O candidato que promete segurar a inflação e reindustrializar o País ignorando a transição ecológica e a circularidade está preso no século passado.
Por Marcelo Souza*
O debate eleitoral de 2026 possui um ponto cego. Enquanto candidatos à Presidência da República e ao Congresso Nacional repetem fórmulas exaustivas sobre juros, segurança, infraestrutura e reindustrialização, o Brasil real lida com uma variável que teima em não caber nos velhos planos de governo: a inflação climática.
Para grande parte da classe política, a mudança climática ainda é tratada como uma “pauta ambiental” — uma agenda paralela, quase acessória. A realidade macroeconômica, no entanto, mostra o oposto. O clima é, hoje, o principal fator de risco sistêmico da nossa economia. Ele já está embutido no preço do alimento na gôndola, na conta de energia, no custo do seguro e na ruptura de infraestruturas logísticas.
Apenas em 2024, o Brasil registrou mais de 1 milhão de pessoas desabrigadas ou desalojadas por enchentes e deslizamentos, seguidas pela pior seca em 70 anos. Em 2025, outros 336 mil brasileiros foram afetados por eventos extremos, expondo uma vulnerabilidade hídrica e estrutural crônica.
Mais do que tragédias humanitárias, esses números representam choques de oferta, destruição de capital e encarecimento do custo de vida. Estamos diante da primeira eleição geral após o Brasil sediar a COP 30, em Belém. O País firmou compromissos globais e assumiu um protagonismo retórico inegável. Agora, a fatura chegou.
O que está em jogo nas urnas de 2026 é quem tem capacidade de transformar os discursos climáticos em política industrial, de Estado e de geração de riqueza. E é aqui que os discursos eleitorais costumam falhar. Prometer uma “transição energética” baseada apenas em instalar mais painéis solares e eólicas é propor uma solução incompleta.
Não existe transição verde, nem reindustrialização competitiva, sem a reinserção de materiais na cadeia produtiva.
Enquanto o mundo trava uma guerra geopolítica por minerais críticos, terras raras e componentes essenciais para a economia digital, o Brasil joga fora bilhões de dólares todos os anos em resíduos eletrônicos, sucata tecnológica e desperdício industrial. Enterramos em aterros a matéria-prima do futuro.
O candidato que fala em soberania nacional, mas ignora a urgência de uma política robusta de Economia Circular e Mineração Urbana, não entendeu a dinâmica da competitividade global neste século. Redesenhar cadeias produtivas para reaproveitar componentes, estruturar a logística reversa em escala e transformar o descarte em insumo não é ativismo ecológico — é política de segurança econômica.
O Brasil reúne vantagens que nenhuma outra grande economia possui: uma matriz elétrica majoritariamente limpa, uma base industrial capaz de ser atualizada e uma biodiversidade ímpar. O que nos falta é a intencionalidade de conectar essas pontas.
Ao ouvirmos as plataformas dos candidatos nas próximas semanas, o filtro não deve ser apenas quem promete preservar a Amazônia, mas quem compreende que a resposta ao colapso climático passa por dentro das fábricas, da neoindustrialização e da reinvenção de como produzimos e descartamos materiais.
O combustível do futuro não é apenas uma nova matriz de energia. É a capacidade de não desperdiçar o que já foi extraído. O político que ignorar essa premissa não terá como entregar as antigas promessas de inflação controlada e crescimento duradouro.
*Presidente do Instituto Nacional de Economia Circular (Inec); CEO da Indústria Fox Economia Circular; professor da PUC Campinas; autor de Marketing Circular.
