Plano Municipal de Bioeconomia, o primeiro da Amazônia, pretende colocar Alvarães no foco de oportunidades e do debate nacional sobre o tema
Alvarães (AM) é famoso pela disputa da melhor farinha com os municípios de Uarini e Tefé, vizinhos no médio-Solimões. Cada qual defende o seu produto com argumentos que extrapolam o sabor, a crocância, a qualidade. A origem, aqui ou acolá, é quase como a paixão por time no futebol. Evoca raízes, identidade, orgulho – e agora chega a um novo patamar. Para além do prestígio em torno do tradicional item da alimentação regional, os alvaraenses preparam uma nova cartada que colocará mais pimenta na rivalidade: o Plano Municipal de Bioeconomia, o primeiro de que se tem notícia na Amazônia brasileira.
Fazer o município surfar nesta onda, com adaptação climática, governança ambiental e produção sustentável é objetivo da iniciativa, em planejamento. “Queremos transformar Alvarães no epicentro da sociobioeconomia”, projeta Edirlan Mendes, secretário municipal de produção rural, abastecimento e pesca, na expectativa de atrair a instalação de agroindústrias e desenvolver o turismo de natureza com convívio nas comunidades.
Em parceria com o programa Ecoam, conduzido pelo Impact Hub Manaus, o município recebeu capacitações para empreendedores e associações comunitárias, em especial na comercialização de plantas medicinais. Atualmente, são realizados cursos de Inteligência Artificial para equipes da prefeitura. Ter parte importante do território na Floresta Nacional de Tefé e Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, com necessidade de alternativas de renda capazes de competir com o desmatamento, é um diferencial-chave do município nos preparativos para desenvolver a bioeconomia como política pública.
Com apoio do Sebrae, foram iniciados diagnóstico e coleta de dados sobre as atividades econômicas, reconhecendo a diversidade ambiental, social e cultural do município. O propósito é possibilitar uma maior articulação entre os atores das cadeias produtivas da bioeconomia. “O mapeamento permitirá planejar modelos de desenvolvimento baseados na bioeconomia que contemplem os interesses e as expectativas da gestão pública e das comunidades produtoras”, afirma Mendes.
Segundo o estudo, a bioeconomia amazônica deve refletir as relações sociobiodiversas dos povos da floresta, no sentido de “atrair parcerias que fortaleçam a organização comunitária, a empatia, o aprendizado mútuo, a distribuição de riquezas, e o crescimento sustentável e inclusivo”.
Emancipado em 1981, Alvarães tem história atrelada ao município vizinho de Tefé, palco de disputas entre espanhóis e portugueses pela posse do território no século XVIII. Hoje, a principal atividade econômica consiste na agricultura familiar, com destaque na produção limão, açaí e abacate – além, é claro, da mandioca que abastece as casas de farinha, e gera impactos devido às queimadas nas roças. Pesca e extrativismo de madeira e castanha completam o quadro, em município de baixos indicadores sociais. Com 15,8 mil habitantes, Alvarães registra Produto Interno Bruto (PIB) per capta de R$ 13,2 mil – 20ª posição entre os 62 municípios amazonenses.
O diagnóstico ressalta desafios, como a forte dependência dos recursos públicos para soluções locais e a informalidade das associações e dos empreendimentos que limitam a capacidade para a bioeconomia. Apesar do potencial turístico, são necessários programas de capacitação e procedimentos para medir a quantidade e a qualidade da produção rural, entre outras medidas. “A ideia é ter acesso a políticas públicas e replicar o modelo de desenvolvimento baseado na bioeconomia”, revela Mendes, também biólogo, nascido em comunidade ribeirinha.
Como aluno de iniciação científica do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), onde trabalhava na coleta material biológico para estudos sobre mudanças climáticas, conheceu cientistas alemães de quem ouviu pela primeira vez a palavra “bioeconomia”. “Eles falavam para estudar e adaptá-la à minha região”.
Mendes conta: “Para convencer prefeito e políticos sobre o plano, falei que seria uma forma de superar Tefé e Uarini e não ficar para trás nas inovações”. A estratégia do secretário será aguardar a aprovação dos planos nacional e estadual de bioeconomia, prevista até a COP 30, para já encaminhar a nova lei municipal com base nas diretrizes das demais esferas de governo.

