Pesquisa realizada nos seis continentes mostra que a sobrevivência cultural é fundamental para proteger a natureza. Resultados publicados na revista científica Humanities and Social Sciences Communications, mostram que as mesmas tradições que preservam idiomas, rituais e identidades também protegem terras, a água e a vida silvestre. Mas 61% dos entrevistados relatam impactos diretos de indústrias extrativas, como mineração, exploração madeireira, agricultura comercial e desenvolvimento de infraestrutura
Os sistemas de governança e as cosmovisões dos povos indígenas geram benefícios concretos para o clima e a biodiversidade em alguns dos territórios mais importantes do planeta. Essas contribuições vão do armazenamento de grandes reservas de carbono, ajudando a reduzir o aquecimento global, até a proteção de hábitats essenciais para a vida silvestre.
Com base em entrevistas com povos indígenas de 43 comunidades nos seis continentes do planeta, o estudo (Indigenous Peoples’ knowledge systems and practices for climate survival) descreve as diversas formas pelas quais essas comunidades cuidam de seus territórios por meio de práticas tradicionais fundamentadas na observação da natureza e em vínculos intergeracionais com os lugares onde vivem.
Os resultados, publicados na revista científica Humanities and Social Sciences Communications, mostram que cultura e conservação estão profundamente interligadas: as mesmas tradições que preservam idiomas, rituais e identidades também protegem terras, a água e a vida silvestre. O Ministério da Economia e Finanças da França e o Fundo Francês para o Meio Ambiente Mundial (FFEM) apoiaram a pesquisa no âmbito do projeto Our Future Forests – Vital Reserves.
Muitas vezes não escritas e transmitidas por meio do consenso comunitário e da tradição oral, essas normas produzem resultados concretos: os territórios indígenas e comunitários armazenam mais de um terço do “carbono irrecuperável” do planeta, ou seja, carbono que, se liberado na atmosfera, não poderia ser recuperado a tempo de evitar um colapso climático. Além disso, 60% dos mamíferos terrestres têm mais de 10% de sua distribuição em territórios indígenas, segundo pesquisas anteriores.
“Os territórios indígenas protegem o clima e a vida silvestre em uma escala alcançada em poucos lugares; frequentemente armazenam mais carbono e abrigam mais espécies do que áreas protegidas pelos governos nacionais”, afirma Sushma Shrestha, diretora de ciência indígena da Conservation International e principal autora do estudo.
“Nosso estudo vai além dos dados para entender como as práticas culturais e os conhecimentos indígenas contribuem diretamente para esses resultados. Descobrimos que o alto armazenamento de carbono e a biodiversidade presentes nesses territórios não são coincidência. Eles existem graças à presença contínua dos povos indígenas, e não apesar dela.”
Entre os principais resultados do estudo:
- 100% das pessoas indígenas entrevistadas observaram mudanças no clima e nas condições meteorológicas de seus territórios. Secas e eventos climáticos extremos foram os impactos mais frequentes.
- 96% afirmaram que suas comunidades reservaram terras ou águas para usos sagrados ou culturais; essas áreas também servem de hábitat para a fauna e de refúgio para florestas primárias.
- 61% relataram impactos diretos de indústrias extrativas, como mineração, exploração madeireira, agricultura comercial e desenvolvimento de infraestrutura.
O relatório detalha como a gestão indígena dos territórios – incluindo patrulhas comunitárias, áreas de conservação e normas sobre o uso da terra – gera benefícios para o clima e a biodiversidade. Também mostra como a resistência indígena diante da expansão industrial contribui diretamente para o cumprimento das metas climáticas globais.
Exemplos de práticas indígenas locais com impactos positivos sobre o clima e a biodiversidade:
- No Brasil, o povo Mamoadate protege árvores frutíferas silvestres e palmeiras essenciais para a fauna local.
- No Equador, as comunidades Kichwa restringem a caça de fêmeas de anta, onça-pintada e outras espécies para evitar a diminuição de suas populações.
- No México, comunidades Zapotecas designam comitês para monitorar o território e brigadas para combater incêndios florestais.
- Em Papua-Nova Guiné, o povo Waka impõe tabus sobre o uso do capim kunai para cobrir casas em determinadas épocas do ano, permitindo sua regeneração.
