Relatório do Pnuma indica que o planeta deverá exceder temporariamente o limite estabelecido pelo Acordo de Paris. Especialistas alertam que a intensidade e a duração do overshoot serão decisivas para os impactos sobre pessoas, ecossistemas e economias; perdas associadas aos impactos climáticos podem representar mais de 2% do PIB global
O planeta deverá ultrapassar o limite de 1,5 grau de aquecimento global estabelecido pelo Acordo de Paris nos próximos anos. A constatação, apresentada em relatório especial divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), representa um marco preocupante no enfrentamento da crise climática, mas não significa que a meta deva ser abandonada.
Ao contrário, cientistas, organizações da sociedade civil e especialistas reunidos para discutir o novo cenário defendem que a ultrapassagem – conhecida como overshoot – deve funcionar como um alerta para acelerar a redução das emissões, limitar ao máximo o pico de aquecimento e reduzir o tempo em que o planeta permanecerá acima de 1,5 grau.
No cenário mais otimista, segundo o Pnuma, a temperatura média global poderá atingir um pico de aproximadamente 1,8 grau acima dos níveis pré-industriais. Outros cenários apontam para um aumento superior a 2 graus com consequências ainda mais graves para os ecossistemas, as populações e a economia mundial.
“Fomos derrotados por nós mesmos. Ultrapassamos, segundo a ONU, o limite de temperatura que a humanidade concordou em evitar quando 195 países assinaram o Acordo de Paris, em 2015. Passamos da barreira de 1,5 grau de aumento da temperatura média da Terra em relação ao período pré-industrial. Falhamos em cuidar da nossa casa comum. Mas ainda há tempo para evitar os piores impactos da mudança climática”, afirma André Guimarães, diretor executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e enviado especial da sociedade civil para a COP 30.
A meta de limitar o aumento da temperatura média global a 1,5 grau em relação aos níveis pré-industriais foi estabelecida no Acordo de Paris, em 2015, como referência para evitar os efeitos mais perigosos da mudança climática. O novo cenário indica que esse limite deverá ser ultrapassado temporariamente antes que, eventualmente, as temperaturas possam voltar a cair.
Essa trajetória, definida pelo Pnuma como “ultrapassagem, pico e declínio” — overshoot, peak and decline — passa agora a ser considerada a melhor alternativa ainda disponível. A dimensão do desafio, porém, dependerá de duas variáveis fundamentais: até que ponto a temperatura global subirá e por quanto tempo permanecerá acima de 1,5 grau.
“Ultrapassar 1,5 grau não é um precipício, mas também não é algo inofensivo. Cada fração de grau de aquecimento aumenta os riscos para as pessoas e a natureza, enquanto cada fração de grau que evitamos reduz os danos”, afirma Stephanie Roe, cientista-chefe global de Clima e Energia do WWF. “O que importa agora é até que ponto as temperaturas subirão acima de 1,5 grau e por quanto tempo permanecerão nesse nível.”
Não é hora de reduzir a ambição
O reconhecimento de que o overshoot se tornou provável não representa, segundo especialistas, o fracasso definitivo do Acordo de Paris nem justifica o enfraquecimento das metas climáticas. Pelo contrário: a ultrapassagem deve reforçar a urgência da ação.
“O mundo está perigosamente próximo de ultrapassar o limite de 1,5 grau. Mas isso não é motivo para desistir, deve ser um gatilho para a ação. Quanto mais tempo o mundo permanecer acima desse limite, maiores serão os riscos para as pessoas, a natureza e as economias”, afirma Manuel Pulgar-Vidal, líder global de Clima e Energia do WWF e presidente da COP 20.
Para ele, o desafio político está em decidir se os governos permitirão que o mundo avance para níveis ainda mais perigosos de aquecimento ou se agirão para manter a ultrapassagem “tão pequena e breve quanto possível”. “Isso significa planos climáticos nacionais mais robustos, mais financiamento, cortes mais rápidos na poluição e apoio efetivo às pessoas que já enfrentam os piores impactos da crise climática”, diz.
