Estudo detecta cinco inovações para os carros. Mas e a fonte de energia?

Carro elétrico, autônomo, compartilhado, conectado e atualizado anualmente. As cinco tendências para o setor automotivo identificadas globalmente pela consultoria PwC, mais ou cedo ou mais tarde, chegarão ao mercado brasileiro. Isso porque o mundo todo tem sido afetado por mudanças climáticas e demográficas, aceleração da urbanização e novas tecnologias.

É o que afirma Marcelo Cioffi, sócio da PwC Brasil e líder para o setor automotivo, nesta entrevista concedida por e-mail à Página22. A seu ver, tais tendências ainda serão potencializadas no Brasil devido aos altos custos de aquisição e manutenção de um veículo particular, bem como as deficiências no transporte público.

Questionado sobre a necessidade de ampliar as fontes renováveis antes de as montadoras ofertarem carros elétricos que se recarreguem de energia suja, como a termelétrica, Cioffi afirma que “o pressuposto é que a geração de energia para utilização nestes veículos seja limpa”. Ressalta que o etanol deve ter importante papel em veículos híbridos e, do ponto de vista ambiental, será preciso atentar também para as baterias e sua reciclagem.

O que motivou a realização deste estudo? Foi encomendado pelas indústrias automobilísticas?

O estudo foi desenvolvido pela área de pesquisa e análise de tendências no setor automotivo, da PwC (PwC Autofacts®), responsável por diversas publicações. Nossos estudos, tanto os periódicos quanto os pontuais, têm o objetivo de identificar problemas de negócios e tendências nos diversos setores em que atuamos. No recém-publicado Five Trends Transforming the Automotive Industry, analisamos as transformações pelas quais o setor automotivo vem passando e os impactos que provocarão nos próximos anos, especialmente em função de novas tecnologias e mudanças no comportamento dos consumidores que, cada vez mais, valorizam conveniência e praticidade.

As cinco tendências identificadas pelo estudo e resumidas pelo acrônimo “eascy”: electrified (elétrico), autonomous (autônomo), shared (compartilhado), connected (conectado) e yearly updated (atualizado anualmente) são colocadas como globais. Mas em que medida essas tendências podem ser aplicar à realidade brasileira e serem assimiladas aqui, considerando nossas peculiaridades econômicas, sociais e culturais?

A ideia do estudo foi selecionar determinados mercados que sejam relevantes para o setor, mas que também tenham uma diversidade no perfil do consumidor. Assim, entendemos que as tendências identificadas são aplicáveis ao Brasil, ainda que nosso país não esteja na amostra. Isso porque as megatendências são globais e os impactos causados por elas são semelhantes no mundo todo, como as mudanças no comportamento dos consumidores. Além disso, o pano de fundo é o mesmo, a sociedade em geral vem sendo afetada por mudanças climáticas e demográficas, aceleração da urbanização e novas tecnologias.

No que se refere a mobilidade, essas novas tendências podem ser potencializadas em nosso país, devido aos altos custos de aquisição e manutenção de um veículo particular, bem como as deficiências no transporte público. A previsão é que teremos quatro perfis de veículo: autônomo compartilhado, autônomo não compartilhado, veículo com motorista compartilhado e não compartilhado, ou seja, o carro tradicional. O prazo para que os países façam a transição para esse novo contexto deve variar de um para outro, e o Brasil não está à margem dessa transformação.

Quanto tempo é estimado para que tendências globais, iniciadas nos Estados Unidos e em países da Europa, cheguem em mercados emergentes como o brasileiro?

O brasileiro é um dos povos mais conectados do mundo e tende a ser aberto a esse tipo de mudança. Mas não podemos prever o prazo exato para que isso se torne realidade. Com certeza não será distante do previsto em outros países.

O mercado brasileiro de automóveis tem como forte característica a fonte renovável do etanol. Nos centros urbanos, a vantagem dos veículos elétricos em termos de poluição atmosférica e qualidade do ar é clara, evitando fumaça e material particulado, além de menos ruído. Mas qual seria vantagem, em termos de mudança global do clima, do uso do carro elétrico no País, considerando que a eletricidade pode se alimentar de fontes sujas, como as termelétricas – as quais têm respondido por percentual significativo na matriz energética e podem crescer com o regime cada vez mais instável das chuvas que alimentam as hidrelétricas?

O pressuposto é que a geração de energia para utilização nestes veículos seja limpa, vindo de fontes renováveis. Neste sentido, existem diversos trabalhos em andamento no mundo inteiro para que exista esta complementariedade. A discussão não passa somente na questão da geração da energia, mas também da fonte para a bateria e sua reciclagem, além da questão da autonomia. Neste cenário, o veículo híbrido também tem o seu papel, e o etanol poderia ser uma solução para o Brasil.

