho acima é um saboroso aperitivo destacado da 31º plenária da rede Uma Concertação pela Amazônia, “A COP sob as copas – Uma conversa entre Ciência, Arte, Política e Setor Privado”, realizada em 24 de fevereiro, com a presença de 170 de pessoas. O evento contou com a participação especial do presidente da COP 30, embaixador André Corrêa do Lago, que ao fim da plenária respondeu perguntas da audiência e dos convidados sobre temas diversos, desde adaptação à mudança climática até a exploração de petróleo na bacia sedimentar da foz do Rio Amazonas.
Participaram como palestrantes o professor titular da Universidade Federal do Pará (UFPA), Artur Silva; o escritor e historiador, Airton Souza; o advogado e consultor, Marcelo Ramos, e a CEO da Tutiplast, Mariana Barrella. E, como debatedor, o coordenador do Projeto Saúde & Alegria, Caetano Scannavino. A plenária dialogou ainda com as aquarelas do artista Feliciano Lana – o Sibé (1937-2020), que traz a representação do cotidiano do povo Desana no Alto Rio Negro, e teve mediação da secretária-executiva da Concertação, Livia Pagotto.
“A COP 30 já começou”, avisa o embaixador. Os próximos meses, segundo ele, serão dedicados ao debate prévio dos principais temas que se quer levar ao grande encontro global, em Belém:
“Não podemos nos desviar das oportunidades que surgirão durante o evento propriamente dito com discussões que deveríamos ter tido antes e internamente aqui no Brasil”, afirma André Corrêa do Lago.
Para ele, essa objetividade é importante, pois o mundo necessita de demonstrações de que as negociações globais feitas até aqui geraram resultados, trouxeram progressos e são capazes de melhorar a vida das pessoas.
O propósito da plenária foi exatamente ouvir representantes amazônidas da ciência, da arte, da política e do setor privado sobre temáticas dessas áreas que consideram importantes. O biólogo geneticista e professor da UFPA, Artur Silva, abordou uma vertente da ciência que tem ficado à margem dos grandes debates sobre Amazônia, a microbiodiversidade. O que o motivou a expor o tema na plenária, além do fato de ser um especialista em microrganismos, foi um artigo publicado em dezembro, em uma revista da Sociedade Americana de Microbiologia, a Spectrum Microbiology, sobre um trabalho realizado na Amazônia.
Cientistas prospectaram algumas áreas de floresta urbana, próximas a Belém, e encontraram enorme diversidade de rotas metabólicas (vias que ajudam a entender como os microrganismos produzem compostos bioativos e como interagem com medicamentos) que ainda não haviam sido descritas.
“Encontrar quase 40 rotas metabólicas novas em uma amostra de solo da Amazônia revela o potencial biotecnológico que existe na região”, celebra Artur Silva.
Ele explica que os microrganismos são um ativo da biodiversidade extremamente importante, tanto para a química tradicional como para a química fina (indústria farmacêutica). “Nós pouco nos damos conta disso”, observa. Existe um senso comum de que a ciência ainda conhece muito pouco da biodiversidade da Amazônia, mas quando se trata da microbiodiversidade do bioma, a seu ver, o desconhecimento é abissal.
Desmatamento, incêndios e estiagens põem fim a um patrimônio que nem sequer foi identificado, quanto mais investigado. “A Amazônia conserva um patrimônio biológico e biotecnológico imensurável que, se prospectado, poderia gerar ações efetivas em benefício não só do povo amazônico, mas de toda a humanidade”, afirma.
O professor da UFPA observa que, diante dos grandes desafios da região, essa pode parecer uma questão menor. Contudo, dada a demanda do setor químico e farmacêutico por esse tipo de ativo, a pesquisa sobre microrganismos talvez seja uma das formas mais compensadoras de conversão de biodiversidade em impostos. “Com esses tributos, o Estado poderá exercer o seu papel mais fundamental, que é fomentar serviços de saúde e educação”, arremata.
