Triste cenário

Leia a seguir o artigo de Marcus Eduardo de Oliveira sobre a desigualdade e os problemas relacionados à alimentação e subnutrição pelo mundo.

TRISTE CENÁRIO

Por Marcus Eduardo de Oliveira

Foto de  Still_life88_second via Flickr
Foto de Still_life88_second via Flickr

O noticiário sobre desigualdades socioeconômicas, em escala mundial, não deixa espaço para a dúvida: o mundo está cada vez mais desigual e menos fraternal. De fato, parece mesmo que o mundo está de cabeça para baixo – “The world turned upside down“, como diz a letra do Coldplay, e como também foi intitulado recente relatório sobre desigualdades publicado pela prestigiosa The Economist.

Os números que corroboram esse triste cenário apontam que um em cada dois seres humanos vive com menos de dois dólares diários; um em cada três não têm acesso à eletricidade; um em cada cinco não têm acesso à água potável; um em cada seis é analfabeto. Um adulto em cada sete e uma criança em cada três sofre de desnutrição.

A cada cinco segundos uma criança morre de fome no mundo; embora haja terras férteis para o cultivo dos alimentos, pois, apenas como exemplo, o plantio destinado para produzir alimentos para o gado nos Estados Unidos é de 64% da quantidade de terras próprias, ao passo que a produção de frutas e alimentos ocupa apenas 2%. Na somatória, resulta que uma pessoa a cada sete padece de fome no mundo. Enquanto o consumo de alimentos cresce para uma parte da população mundial, a outra parte se vê alijada desse banquete: simplesmente 20% da população mundial – ou uma em cada cinco pessoas – está excluída da participação no consumo.

Nada mais do que 300 milhões de pessoas no mundo têm uma expectativa de vida inferior a 60 anos; em parte pela má alimentação e por conta de patologias decorrente dessa carência. Trinta e cinco por cento da população mundial não têm energia e proteínas suficientes em sua dieta. Há dois bilhões de pessoas anêmicas, incluídos 5,5 milhões que habitam os países do capitalismo avançado.

No entanto, enquanto as sequelas da fome vitimam considerável parte da população, do outro lado da história a opulência dá um colorido todo especial a alguns “privilegiados”. Vejamos que apenas quatro cidadãos norte-americanos – Bill Gates, Paul Allen, Warren Buffet e Larry Ellyson – poucos anos atrás concentravam em suas mãos uma fortuna equivalente ao PIB das 42 nações mais pobres que abrigam uma população de mais de 600 milhões de estômagos vazios e bocas esfaimadas.

A desigualdade social e econômica é evidenciada quando temos que 80% da riqueza mundial está nas mãos de 15% de “privilegiados”. Essa “turminha” se esbalda no consumo suntuoso. Exemplo disso? O consumo anual de cigarros, apenas na Europa, gira em torno de 50 bilhões de dólares. As diversas bebidas alcoólicas, também na Europa, atingem gastos de 105 bilhões de dólares ao ano. Somente nos EUA, o gasto anual em cosméticos atinge 8 bilhões de dólares.

De acordo com o International Institute for Strategic Studies, o dinheiro que os países ricos – especialmente os EUA – destinam aos gastos militares durante onze dias daria para alimentar e curar todas as crianças famintas e enfermas do planeta. Repetindo: 11 dias apenas seriam suficientes para o mundo “conhecer” a face da fraternidade se o interesse fosse eliminar a fome de inocentes crianças. Vejamos que ainda sobrariam 354 dias para os agressores que comandam esse processo de intensa desigualdade continuar praticando o que mais sabem fazer: injustiça social.

Por fim, cabe apontar que especialistas no assunto acreditam que 200 milhões de dólares (menos de vinte vezes o que se gasta com sorvetes ao ano apenas na Europa ou o que as forças armadas dos países ricos gastam em apenas três horas de “bom trabalho” dizimando inocentes) poderiam “exterminar” (para usar um termo bem comum aos países bélicos) doenças como difteria, coqueluche, tétano, sarampo e poliomielite que, juntas, matam quatro milhões de crianças por ano. É por essas e outras que o mundo está cada vez mais desigual, mais injusto e mais selvagem configurando um triste cenário que agride o maior de todos os princípios: a vida humana.

*Marcus Eduardo de Oliveira é economista, professor e especialista em Política Internacional.
prof.marcuseduardo@bol.com.br

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