Segundo pesquisa lançada pelo Cebrap e ClimaInfo, adiar uma transição nos setores agroalimentar e energético implica em mais custos biofísicos, econômicos, sociais e fiscais do que implementá-la. O estudo também alerta para o risco de o Brasil avançar na descarbonização, mas reproduzir uma lógica de “neoextrativismo verde”, mantendo a dependência da exportação de produtos primários de baixo carbono
O Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e o ClimaInfo lançaram na quarta-feira (26) o estudo Cenários e custos da transição ecológica no Brasil – As interdependências entre a transição energética e a transição agroalimentar e os riscos de um neoextrativismo verde. A pesquisa analisa diferentes caminhos para a transição ecológica brasileira e mostra que as transformações nos sistemas energético e agroalimentar precisam ser pensadas de forma integrada.
O estudo parte do entendimento de que energia, produção de alimentos, uso da terra, biodiversidade e exploração de minerais críticos fazem parte de um mesmo sistema. Decisões que são tomadas nessas áreas têm impactos sobre as demais e exigem maior coordenação de políticas públicas, investimentos e planejamento territorial. Entre as conclusões da pesquisa está a de que adiar uma transição ecológica implica em mais custos ecológicos, biofísicos, econômicos, sociais e fiscais.
“O levantamento mostra que os custos da inação, isto é, de continuar fazendo as coisas como fazemos hoje, já são muito maiores do que os custos de uma transição melhor”, destacou Arilson Favareto, pesquisador do Cebrap e um dos autores do estudo. “Apresentamos alguns caminhos para passar do cenário inercial que estamos agora, para um cenário mais desejado”.
No sistema agroalimentar, os custos sistêmicos do modelo atual são estimados entre US$ 410 bilhões e US$ 526 bilhões por ano, enquanto os investimentos acumulados necessários para sua transição são calculados entre US$ 268 bilhões e US$ 511 bilhões até 2050. Isso significa que entre meio ano e pouco mais de um ano dos custos associados ao funcionamento do modelo atual equivalem, em ordem de grandeza, ao investimento estimado para sua transformação estrutural.
No setor energético, essa equivalência ocorre em um horizonte de aproximadamente 1,5 a 3 anos. Os custos sistêmicos atuais são estimados entre US$ 300 bilhões e US$ 428 bilhões por ano. Já os investimentos necessários para a transição até 2050 ficariam entre US$ 597 bilhões e US$ 915 bilhões — o equivalente a aproximadamente um ano e meio a três anos dos custos sistêmicos do modelo atual.
Os autores da pesquisa destacam que essa comparação não significa que os investimentos na transição seriam recuperados financeiramente nesse período. Ela mostra, porém, a dimensão dos custos econômicos, ambientais e sociais de manter as trajetórias atuais e reforça a viabilidade econômica de uma transformação de longo prazo.
Transição energética e agroalimentar precisam caminhar juntas
No Brasil, o peso do sistema agroalimentar e do uso da terra na agenda climática é grande. Ao mesmo tempo, a transformação desse setor apresenta oportunidades importantes, como a recuperação de pastagens degradadas, a intensificação sustentável da pecuária, a restauração de ecossistemas, o avanço da bioeconomia e o uso de bioinsumos.
Na energia, a transição exige investimentos mais intensivos em capital e infraestrutura, envolvendo expansão de fontes solar e eólica, eletrificação dos transportes, modernização de redes e armazenamento, eficiência energética, hidrogênio verde e combustíveis sustentáveis.
O relatório também alerta que ampliar a participação de fontes renováveis ou de atividades consideradas verdes não garante, por si só, uma transição sustentável. Algumas soluções criadas para reduzir as emissões podem aprofundar outros aspectos da crise ambiental, como a perda de biodiversidade e a pressão sobre recursos essenciais à produção de alimentos e à conservação dos ecossistemas.
“Os biocombustíveis, por exemplo, ajudam a reduzir as emissões de gases de efeito estufa, mas podem ser produzidos em grandes plantações que avançam sobre áreas de floresta, intensificando a perda de biodiversidade. Assim, resolvemos uma parte do problema, mas agravamos outra”, explica Favareto.
Três cenários para o futuro
Para analisar os possíveis caminhos do Brasil, os pesquisadores trabalham com três cenários. No cenário de Business as Usual — de continuidade do modelo atual — as tecnologias verdes avançam, mas sem uma transformação estrutural. As renováveis crescem, porém sem substituição profunda dos fósseis, enquanto a economia mantém forte especialização primária e persistem desigualdades e pressões ambientais.
O segundo cenário considera uma transição orientada pelas NDCs (Contribuição Nacionalmente Determinada), com o cumprimento dos compromissos climáticos assumidos pelo Brasil, redução significativa das emissões, eliminação do desmatamento ilegal até 2030 e expansão das energias renováveis. Ainda haveria uma coordenação incompleta entre os diferentes setores.
Já o cenário de Transição Justa e Sustentável prevê uma coordenação sistêmica entre políticas energéticas, agroalimentares, industriais e ambientais. Nesse caminho, a descarbonização é associada à regeneração dos ecossistemas, redução das desigualdades, diversificação produtiva e recuperação de áreas degradadas, eliminando a necessidade de expansão da fronteira agrícola.
“A transição é viável do ponto de vista econômico e também tecnológico. O que a gente precisa é ter vontade política para conseguir colocar de pé essa transição e, de fato, fazer com que ela seja justa e traga benefícios para a sociedade como um todo”, afirma Carolina Marçal, coordenadora de projetos do ClimaInfo.
Risco do neoextrativismo verde
Um dos principais alertas do estudo é que a transição ecológica não será necessariamente justa e sustentável apenas porque envolve atividades de baixo carbono. Sem coordenação, o Brasil corre o risco de manter uma economia concentrada na exportação de produtos primários, agora incorporando novas atividades associadas à economia verde. O relatório identifica a possibilidade de formação de um padrão de especialização baseado em agro, energia e minerais, caracterizado como “neoextrativismo verde”.
Nesse cenário, a expansão de atividades necessárias à descarbonização pode reproduzir problemas históricos, como pressão sobre territórios e recursos naturais, concentração dos benefícios econômicos e baixa agregação de valor.
Por outro lado, o estudo aponta que uma transição conduzida de forma integrada pode representar uma oportunidade para o Brasil combinar descarbonização, regeneração ecológica, inclusão social e diversificação produtiva, transformando a agenda climática em uma estratégia mais ampla de desenvolvimento.
“Não estamos refém desse cenário do extrativismo verde. É possível pensar uma transição que não se baseie unicamente na exportação de bens primários, ainda que de menor pegada de carbono”, reforça Jordano Roma, pesquisador do Cebrap e um dos autores do estudo, ao lado de Felipe Pinto da Silva, economista e pesquisador do Centro de Imaginação Crítica do Cebrap.