A ciência encontra a cultura
Ao refletir sobre a aplicação da ciência à ação social, a ciência microbiológica de Artur Silva esbarra na arte literária do premiado Airton Souza. O escritor exalta a importância da educação pública na vida de pessoas que, como ele, vieram de uma condição socioeconômica desfavorável. “Para quem não me conhece, eu sou Airton, sou daquela turma que o Dalcídio Jurandir [romancista amazonense 1909-1979] chamou de ‘pé no chão’. Vim da extrema pobreza, vim de uma família que foi arrastada para esse território movida por um discurso histórico chamado desenvolvimento”.
A partir dessa apresentação, Airton Souza faz a leitura de um texto – do qual foi extraído o fragmento no início desta reportagem – em que fala de sua relação com a avó e com a escola pública, as duas indutoras que o colocaram nos trilhos da arte literária. Hoje já são 50 livros publicados, todos com o olhar para a Amazônia e muitos deles premiados. O mais recente é o romance Outono de Carne Estranha, uma história que se passa nos anos 1980, em Serra Pelada, localizada em Curionópolis (PA), o maior garimpo de ouro a céu aberto do mundo.
“Em meus livros, mostro um pouco dos nossos problemas, mas também das nossas relações de afeto”, comenta o escritor. “Como disse o professor Artur Silva, a Amazônia está repleta de vidas e o potencial dessas vidas – sejam de que tamanho forem – precisa ser respeitado”.
Sobre o papel que a arte terá na COP 30, Corrêa do Lago diz estar trabalhando para ir além das expressões folclóricas de Belém, e que busca um aprofundamento da cultura da Amazônia. “Estamos explorando vários caminhos, inclusive o da arquitetura e o da arqueologia, principalmente depois do surgimento de novas teorias arqueológicas sobre a Amazônia”. O embaixador refere-se a pesquisas recentes, como as do arqueólogo Eduardo Neves, segundo as quais civilizações habitaram a região há mais de 12 mil anos.
Lago informa ainda que imagens do fotógrafo Sebastião Salgado deverão estar muito presentes em locais de encontros da COP. Ele descarta a promoção de grandes espetáculos, na linha dos shows musicais. “A ministra [do Meio Ambiente e Mudança do Clima] Marina Silva, com toda razão, diz que temos de fazer uma COP sóbria. Primeiro, por estarmos exercendo uma pressão sobre a cidade de Belém, um território que não está desenhado para receber um evento da dimensão da COP. E também por se tratar de uma negociação muito séria sobre temas que têm um impacto imenso sobre a vida das pessoas”.
Projeto de abandono
A apresentação do advogado e ex-deputado federal, Marcelo Ramos, trata exatamente de um tema com imenso impacto sobre a vida das pessoas: a desigualdade social, política e econômica. Ele apresentou um recorte por IDH – que leva em conta escolarização, expectativa de vida e renda média – para ilustrar o “abandono” da Região Norte em relação às demais regiões brasileiras.
“Dos dez municípios com os melhores IDH do Brasil, nenhum deles está em algum dos nove estados que compõem a Amazônia Legal. Mas, se pegarmos os dez piores IDH, os dez estão em estados da Amazônia Legal”, observa Marcelo Ramos.
Ele detalha que o pior IDH do Brasil é o de Melgaço (PA) e o melhor é o de São Caetano (SP). Das três dimensões mensuradas pelo IDH, a mais surpreendente é a que mede a renda média per capita: em Melgaço, segundo o levantamento de Ramos, não passa de R$ 135,21; em São Caetano chega a R$ 2.043,74; e no Brasil a R$ 1.848.
De acordo com o advogado, essa questão econômica se reflete fortemente no perfil político da região. Ele conta que fez uma pesquisa recente sobre toda a legislação ambiental e do quadro das bancadas de senadores, deputados federais, deputados estaduais e vereadores de capitais nos nove estados da Amazônia Legal, e o resultado foi o seguinte:
“Não encontrei um só deputado federal, um só deputado estadual e um só vereador de capital nos nove estados cuja pauta mobilizadora do mandato incluísse questões climáticas e de proteção ao meio ambiente”, diz Marcelo Ramos.
Com base nesses e em outros apontamentos, ele lista os temas que lhe parecem precisar de mais centralidade nesse momento de debates e de COP. “Precisamos de um debate sério e efetivo sobre regularização fundiária e sobre investimentos nas áreas de economia, serviços florestais, mercado de carbono e turismo comunitário. Não tenho convicção de como, mas precisamos enfrentar também um debate sobre agricultura, pesca e mineração”.
