Em uma cidade submetida a precipitações cada vez mais intensas, impermeabilizar parques é retirar capacidade de adaptação exatamente de onde ela deveria ser ampliada, segundo a SOS Parques
Em um momento em que São Paulo deveria estar ampliando suas áreas impermeáveis, os parques Villa-Lobos e Cândido Portinari tiveram, em quatro anos, um aumento de 2,21 hectares impermeabilizados, cerca de três campos de futebol, o que representa perda de capacidade de infiltração e retenção de água. Os parques, que são contíguos, localizam-se na Zona Oeste da capital.
Os dados são de uma análise do SOS Parques, iniciativa da sociedade civil que reúne moradores, frequentadores e associações ligadas a diferentes parques de São Paulo para acompanhar as transformações desses espaços diante das concessões. Segundo o levantamento, os parques passaram de 17,1 hectares em 2022 para 19,3 hectares em 2026 (compare as imagens abaixo).


Imagens de satélite: Vantor/WorldView-2/ SOS Parques
Além da impermeabilização permanente provocada por pavimentos, estacionamentos e edificações, há o impacto menos visível da compactação do solo causada pela sucessão de eventos, circulação de caminhões e grande concentração de pessoas. Um solo compactado pode permanecer aparentemente verde, mas infiltra muito menos água e prejudica a arborização.
A desimpermeabilização dos parques, com redução de áreas asfaltadas, implantação de jardins de chuva, biovaletas, pavimentos permeáveis e áreas de retenção temporária são alternativas que podem ser aplicadas para favorecer a absorção da água e o escoamento das chuvas.

Parques/Divulgação
Para Ivan Maglio, doutor em Saúde Ambiental e integrante do SOS Parques, isso não se resume apenas ao volume total de água, mas ao pico de escoamento, quando grande quantidade de água chega rapidamente às galerias e sistemas de drenagem durante chuvas intensas.
“Não diria que esses 2,21 hectares, isoladamente, provocam os alagamentos de São Paulo. Mas eles representam uma perda de capacidade de retenção e infiltração exatamente quando a cidade deveria estar fazendo o contrário”, afirma.
A drenagem dos parques não serve apenas para retirar a água o mais rápido possível, e sim para reter, infiltrar e retardar o escoamento dentro do próprio parque. Para novos eventos e instalações, o SOS Parque defende que toda autorização considere o impacto cumulativo e não apenas cada evento isoladamente, com limites de área ocupada, obrigação de recuperação do solo e da vegetação.
“Em uma cidade submetida a chuvas cada vez mais intensas, impermeabilizar parques é retirar capacidade de adaptação exatamente de onde ela deveria ser ampliada. Parque urbano também é infraestrutura de drenagem, de regulação climática e de proteção da cidade”, conclui Maglio.