Neste artigo, Sergio Marchionne. CEO da Fiat Chrysler Automobiles, aponta que introduzir veículos elétricos em nível global sem primeiramente resolver a questão de como produzir energia limpa representa uma grande ameaça à própria existência do planeta. O artigo traz esse trecho: “Quatro anos atrás, pesquisas realizadas pela Norwegian University of Science and Technology concluíram que os veículos elétricos representam uma ameaça para o meio ambiente. Em termos de aquecimento global é quase o dobro daquele gerado por veículos tradicionais”. Como a tendência da eletrificação deve se sustentar considerando os pontos levantados pelo CEO e frente a megatendência de mudança climática, também identificada pelo estudo?

Veja resposta anterior.

Em relação à tendência de compartilhamento de veículos aplicada à realidade brasileira, o que deve ser considerado – ponderando a relação cultural que o brasileiro possui com o automóvel: em vez de mero meio de transporte, é visto como objeto de consumo e status, é tido como prêmio de conquistas profissionais e sociais, e existe um forte sentimento de propriedade? 

Nesse aspecto, o consumidor brasileiro não é muito diferente do chinês, já que lá também existe uma demanda reprimida muito grande que ainda gera essa aspiração, o desejo pelo status, o sentimento de propriedade. Essa não é a realidade dos países mais desenvolvidos, mas por aqui observamos que isso tem mudado. O estudo partiu das megatendências, das tecnologias emergentes e do perfil do consumidor, que são três: o tradicional, que não abre mão de ter seu carro e dirigi-lo sem dividir com quem não conhece; o moderno, que em geral são jovens, mas não em todos os casos, e que estão dispostos a não ter um veículo próprio e fazer outras atividades durante o trajeto além de economizar; e os que estão em transição, que usam os dois modelos e estão dispostos a testar e combinar os serviços de mobilidade.

O jovem, em especial, começa a perceber as vantagens de não ter um carro. Ele gasta menos, maximiza seu tempo e ainda volta em segurança para casa, respeitando também a questão do beber e não dirigir. Lembrando que os motoristas de 2030 ainda são crianças hoje e terão uma mentalidade muito diferente das gerações mais atuais. No futuro, a tendência é pagar por uso (pay per use) e usar o tempo de deslocamento para outras atividades, como trabalho, entretenimento, compras, leitura, consultas médicas etc. Os mais jovens estão aprendendo a enxergar essas vantagens do aproveitamento do tempo e as montadoras precisam investir – e já estão investindo – nisso para acompanhar a demanda.

Por que a automação é uma tendência? Que fatores sustentam essa demanda? Existe uma procura dos consumidores ou essa é uma aposta da indústria para criar demanda? Por que esse tipo de tecnologia interessa aos fabricantes?

A automação é uma tendência justamente porque o consumidor terá mais necessidade de mobilidade no futuro, ao mesmo tempo que dará maior valor ao uso do seu tempo pessoal. Além dos mencionados veículos compartilhados, existem outras possibilidades para quem não quer adotar esta forma de mobilidade. As possibilidades não são restritivas. Existem vários níveis de automação, do 1 ao 5, sendo 5 totalmente autônomo, que faz tudo sozinho.

No mesmo carro, vamos poder optar por dirigir quando for confortável e prazeroso, como na estrada; e na cidade, no trânsito, ele funcionará sozinho e poderemos aproveitar melhor o nosso tempo. Importante salientar que além da mudança de comportamento, temos hoje uma tecnologia que permite essa solução e que também está em transformação. Temos consumidores dispostos a pagar por isso e empresas dispostas a entrar nesse mercado – isso gera novos modelos de negócios e novos produtos. É tudo parte de um processo em constante construção.

Por que as tendências de automação e de veículos elétricos caminham juntas?

São duas tecnologias emergentes que tendem a se encontrar principalmente em aplicações para mobilidade urbana e que podem ser exploradas como serviço por um provedor. Porém existem vários níveis de automação e que hoje estão disponíveis em veículos a combustão ou híbridos. A eletrificação também será incentivada e acelerada por regulamentações governamentais que devem limitar o uso de motores tradicionais a combustão.

Apenas uma empresa automobilística, a Tesla, está entre as 10 companhias mais inovadoras do mundo. Qual seria a razão para a pouca participação da indústria automotiva no ranking de inovação? Esse cenário tende a mudar? Por quê?

Muitas montadoras estão investindo pesadamente em inovações para se adaptar a este novo cenário e à tecnologia que estará disponível no futuro. Essa evolução vai alterar todo o modelo de negócios do setor, que passará não mais a vender, necessariamente, produtos, e sim, serviços. A mudança de foco de negócio será provocada pelas inovações que já estão acontecendo. A indústria está investindo em tecnologias inovadoras e reservando novidades para o futuro, fazendo parcerias e buscando parceiros igualmente inovadores. O futuro passa por essas parcerias.

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