A proposta de um Fundo Rotativo Comunitário para a Justiça Climática busca atender a empreendimentos comunitários ligados à sociobiocoenomia, à biodiversidade e ao desenvolvimento territorial. O modelo, que combina crédito concessional, governança compartilhada e apoio técnico, pode ser aplicado em estratégias de investimento social privado, adaptação climática, recuperação pós-desastre e fortalecimento de cadeias produtivas locais
Por Bruno Girardi e Daniel Contrucci*
A crise climática também é uma crise de desigualdade. As populações que menos contribuíram para as emissões de gases de efeito estufa estão entre as mais afetadas por secas, enchentes e perda de renda. Ao mesmo tempo, enfrentam mais barreiras para acessar recursos para adaptação e mitigação. O debate sobre financiamento climático costuma se concentrar no volume de dinheiro disponível. Mas também é preciso discutir para onde esses recursos vão, em quais condições são oferecidos e quem participa das decisões.
Nos territórios, proteção ambiental, geração de renda e desenvolvimento social caminham juntos. Um empreendimento comunitário da sociobioeconomia pode conservar a floresta, gerar renda e valorizar conhecimentos tradicionais, mas ainda assim permanecer fora dos fluxos convencionais de capital.
Um estudo conduzido pela Climate Ventures e pela Sitawi Finanças do Bem identificou um grande desequilíbrio entre os volumes disponíveis de capital comercial e concessional. O capital comercial, que busca retorno financeiro para o investidor, reúne instrumentos que somam mais de R$ 1 bilhão. Já o capital concessional – cujo objetivo maior é gerar impacto socioambiental ou desenvolvimento econômico, mesmo com retorno financeiro menor e mais demorado – soma cerca de R$ 147 milhões. Os dados resultam de uma análise de 689 organizações e do mapeamento de mais de 50 instrumentos financeiros.
Essa modalidade concessional é a mais adequada para muitas organizações territoriais, por oferecer juros menores e pagamentos compatíveis com a realidade local. Atualmente, essas organizações – por não apresentarem garantias, histórico de crédito ou a estrutura jurídica exigida pelo sistema financeiro – ficam em um espaço pouco atendido por doações pontuais e pelo crédito convencional.
Para enfrentar essa lacuna, desenvolvemos a proposta de um Fundo Rotativo Comunitário para a Justiça Climática. O modelo, que está em busca de investidores, é voltado a empreendimentos comunitários de micro, pequeno e médio porte ligados à sociobiocoenomia, à biodiversidade e ao desenvolvimento territorial. Combina crédito concessional, governança compartilhada e apoio técnico. O dinheiro devolvido retorna ao fundo e pode apoiar outra iniciativa, mantendo o recurso em circulação no território.
Os financiadores definem as diretrizes gerais e a tese de impacto. As comunidades participam da seleção das organizações e das prioridades de aplicação. A estrutura também prevê apoio em gestão financeira, análise de crédito, monitoramento e prestação de contas, com exigências proporcionais à capacidade local. Esse processo fortalece a gestão e ajuda as organizações a construir histórico para acessar novas fontes de crédito. O fundo rotativo tem outra função: apoiar a recuperação econômica, fortalecer negócios locais e ampliar a autonomia no médio e longo prazo.
Mas, em situações de desastres naturais, as doações continuam indispensáveis para proporcionar uma resposta imediata. Simulações indicam que a reutilização do capital pode levar recursos filantrópicos a mais organizações ao longo do tempo.
Nesse sentido, o modelo pode ser aplicado por empresas, fundações, institutos e filantropos em estratégias de investimento social privado, adaptação climática, recuperação pós-desastre e fortalecimento de cadeias produtivas locais.
Sabemos que nenhum instrumento financeiro resolve o problema isoladamente. Ele precisa integrar um plano territorial construído com participação local. A justiça climática depende de mais recursos, mas também de outra forma de financiamento. Mudar como o capital chega, circula e é governado nos territórios é parte necessária da resposta à crise climática.
*Autores:
Bruno Girardi é diretor vice-presidente da Sitawi Finanças do Bem
Daniel Contrucci é cofundador e CIO da Climate Ventures