- No Quênia, os anciãos Pokot se reúnem em uma assembleia tradicional conhecida como Kokwo para decidir sobre o uso da terra, guiados por histórias e cantos que transmitem conhecimentos ecológicos às novas gerações.
- Na Indonésia, famílias Batak Toba proíbem o desmatamento próximo aos rios para prevenir a erosão e proteger as fontes de água doce.
- Na Rússia, comunidades Yukaghir proíbem ruídos excessivos e perturbações próximas aos rios durante a temporada de desova do salmão.
Integrar o conhecimento indígena às políticas climáticas e de biodiversidade
Apesar do papel fundamental que os povos indígenas desempenham na conservação de ecossistemas saudáveis, seus territórios enfrentam ameaças cada vez maiores. Segundo o estudo, entre 2018 e 2024 os territórios indígenas perderam 2 bilhões de toneladas métricas de carbono irrecuperável – uma quantidade equivalente às emissões anuais de aproximadamente 1,7 bilhão de carros movidos a gasolina – devido à mineração, à expansão agrícola, aos incêndios e a outras pressões. Além disso, cerca de 61% das pessoas indígenas entrevistadas relataram impactos diretos de indústrias extrativas e projetos de infraestrutura.
Embora exista um consenso global cada vez maior sobre a necessidade de financiar a conservação liderada por povos indígenas, esses recursos raramente chegam diretamente às organizações indígenas.
Pesquisas anteriores demonstraram que os povos indígenas e as comunidades locais administram tradicionalmente pelo menos metade das terras naturais do planeta, embora seus direitos estejam formalmente reconhecidos em apenas 19% desses territórios. Sem reconhecimento legal de seus direitos territoriais, muitas comunidades indígenas não conseguem investir na gestão de seus territórios nem se proteger contra a apropriação de terras e outras invasões.
“O conhecimento indígena sustenta alguns dos esforços de conservação mais eficazes do mundo e, ainda assim, por muito tempo foi ignorado, minimizado ou relegado ao segundo plano”, diz Johnson Cerda, que lidera o trabalho da Conservation International com povos indígenas e comunidades locais e é coautor do estudo.
“Com este estudo, os povos indígenas levantam suas vozes e compartilham suas experiências. Esperamos que formuladores de políticas públicas, em nível nacional e internacional, invistam nesse conhecimento e incorporem essas práticas em suas decisões. Em um momento em que as crises do clima e da biodiversidade se intensificam, ouvir as comunidades indígenas é uma questão de sobrevivência”, diz Cerda.
Sobre o estudo
Publicado na Humanities and Social Sciences Communications, este estudo foi realizado em colaboração com especialistas e comunidades indígenas da África, Ásia, Américas e Pacífico. Cinco integrantes da equipe de pesquisa da Conservation International também se identificam como indígenas.
Vozes indígenas
A seguir, algumas citações selecionadas de pessoas indígenas entrevistadas. Embora as respostas tenham sido anonimizadas para proteger a identidade dos especialistas e evitar vieses, cada citação inclui a comunidade e o país de origem da pessoa entrevistada. As entrevistas foram realizadas nos idiomas dos participantes e traduzidas por tradutores profissionais.
“O objetivo dessas normas é garantir a sobrevivência da comunidade; somos proibidos de destruir a função da terra.”
– Batak Toba, Indonésia
“O que vocês chamam de gestão do uso da terra já foi planejado desde a origem, porque nossos avós conhecem a terra e a administram de acordo com a lei de origem. Já existe um ordenamento, por isso nos perguntamos por que reorganizar algo que já foi organizado antes. Eles conhecem o que existe em seu território: os limites, as terras sagradas, os rios, as áreas de caça e pesca. Tudo isso está claro.”
– Witoto, Colômbia
“Com as práticas tradicionais existe esse movimento de um lugar para outro em busca de áreas de pastagem; isso, por si só, é um mecanismo para controlar os impactos das mudanças climáticas.”
– Maasai, Tanzânia
“Parte do conhecimento tradicional já não pode mais ser aplicada em algumas regiões. Esse conhecimento funciona muito melhor em lugares onde o meio ambiente ainda está mais preservado.”
– Kui/Kuy, Camboja
“Havia pequenos sinais, como observar as formigas para saber quando iria chover, mas as pessoas já não podem confiar no conhecimento tradicional porque ele se baseava em padrões, em algo que acontecia todos os anos. Agora esses padrões desapareceram.”
– Povo Wapichan, Guiana