O coordenador do Projeto Saúde & Alegria, Caetano Scannavino, refletindo sobre os dados apresentados pelo colega de plenária, afirma que a Zona Franca de Manaus tinha tudo para ser o Vale do Silício da Floresta em Pé.
“Podíamos ser referência mundial em biotecnologia e tecnologias florestais de ponta. Em vez disso, insistimos há 50 anos em um modelo de ocupação da região que deu errado. Desde os anos 1970, a participação da Amazônia não descola de pífios 7% a 8% do PIB nacional”, lamenta Scannavino.
Ele critica a atuação do Congresso Nacional muito focada em liberar reservas extrativistas, em liberar garimpo dentro de Terras Indígenas, mas com poucos projetos de lei pensados para alavancar a sociobioeconomia. De acordo com seus cálculos, hoje custa mais barato fazer uma entrega de mercadorias para a Natura, em Cajamar, na Grande São Paulo, a 3 mil quilômetros do Pará, do que no parque fabril da empresa em Benevides (PA), que fica a 280 quilômetros de Belém.
Ele menciona também a situação da região durante o auge da pandemia de Covid-19. As primeiras cidades a colapsarem foram Manaus e Santarém (PA). Os respiradores não tinham serventia porque não havia oxigênio. “Ou seja, enquanto estamos aqui gerando benefícios globais, os custos de conservação e os custos sociais permanecem locais”, conclui.
Fazendo acontecer
De fato, a Amazônia é complexa. A realidade do interior dos estados é de extrema pobreza. A população não tem acesso a bens de consumo e está à mercê do tráfico, da pesca ilegal, da exploração de madeira. Mariana Barrella, CEO da Tutiplast, uma empresa familiar de transformação de plástico, que atua na Zona Franca de Manaus, endossa a visão sobre a dura realidade amazônica apontada por Ramos e Scannavino.
Mas ela tem motivos para comemorar, não só por suas conquistas pessoais, mas por conseguir gerar riqueza para as comunidades amazonenses de Lábrea (AM), com o aproveitamento do ouriço da castanha, e na comunidade de Novo Remanso, em Itacoatiara (AM), com o aproveitamento das folhas do curauá, subprodutos que usa na fabricação de bioplásticos, diminuindo a dependência de petroquímicos na produção.
Desde que assumiu a empresa do pai, passou a acrescentar os recursos renováveis em sua de cadeia de valor. No momento, investe em uma pesquisa para desenvolver um tipo de bioplástico que deve se degenerar apenas em 180 dias.
O trabalho é resultado de uma parceria com o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), entre outros parceiros, em projetos de bioeconomia. “Resolvemos ir para a prática, fazer diferente, agregar riqueza e valor aos produtos da floresta”, diz.
Seu grande desafio hoje é induzir esse novo modelo de cadeia econômica dentro do Polo Industrial de Manaus. De acordo com a empresária, no interior do estado existem cerca de 2 milhões de pessoas que percebem muito pouco ou quase nada os impactos econômicos da Zona Franca.
“As indústrias da região precisam assumir um outro papel e interagir minimamente com a floresta”, avalia Mariana Barrella.
A seu ver, ela e um grupo ainda pequeno de empresários da região, que segue o caminho da bioeconomia e da sustentabilidade, estão levantando uma onda positiva no circuito industrial de Manaus. Mas é preciso que mais empresários apostem em um novo modelo de desenvolvimento para engrossar esse movimento.
Um apoio do governo também seria bem-vindo. Ela sugere a inclusão de produtos da bioeconomia no Processo Produtivo Básico (PPB) – consiste nas etapas fabris mínimas necessárias que as empresas da Zona Franca de Manaus devem cumprir para fabricar determinado produto em contrapartida aos benefícios fiscais estabelecidos por lei. “Se conseguíssemos oferecer incentivos para que empresas optassem por materiais da bioeconomia, seria excelente”, afirma.
Barrella reconhece que escolheu um caminho difícil e trabalhoso, mas que vale a pena. Assim como valeu a pena o caminho “impregnado de pedregulhos, que aumentava o medo da distância entre a casa e a escola”, trilhado por Airton Souza.