Mesmo em uma região de abundância hídrica, Manaus pode enfrentar risco crítico de escassez até 2040. Entre os motivos, está o agravamento da estiagem como efeito da mudança climática, associado ao aumento de consumo projetado para o consumo humano e principalmente para o setor industrial. Reduzir o uso indiscriminado de sistemas individuais de abastecimento e ampliar a adesão do setor industrial de Manaus ao sistema público de abastecimento são caminhos apontados pelo Instituto Trata Brasil e GO Associados
Mesmo localizada na região amazônica, onde está a maior bacia hidrográfica do mundo, Manaus enfrenta riscos para a segurança hídrica nos próximos anos. Os impactos das mudança climática e o uso indiscriminado de poços subterrâneos podem levar a capital do Amazonas a atingir níveis críticos de abastecimento até 2040. É o que indica o estudo inédito O desafio da segurança hídrica na região de Manaus e políticas de sustentabilidade, produzido pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com a GO Associados.
Entre os principais pontos destacados pelo estudo está a necessidade de diversificar a matriz hídrica para reduzir os impactos da estiagem e do alto consumo de águas subterrâneas no abastecimento da capital do Amazonas. A estimativa é de que haja mais de 27 mil poços em operação na cidade, enquanto apenas 5 mil estão registrados pelos órgãos de controle.
De acordo com o estudo, a adesão à rede pública de abastecimento é uma alternativa para reduzir a dependência dos poços. Nesse contexto, a indústria tem um papel fundamental, uma vez que parte do setor ainda utiliza água de captação subterrânea para operar.
A pesquisa aponta que a adesão das indústrias ao sistema público de abastecimento tende a reduzir os custos fixos do sistema, viabilizando o subsídio cruzado que garante tarifas mais baixas às categorias residencial, social e vulnerável, com benefícios para a população em geral.
Para Luana Pretto, presidente executiva do Instituto Trata Brasil, o desafio da água está diretamente ligado ao planejamento. “Segurança hídrica se constrói com planejamento e mitigação de risco, e o caso de Manaus mostra isso com clareza. A cidade depende fortemente do Rio Negro, mas também recorre a poços que muitas vezes operam sem outorga e sem controle adequado. Investir hoje em reúso, uso racional e controlado dos poços, monitoramento e proteção de mananciais reduz riscos para a população e para as empresas. É assim que o País avança rumo à universalização do saneamento, com responsabilidade e visão integrada”, destaca.
O diretor-presidente da Água de Manaus, Pedro Freitas, entende que a região vive um momento decisivo para o evitar os riscos de desabastecimentos a médio prazo. “Estamos empenhados em mobilizar os mais diversos setores nesse tema porque sabemos que o saneamento é um desafio coletivo. Isso passa por ampliar a conscientização sobre a diversificação da matriz hídrica de Manaus, avançar no combate às perdas e preservar as nossas fontes naturais de água”, afirma. Para ele, o papel da indústria é fundamental para ampliar a adesão ao serviço público de abastecimento e garantir a sustentabilidade do sistema.
“Os setores públicos e privados, assim como a população, podem contribuir para ampliar o acesso à água com qualidade e segurança ao aderirem ao sistema. Este estudo demonstra, em especial, como a adesão do setor industrial à rede de abastecimento pode gerar uma cadeia de benefícios, incentivando outros segmentos a também se conectarem à rede e promovendo um uso mais sustentável dos recursos hídricos”, defende Freitas.
Manaus tem cerca de 2 milhões de habitantes (IBGE, 2025) e 97% de cobertura de abastecimento de água. O sistema de abastecimento é misto, combinando captação superficial no Rio Negro, por meio de quatro sistemas, e captação subterrânea via um conjunto de 50 poços, resultando em 84% do volume de origem superficial e 16% subterrânea. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o impacto potencial da mudança do clima para 2040 na disponibilidade hídrica da região está classificado, majoritariamente, como “classe crítica”, indicando alta probabilidade de que a oferta de água se torne insuficiente no médio prazo, com uma parcela menor da região em “classe alerta”.
As projeções para 2040, de acordo com a ANA, apontam aumento de 7% nas retiradas totais de água, com destaque para o crescimento de 43% na demanda do setor industrial e de 23% no abastecimento humano. Esse cenário leva a riscos de consumo elevado de água subterrânea associados a previsões de secas mais intensas, o que reforça a necessidade de diversificar a matriz hídrica, poupar as fontes subterrâneas e reduzir perdas e desperdícios.
Três aspectos são de extrema relevância para aprimorar a segurança hídrica da região, segundo o estudo: diversificar a matriz hídrica com fontes de origem alternativa; poupar as fontes naturais de água e principalmente as subterrâneas que desempenham papel primordial no equilíbrio da vazão das águas superficiais; e gerenciar perdas gerais e desperdícios de água nos setores mais hidro intensivos da matriz de demanda da região.
O risco subterrâneo
O uso individual descontrolado da água subterrânea, um recurso compartilhado, pode levar ao colapso coletivo. Alcançar a segurança hídrica significa garantir disponibilidade de água para as necessidades humanas, para a prática de atividades econômicas e para a conservação dos ecossistemas aquáticos, em um nível aceitável de risco relacionado a secas e cheias. No Brasil, a outorga de uso da água é o instrumento legal que disciplina e controla essas retiradas, previsto na Lei nº 9.433, de 8 de janeiro de 1997.
No Amazonas, contudo, a obrigatoriedade da outorga só passou a valer em 2016, por meio de portaria normativa do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), aplicável aos 67 municípios do estado, incluindo Manaus. Estimativas apontam uma diferença expressiva entre o número de poços formalmente registrados em Manaus e o número real em operação: um estudo indica que, até 2022, a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais do Brasil (CPRM) tinha o registro de quase 5 mil poços em operação em Manaus, número inferior a estimativa de 27 mil poços em funcionamento produzida pelos autores, o que evidencia uma lacuna relevante de fiscalização e controle sobre o uso das águas subterrâneas no município, tanto em relação à captação subterrânea quanto à captação superficial sem outorga.
Conclusões do estudo:
Reduzir a vulnerabilidade hídrica passa por um conjunto de medidas que combinam tecnologia, planejamento e responsabilidade ambiental. O tratamento e o reaproveitamento de águas residuais, o reúso em processos não potáveis e a captação de águas pluviais ampliam as fontes disponíveis e diminuem a dependência de aquíferos e mananciais superficiais.
Ao mesmo tempo, o monitoramento constante e a automação dos processos produtivos ajudam a identificar perdas e a tornar o consumo mais eficiente, fortalecendo a governança ESG das empresas. Essa agenda também inclui a proteção de ecossistemas ligados à água, como o reflorestamento de margens de rios e a conservação de nascentes, além do uso responsável das águas subterrâneas, com atenção especial para evitar a superexploração e incentivar a recarga artificial dos aquíferos. Educação ambiental e engajamento social completam esse esforço, na medida em que aproximam empresas e comunidades em torno de práticas mais conscientes.
Por fim, alinhar essas ações às exigências regulatórias reforça o compromisso das companhias da região com a transparência e a sustentabilidade. Vale ressaltar que a migração das indústrias para a rede de abastecimento tem um impacto positivo na estrutura tarifária do serviço, uma vez que o subsídio cruzado faz parte da garantia do investimento para a universalização dos serviços.