Tatiana Oliveira, líder da Estratégia Internacional do WWF-Brasil, ressalta que o aumento da temperatura acima de 1,5 grau torna ainda maior o custo da demora.
“Ultrapassar 1,5 grau não significa que o Acordo de Paris perdeu seu sentido. Significa que o custo da demora ficou ainda maior. Cada décimo de grau que conseguirmos evitar representa vidas, territórios e ecossistemas que deixam de estar em risco”, afirma Oliveira. “A ciência já nos mostrou o caminho. O que falta é transformar conhecimento em decisão e decisão em ação.”
Um planeta mais instável
Manter o aumento da temperatura média global próximo de 1,5 grau continua sendo essencial para reduzir a instabilidade do sistema climático e os riscos para os ecossistemas terrestres. Como os oceanos, que cobrem a maior parte do planeta, aquecem de maneira diferente das áreas continentais, uma média global de 1,5 grau significa aumentos significativamente maiores em muitas regiões sobre os continentes.
Com o avanço do aquecimento, eventos extremos como ondas de calor, secas, chuvas intensas e perdas na produção agrícola tendem a se tornar mais frequentes ou intensos. Os impactos também se distribuem de maneira desigual, atingindo com maior força populações e países mais vulneráveis.
O cenário já começa a impor custos econômicos relevantes. Em debate promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), o economista Sergio Margulis, especialista sênior do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS) e professor de Economia da Sustentabilidade da PUC-Rio, alertou que, em um cenário de aquecimento entre 1,5 grau e 1,7 grau as perdas associadas aos impactos climáticos podem representar mais de 2% do Produto Interno Bruto (PIB) global.
Os prejuízos incluem danos à infraestrutura, à agricultura, à saúde e aos sistemas de energia. Para Margulis, ampliar os investimentos na descarbonização é economicamente mais racional do que adiar a transição e enfrentar, posteriormente, custos ainda maiores com perdas e adaptação. O economista destacou que os investimentos necessários para acelerar a descarbonização global podem chegar à ordem de US$ 5 trilhões anuais. Adiar essas ações, no entanto, pode tornar a conta ainda maior.
Quanto maior e mais longo o overshoot, maior o risco
A cientista Thelma Krug, presidente do Comitê Diretor do Sistema Global de Observação do Clima (GCOS), da Organização Meteorológica Mundial (OMM), destacou que a dimensão e a duração da ultrapassagem serão determinantes para os impactos futuros.
Quanto maior for o aquecimento acima de 1,5 grau e quanto mais tempo ele persistir, maior será a necessidade de remover dióxido de carbono da atmosfera para tentar trazer a temperatura de volta a níveis inferiores ao limite estabelecido pelo Acordo de Paris.
“Os jovens de hoje vão viver um mundo em que terão que lidar com um aquecimento acima de 1,5 grau, com um pico que não sabemos qual será e, depois, com um processo lento de reversão, se formos capazes de reverter”, afirma.
Segundo Krug, o planeta já registra cerca de 1,37 grau de aquecimento em relação aos níveis pré-industriais. Com um orçamento de carbono restante estimado em cerca de 130 bilhões de toneladas de CO₂ para limitar o aquecimento a 1,5 grau, e emissões fósseis e industriais anuais próximas de 40 bilhões de toneladas, o tempo disponível é extremamente curto.
“Fazendo uma conta bem rápida, teríamos três ou quatro anos para limitar o aquecimento, se continuarmos no ritmo atual de emissões”, explica Krug.
O desafio não é apenas reduzir as emissões, mas também preparar a sociedade para um planeta que continuará enfrentando consequências do aquecimento já acumulado. Mesmo em um cenário futuro de redução das temperaturas, alguns efeitos persistirão por décadas ou séculos.
A elevação do nível do mar é um dos exemplos. Em cidades costeiras, o avanço dos oceanos continuará representando um risco de longo prazo, mesmo que o aquecimento global seja posteriormente reduzido. No Brasil, a combinação entre a elevação do nível do mar, chuvas intensas e eventos meteorológicos extremos pode ampliar a vulnerabilidade de diversas áreas urbanas.
Adaptação exige olhar para o futuro
O novo cenário também reforça a necessidade de incorporar projeções climáticas ao planejamento das cidades, da agricultura e da infraestrutura, considerando que os impactos serão diferentes entre as regiões brasileiras. Enquanto o Sul tende a enfrentar chuvas mais intensas e frequentes, a Amazônia e o semiárido podem sofrer com secas prolongadas e ondas de calor mais severas.
Para Thelma Krug, governos e sociedades precisam deixar de planejar apenas com base no clima do passado. “Normalmente, olhamos pelo retrovisor e falamos: ‘vou me adaptar para o que aconteceu’. A gente reage às coisas que aconteceram e não projeta o que pode acontecer. É preciso repensar a agricultura, a saúde, as cidades e a construção civil”, afirma.
A adaptação, no entanto, não substitui a mitigação. Preparar cidades e populações para eventos extremos é indispensável, mas não elimina a necessidade de reduzir rapidamente as emissões de gases de efeito estufa.
“Podemos redesenhar nosso futuro neste planeta. Vai ser difícil, caro e trabalhoso, mas nosso livre-arbítrio nos permite fazer escolhas. Devemos exercê-lo para nos manter vivos. Temos que reduzir urgentemente a queima de combustíveis fósseis, acabar com a conversão de florestas e mudar, de forma geral, nossa relação com a natureza. É possível”, afirma André Guimarães.
Combustíveis fósseis e desmatamento no centro da resposta
Nesse contexto, a redução do uso de combustíveis fósseis e o combate ao desmatamento permanecem como elementos centrais da resposta à crise climática.
A entrega dos Mapas do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis e para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal é apontada como uma oportunidade para orientar esforços globais de redução das emissões. A apresentação e a implementação de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) mais ambiciosas e compatíveis com a urgência climática também precisam estar entre as prioridades dos governos.
Os compromissos climáticos atuais ainda estão longe do necessário para colocar o mundo em uma trajetória compatível com os objetivos do Acordo de Paris. Segundo dados do NDC Tracker, os compromissos apresentados pelos países signatários prometem uma redução de quase 2 gigatoneladas de CO₂ até 2035 – cerca de 31 gigatoneladas abaixo do necessário para manter o aquecimento abaixo de 1,5 grau e 20 gigatoneladas abaixo do necessário para limitar o aumento da temperatura a menos de 2 graus.
Ao mesmo tempo, especialistas ressaltam que houve avanços desde a assinatura do Acordo de Paris. Em 2015, o mundo estava em uma trajetória estimada de cerca de 4 graus de aquecimento. A adoção de compromissos nacionais, políticas de transição energética e metas de neutralidade de emissões ajudou a reduzir essa projeção.
O problema é que o ritmo das transformações ainda é insuficiente. A principal questão, agora, deixou de ser se o planeta conseguirá evitar completamente a ultrapassagem temporária de 1,5 grau. O desafio passa a ser impedir que ela seja profunda e prolongada.
“O overshoot não coloca o Acordo de Paris em xeque. Ele alerta os países de que agora vamos ter que segurar o aumento acima de 1,5 grau para poder reverter”, conclui Thelma Krug.
A mensagem dos especialistas é, portanto, clara: ultrapassar o limite de 1,5 grau não transforma um planeta mais quente em algo inevitavelmente aceitável, nem elimina a importância da meta. Cada fração de grau evitada poderá significar menos perdas, menos danos e maior capacidade de adaptação.
A ultrapassagem do limite deve ser entendida como um alerta sobre o tamanho da demora – e como um chamado para acelerar as decisões que ainda podem definir a intensidade e a duração da crise climática.
